OPINIÃO
18/02/2014 11:27 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

Da coragem de dar a cara a tapas, do suspiro fundo, e do seguir em frente

Naquele começo de ano eu já não conseguia mais respirar em São Paulo. Tudo o que já tinha sido tão caloroso me parecia agora opressor. Aquela fumaça escura no céu, que às vezes se forma em dias de poluição exaltante e serve para acalmar o sol, já não tinha mais nada de charmosa como antes; é, era realmente hora de ir embora. A decisão estava tomada, e mesmo os seis melhores meses profissionais da minha carreira de jornalista que se seguiriam a essa escolha não me fariam mudar de ideia. Era tempo de partir.

Em Paris, eu fui do ápice ao fundo do poço, como acontece em qualquer grande viagem em que a gente se jogue sem medo. Conheci pessoalmente os tais flocos de neve -- e vi que eles são mesmo tudo isso o que dizem --, resmunguei com os parisienses, peguei expressões emprestadas deles, comi seus queijos, bebi seus vinhos, andei em suas bicicletas, estudei em suas salas de aula e trabalhei em suas empresas. Jamais, entretanto, me senti um deles -- algo que eles deixam muito claro, dia após dia, contato após contato. Tudo bem. Tudo bem, porque a gente vai fazendo as coisas meio desavisadamente, vai tentando viver o cotidiano sem se dar conta da situação global em que está, como se fizesse parte de qualquer lugar nem tão especial assim. Até que um dia se dá conta de que aquele período terá provavelmente um fim e de que é preciso fazer o que for melhor do tempo que lhe resta. E rápido.

Pois foi mais ou menos neste dia, ou um dia depois, que se deu meu inevitável encontro com a arte. Que deveria, de verdade, acontecer com todo mundo. Eu andava pela rua como sempre em um estado meio letárgico, meio deslumbrado, quando de supetão fui acometida por aquelas sinapses que de repente levam todo o resto a fazer sentido e você finalmente entende o que é que está fazendo ali. Eu não poderia ter um trabalho como todos os outros que teria no Brasil morando na França, eu precisava encontrar uma maneira de me aproximar de forma mais definitiva do universo criativo que tanto me intrigava. Eu precisava trabalhar numa galeria de arte. Tinha que viver daquela beleza, rodeada de sentido de todos os lados. Afinal, a arte era a maneira mais fácil de levar a vida, e era a única que podia ter alguma coerência. Na solidão de uma terra que não era a minha, me refugiar durante horas junto às ninfas de Monet na Orangerie do Jardim des Tuilleries se tornou o programa que mais acalentava meu espírito. Eu esquecia de todo o resto e só conseguia pensar no quanto de beleza existia no mundo, e o quanto eu ainda seria capaz de ver dela.

Da melhor entrevista de emprego seguiram-se os dez melhores meses de trabalho da minha vida, o que culminou em uma grande paixão desperta, inesperada, que arde em chamas como a adolescente que de fato é. E a volta para o Brasil envolve uma retomada de quem eu me tornei neste universo de contos de fada que não poderia durar para sempre, e que precisa ser adaptado à minha língua, minha formação profissional, meus contatos e minha experiência para ser delicadamente transformado em meu objeto de ganha pão.

Só que a minha história, por mais bonitinha que seja, não é tão diferente assim da sua. Ou daquela sua prima que foi estudar cinema em Nova York e voltou meio perdida. Ou da sua ex-namorada que queria abrir uma empresa criativa e não sabia por onde começar. Ou quem sabe da sua irmã, mesmo, que saiu do interior para tentar a vida em São Paulo, conseguiu um emprego bacana em uma firma de advocacia, mas na verdade é apaixonada por música e gostaria muito de encontrar uma forma de viver disso. Veja bem: eu não tenho a solução para os problemas de ninguém -- nem para os meus. Porém, a única coisa que eu faço há dois anos é pensar sobre a forma como os setores criativos adentram nossas vidas a cada dia, nos proporcionam experiências inovadoras antes inimagináveis e nos apresentam ideias que podem até não ser respostas, mas ao menos nos permitem fazer perguntas que não fazíamos antes.

"Que legal esse curso que você fez, Indústrias Criativas, muito legal mesmo... mas assim, o que é isso, exatamente?" Então, todo mundo tem noção e é bem mais simples do que nós pensamos: são os setores culturais que participam ativamente na geração de renda de uma cidade ou país e que, portanto, movimentam sua economia. O conceito foi lançado inicialmente em 1998 pelo Departamento de Cultura, Mídias e Esporte da Inglaterra e já sofreu várias contestações e propostas de alterações, mas basicamente as áreas promovidas são as seguintes: publicidade, arquitetura, mercado de arte e de antiguidades, artesanato, design, moda, cinema, videogames, música, artes cênicas, editoração, desenvolvimento de software e tecnologia da informação, televisão e rádio. Qualquer empresa ou profissional que atue em uma dessas áreas é considerado parte integrante da economia criativa.

Proponho divagação, prometo textos leves e torço por discussões respeitosas. Ideias novas surgirão e se dissiparão com o vento das esperanças profundas, esperanças de que caiam em terreno frutífero e em mentes realizadoras. Afinal, o que essas indústrias mais precisam para florescer é de gente que tenha este grande dom que é a habilidade para criar.