OPINIÃO
26/06/2014 10:24 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:45 -02

Brasília, cidade criativa

Reprodução

Nos últimos dias, uma nova polêmica que nasceu da Copa mas não tem nada a ver com futebol virou hit nas redes sociais, especialmente dos meus amigos brasilienses. A matéria de David Waldstein sobre Brasília para o New York Times quase virava um elogio, não fosse por alguns detalhes que não passaram despercebidos pelos meus conterrâneos. No que era para ser uma informação desimportante, o jornalista cita um urbanista que diz que "sente pena dos que moram na cidade e são tão isolados uns dos outros". Eu, como repórter de turismo que já fui, tenho consciência de que escrever sobre a cidade alheia é muito complicado e às vezes uma impressão de um fim de semana pode parecer absolutamente errada a quem mora ali a vida toda. E esse tipo de imprecisão pode sim causar ofensas.

Foi o que minha querida amiga Carol Soares sentiu quando escreveu sua resposta apaixonada à reportagem equivocada. Seu texto virou ainda muito mais hit, replicado, curtido e compartilhado às dezenas nessa espécie de quinto poder que se tornaram Facebook e Twitter. Seu ponto central é claro: justamente pelo seu formato, descentralizado e espaçado, e suas dificuldades de transporte público - eu sempre imaginei que se um extraterrestre aterrissasse em Brasília, ele imaginaria que os habitantes da Terra são os carros, e não as pessoas - a cidade obriga seus moradores a criarem laços muito firmes e sólidos que os permitam driblar esta aparente distância. Quem já morou por lá sabe o quanto amizades brasilienses são difíceis de romper, e quão bem este local aparentemente frio acolhe os forasteiros. É uma premissa básica que nasceu com a própria cidade.

Eu, ainda que lá nascida, sou muito menos apaixonada do que a minha amiga Carol. Mas pude perceber uma mudança substancial na cidade depois de passar dois anos fora do pais. Brasília está desabrochando. As veias da capital parecem borbulhar de novas ideias e as mentes pensantes ali instaladas estão tormentadas por um desejo de ocupar os espaços públicos, ir mais longe, reapropriar-se do que ficou algum tempo esquecido; reinventar tudo e qualquer coisa. Vinda de um pais estagnado como a França, de uma cidade como Paris onde a impressão que eu tinha é que tudo já estava criado e estabelecido, encontrar essa pulsão me despertou muita curiosidade. Eu nunca tinha visto Brasília desta forma. As pessoas pareciam mais interessantes - e mais felizes. Novos projetos apareciam, ilimitados, ousados, sem ainda saber o que seria possível ou impossível. A cidade do funcionalismo público que sempre tinha me expelido me pegava pela mão e me mostrava que nem só de órgãos governamentais e burocracia vivia Brasília. Talvez, inclusive, abrigasse gente muito mais criativa do que... Paris.

Gente, por exemplo, como Julia Hormann e Miguel Galvão, organizadores dos eventos mais bacanas a que eu fui quando cheguei de volta. O Picnik no calçadão da Asa Norte me lembrou demais as festas na beira dos lagos ou nos bier gardens de Berlim, só que com musica boa, o que nem sempre é garantido por lá. A quantidade de gente que vinha de todos os cantos estirar a sua toalha, papear e tomar drinks à luz do dia era impressionante. No Quitutes, evento também diurno, uma reunião dos melhores chefs de cozinha da cidade - em minha modesta opinião, o segundo maior pólo gastronômico do Pais - preparam pratos incríveis a preços acessíveis, sempre ao som de boa música. Como no Picnik, os visitantes entram de graça e pagam pelo que consomem, o que gera uma democratização do espaço urbano nunca antes vista em Brasília. Vira sucesso de público.

Os empreendedores criativos da capital viajaram o mundo, saíram de lá, se inspiraram um pouco e trouxeram esta pitada de ousadia para incrementar seus projetos. Mas decidiram voltar e ficar. "Acredito que isso tem mais a ver com uma concepção de mundo que temos, com uma maneira de nos relacionarmos com os clientes e com nossas posturas estéticas do que com uma escolha consciente de criar um ambiente europeu", explica Lucas Hamu, sócio da galeria/caféObjeto Encontrado, que já viveu no Japão e em Portugal. O espaço na Asa Norte reúne arte, comida e, mais uma vez, música, como na festa Mimosa, que surgiu por lá. "Avaliei que o Objeto tinha a ver com a estética da festa que queria criar, com valorização da cultura popular, música de qualidade e ambientação leve e caprichada", conta Sandro Farias, idealizador da Mimosa.

O drink que dá nome à festa - suco de laranja com espumante, ideal para refrescar no calor do cerrado - serve de temática para as cores e a alegria do evento, a que eu compareci em uma tarde despretensiosa de chuva forte. Abrigada dentro da galeria, tomando drinks com os amigos e cogitando levar um quadro incrível do Mateus Dutra, eu pensava em todas as opções que a galera de Brasília agora tinha, com um público fiel que havia passado tanto tempo sedento por novidades e agora não perdia uma.

As ideias não parecem, mesmo, ter fim nem esgotamento de audiência. A nutricionista Camila Ceylão passou todo o curso de nutrição preocupada com o desafio que a perseguiria: como tornar o ritual da alimentação mais prático sem reduzir seu valor social e nutricional? Depois de muitas reuniões de brainstorming com seu grupo de mulheres inquietas, chegou ao formato do Alecrim: o cliente recebe um menu para um jantar especial, com todos os ingredientes necessários e uma diferença central dos buffets tradicionais; quem prepara a comida é ele mesmo. O Alecrim entrega além de tudo um passo a passo, trilha sonora correlacionada e até decoração caso a pessoa queira. "Temos pouco mais de dois meses de vida então ainda não nos sustentamos do projeto, mas a ideia é esta! Vamos crescer para onde der", promete Camila.

O conceito de cidade criativa, cunhado pelo inglês Charles Landry na década de 80 e apenas publicado em 1995, sustenta que criatividade, empreendedorismo e inovação devem ser incentivados porque podem ajudar a melhorar a qualidade de vida dos habitantes de um local. É um pilar básico da economia criativa e um passo fundamental de sua consolidação em um pais. Brasília é jovem - de idade e de espírito - e a magnitude cultural do planalto central ainda não é completamente conhecida. Mas a transformação está em processo, e quando se trata de uma terra predita por Dom Bosco, berço de poetas e loucos que não param de se multiplicar, eu, sinceramente, não duvido de nada.

E nem o David Waldstein deveria.

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