OPINIÃO
23/02/2015 16:25 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

A exclusividade padronizada da criatividade

Jon Feingersh via Getty Images

Em pesquisas e bates-papos com as mentes criativas que cruzam o meu caminho, já percebi alguns pontos em comum entre elas. Não estou dizendo que essas pessoas não sejam, de fato, pontos fora da curva. Tudo indica, porém, que dentre toda esta descentralização existem empatias, intervalos de encontro que parecem se reunir e formar uma outra massa: o grupo dos que não querem fazer as coisas como todo mundo faz.

A cada nova conversa, a luzinha laranja daquele canto do cérebro que conecta informações apitava quando alguém também me dizia que tinha viajado para longe antes de ter aquela ideia, ou que os amigos não compreendiam o que estava tentando fazer; ou que o dinheiro nunca havia sido sua primeira preocupação. E os pequenos pontos de congruência formavam, pouco a pouco, uma linha de características similares e que une até mesmo quem tenta e quer ser tão diferente. A criatividade tem, afinal, uma sequência natural.

Nada disso são regras e não quer dizer que valham para todo mundo. O que me foi alarmante foi apenas o grande número de pessoas que relatou estes três fatores que eu descrevo a seguir.

1. O ano sabático

Os judeus conhecem bem a importância deste período. A expressão "ano sabático" deriva, na verdade, do shabat, que é o dia do descanso sagrado para o Judaísmo, dia em que Deus repousou depois desta trabalheira que foi a criação do mundo. Bom, se até Ele precisou de uma folga para clarear as ideias, que dirá nós, selvagens mortais. É impressionante a presença deste ano de alívio das pressões quotidianas na vida dos empreendedores criativos. E isso é muito fácil de entender: para se chegar a uma ideia de negócio que tenha um real potencial disruptivo - ou seja, que tenha capacidade de desestabilizar a concorrência por seu conteúdo inovador - é preciso dar um tempo da rotina.

A rotina tem um papel importante na vida dos seres humanos. Ela cria uma noção de sentido, de organização dentro de todo o caos que podem ser nossa mente ou nosso quarto, por exemplo. Mas, infelizmente, ela tem o triste potencial de nos impedir de enxergar um palmo à frente de nossos narizes. É por isso que quando viajamos sentimos tanto, nos alegramos tanto, nos emocionamos tanto. É como se nos desnudássemos daquele véu que tapa as grandes excitações do dia a dia e que serve para nos permitir seguir o ritmo normal da vida, sem tantos questionamentos ou deslumbramentos a cada passo. Quando estamos em um lugar novo, percebemos mais. Até mesmo quando estamos de férias, ainda que na mesma cidade, conseguimos ver detalhes que se perdem dentro de um quotidiano comum.

Pois o ano sabático é isto: um grande encontro com os próprios desejos, sem freios ou bloqueios. É aquele tempo que tiramos para nos livrar dos problemas que nos prendem em nossa vida diária. Fazemos belos encontros, aprendemos novas línguas, descobrimos outras culturas. Tem quem precise de desculpas para isso - como fazer um curso no exterior, por exemplo. Mas o mais eficaz, pelo que tenho visto, é mesmo quem sai sem rumo, e também quem visita não só um, mas vários países. Na volta, há duas saídas: se encaixar à força à realidade precedente ou procurar novos caminhos. Mas ir embora, normalmente, é uma escolha sem volta: a vida nunca vai ser o que era antes. E é aí que os empreendedores tiram proveito.

2. A incompreensão dos amigos e da família

O empreendedor é um desbravador solitário. O paralelo que eu consigo fazer é com aqueles que estão construindo uma tese ou uma dissertação de um assunto muito específico, que só eles entendem. Não dá para sentar em uma mesa de bar e compartilhar aquilo com olhares ávidos e sorridentes de compreensão; as pessoas vão se entediar, ou duvidar, ou simplesmente não entender. E elas podem te desencorajar, fazendo perguntas que não são pertinentes àquela pesquisa, ou que vão te tirar do seu foco. É isso: você passa 24 horas por dia com um tema na cabeça e não pode dividi-lo com quase nenhum outro ser.

Pois novas ideias são assim. Elas incomodam. O universo parece criar estratégias bem delineadas para manter o status quo e o sucesso já adquirido da espécie humana. Assim, ameaças à paz são cortadas pela raiz. Você pode pensar em inúmeros exemplos em que essa máxima seja válida, e o empreendedorismo criativo é apenas mais uma delas. Como explicar aos seus pais que você vai abandonar um emprego que te rende sustento e uma posição bem delimitada no status social para criar um blog, ou para abrir um negócio que muitas vezes você não vai nem conseguir fazê-los entender o que é?

A estrutura econômica hoje é bem diferente da época em que eles aprenderam o que se devia fazer para ganhar a vida. O problema é que este modelo está em fase de constituição, e ainda há numerosos representantes do velho paradigma econômico vivendo à moda antiga; e eles podem ser tão jovens quanto você. São eles, inclusive, que vão te fazer repensar seus planos e se questionar: nossa, mas será que vale a pena mesmo? São eles, com seus salários fixos e sem correr riscos, que sinalizarão que o seu caminho não faz sentido, ou que você deveria deixar essa bobagem de lado e parar de sonhar. Então, acredite: a maioria dos seus amigos não vai te entender ou te oferecer suporte. Esta luta, amigo, vai ser travada por você sozinho - ou com poucas companhias de verdade.

3. O dinheiro como conseqüência - e não objetivo

É este mesmo pessoal, com a cabeça no modelo econômico passado, que faz os empreendedores parecerem loucos desvairados quando eles dizem que sua preocupação principal não é o dinheiro. É batata: a maioria esmagadora dos criativos que conheci buscavam, acima de tudo, criar algo em que acreditassem e que lhes desse prazer. Eles queriam sair de um paradigma de viver para os fins de semana, mesmo que isso significasse trabalhar muito mais do que em seus empregos fixos de antes, para inventar algo que não existia. Ou apenas para ser feliz mais vezes por semana.

A maior parte deles, também, tinha uma vontade vascular de empreender. E isso desde sempre. E um grande número sabia que queria criar o próprio negócio, mas não tinha certeza do que deveria criar. Algumas dessas pessoas juntaram dinheiro durante muito tempo em seus empregos tradicionais antes de se aventurar na própria empresa; outras delas, conseguiram vender suas ideias e obter financiamentos; algumas poucas, ainda, contaram com suporte familiar. Mas para todas, sem exceção, ganhar muito dinheiro não era o objetivo principal. Eles tinham objetivos nobres, queriam mudar o mundo, melhorar as coisas - nem que fosse a própria vida.

É claro que isso não impede a boa estruturação do modelo de negócios para que ele dê certo; a fase de testes para conferir se o mercado aceita e está preparado para aquele novo conceito e a preparação para um primeiro ano que é, normalmente, decisivo. E os números são implacáveis: ¼ das startups brasileiras morre antes do término deste ano inicial, segundo um estudo da Fundação Dom Cabral realizado em outubro de 2014. E daí tudo bem, né, a pessoa vai ter tentado - e se forçar a sair da inércia para tentar construir grandes coisas e ser feliz já é um grande mérito. Mas aqueles que têm sucesso, mesmo, podem até ficar milionários - como eu tenho visto com certa freqüência. Ricos e felizes, como num conto de fadas. E olha que a ideia inicial era apenas ser feliz.

Portanto, um brinde à criatividade, e a quem arregaça as mangas para fazer um plano abstrato sair do papel, mesmo fazendo força contra a ventania que tenta empurrar para o sentido oposto. Se você é uma dessas pessoas, acredite: tem mais desbravadores por aí parecidos com você, e enfrentando o mesmo tipo de perrengue.

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