OPINIÃO
18/09/2014 12:58 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Criatividade: um negócio que só existe em ambientes bacanas

Algumas grandes empresas tentam, a gente sabe, e isso é louvável, mas eu não consigo deixar de crer que a solução para um ambiente estimulante é estar onde funcione para você.

Alija via Getty Images

Nos sopros finais do século 19, Friedrich Nietzsche sofria de terríveis crises de enxaqueca, mal de pulmão e uma doença degenerativa. Mas precisava permanecer escrevendo, que era o único bem que lhe restava depois que as doenças o impediram de dar aulas na Universidade da Basileia. Por recomendação médica, então, passava os verões nos Alpes e os invernos nas Rivieras francesa e italiana, onde fazia uma mala pequena, se instalava sempre na mesma pousada e trabalhava enquanto o sol estava a pino, já que seus olhos também eram fracos e cansados. A Nietzsche, como a tantos outros criadores de sua época, que precisavam continuar o trabalho mesmo em condições adversas de saúde, era feita a mesma recomendação: vá procurar o sol. Vá para um ambiente que o faça sentir bem. Procure um lugar que o estimule.

A ciência evoluiu, hoje temos alguns remedinhos que podem fazer o mesmo efeito do sol - será? - mas os seres criativos continuam indo em busca de ambientes que favoreçam o desabrochar de suas ideias, mesmo com uma saúde de ferro. Há quem passe a vida pulando de canto em canto, buscando os aromas inconfundíveis de uma cidade para criar a fragrância perfeita; atrás de paisagens que os inspirem a sair pela rua e dar o melhor de si quando voltar ao trabalho, ou mesmo à procura de países com leis de incentivo fiscal que os permitam enfim montar seus negócios. O ambiente nunca perdeu seu papel central no desenrolar dos percursos, nem com o rádio, nem com o correio, nem com a internet e provavelmente ainda menos na era do teletransporte que daqui a pouco deixa de ser lenda.

Eu mesma, acostumada que era com a gritaria louca de uma redação de jornal, estranhei demais quando precisei trabalhar sozinha de casa, mas no vai e vem da vida, estou hoje nesta situação novamente. Alguma coisa parece que não funciona, a geladeira está a postos, há barulhos ensurdecedores como os zumbidos das muriçocas e sempre vai ter o Netflix com não só um, mas 13 episódios da sua série favorita para acabar com os menos disciplinados. Um outro amigo meu, porém, simplesmente adora a solidão eficiente do conforto do lar e trabalha há muitos anos do mesmo ambiente, com todos os aparatos tecnológicos específicos ao seu métier e agraciado com a não-necessidade de qualquer tipo de transporte. E eu prefiro ainda esta mesma solidão do que o vazio de um local de trabalho absolutamente nada estimulante, como o que deixei recentemente.

Outro dia, ao visitar uma das empresas do espaço de coworking Templo para uma reportagem do Projeto Draft, conheci um dos locais mais bacanas para se trabalhar no Rio de Janeiro. E ele não tinha nada de extraordinário. Na tranquilidade do bairro da Gávea, a mansão que dividia empresas criativas por lugares na bancada tem espaço de reunião ao ar livre, muitas árvores e uma cozinha de onde saem lanches fresquinhos. Na casa de Botafogo, tem também piscina, espaço para almoços coletivos e autorização da vizinhança para fazer música até mais tarde, como o Sofar Sounds que rolou por lá outro dia. Ninguém precisa inventar a roda para criar um ambiente frutífero, de prazer, que convide quem está ali a produzir bem e feliz. Muito menos existe receita mágica, mas definitivamente são esses lugares que influenciam as pessoas a estamparem sorrisos nos rostos e se sentirem felizes com o que estão fazendo, já que esta é uma das chaves para qualquer empresa dar certo na era da felicidade.

Algumas grandes empresas tentam, a gente sabe, e isso é louvável, mas eu não consigo deixar de crer que a solução para um ambiente estimulante é estar onde funcione para você. Pode ser em um terraço ao som de Bob Marley e jogando peteca com seus colegas de trabalho, como no Curto Café no centro do Rio, ou em um escritório de paredes brancas e poucos enfeites, mas gente de bem com a vida, como a sala da agência Ogilvy em Brasília. É um luxo poder se dar ao prazer de escolher? Talvez. Mas muita gente se dá a este luxo, e tenta outras coisas quando enfrenta que uma não funciona. Não só o conteúdo do trabalho pode desestimular, mas estou cada vez mais convicta: onde este trabalho é feito pode afetar radicalmente a produtividade de quem o efetua.

Mudanças são sempre bem-vindas, mesmo que sejam para pior. E aquela velha máxima de que o mundo dá voltas se confirma a cada dia mais que a gente se abre para entender que a vida faz sentido - e faz mesmo. Se situar no mundo também é se situar enquanto ser humano, trabalhador, empreendedor e, sobretudo, como fazem as boas empresas, estar aberto a transformações radicais. É só nelas que a gente reinventa não só a si mesmo, mas também ao próprio significado da nossa vida.

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