COMPORTAMENTO
13/07/2014 10:12 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Manuela e a Copa

Ela ouve com atenção, acho que entendeu. Aí vem o quinto. Ela pula, rindo, rindo lindamente. Não adiantou, mas daí pensei: se ela quer comemorar um gol que comemore, seja de quem for.

A Alemanha faz o primeiro gol. Manuela fica em pé sobre o sofá, levanta a bandeirinha verde e amarela e grita goooooooool. Vem o segundo e de novo ela: goooooooool. Terceiro e quarto gols da Alemanha, tudo muito rápido e ela rápida também: gooooooool, gooooooooooool, cada vez gritando mais alto e ficando mais e mais animada. Eu resolvo tentar explicar: Manu, esses gols são do inimigo, não é do Brasil. Não é pra gritar gol. Ela ouve com atenção, acho que entendeu. Aí vem o quinto. Ela pula, rindo, rindo lindamente, e grita com toda a força: gooooooooooooool.

Não adiantou, mas daí pensei: se ela quer comemorar um gol que comemore, seja de quem for. Nas partidas anteriores colocaram até peruca verde e amarela nela, a família toda gritava, ela aprendeu. Gol é gol para ela, seja de quem for. Está certa a minha menina. Ficou feliz, muito feliz com tantos gols para celebrar. Deve ter sido o único brasileiro a gritar oito vezes naquele dia. Sorte dela, que tem três anos e sabe mais da alegria e da festa do que da raiva e do desespero dos adultos.

Manuela é mega ativa e alegre. Acorda cantando. Canta quase o dia todo. Dança pela cozinha, na sala, no corredor ao redor da casa, acompanhada ou sozinha. É uma criança feliz, o que me faz mais feliz ainda. Eu temia que não fosse, que fosse muito diferente de mim, mas tem a minha alegria, a minha energia e também a minha personalidade forte. Está cada dia mais parecida comigo, inclusive fisicamente.

Quando ela chegou para mim tinha dois meses. Esperei cinco anos na fila da adoção para, finalmente, tê-la. Entrou na minha vida como se fosse um anjo. E é. Já disse para várias pessoas (até escrevi sobre isso) que ela não apareceu porque tinha chegado a minha hora na fila dos adotantes.

Apareceu porque fiz uma novena para Santa Rita de Cássia, de quem sou devota - sim, descrente de quase tudo, mas não da minha santa. Rezei nove dias no começo de agosto de 2011. Eram três pedidos: fiz os três pela minha filha. Que ela chegasse até o final do ano, que eu tivesse saúde para cuidar dela, que tivesse dinheiro suficiente para poder criá-la como acho que merece.

Em outubro recebi o telefonema do Forum avisando que havia uma criança para mim. Eu havia colocado no pedido que aceitaria uma menina de até dois anos e meio. Caí sentada no sofá quando soube que era um bebê. Um bebezinho que fui conhecer no dia seguinte. Pois bem, ela nasceu no dia 4 de agosto, quando eu estava começando a novena. Muita gente dirá que foi coincidência, mas eu sei que não. O universo conspirou a meu favor. Santa Rita intercedeu e Deus, ou o Ser que olha por nós de algum lugar, olhou para mim. Chegou a sua hora, Renata. Seu presente está aí.

Claro que minha vida mudou totalmente. Na primeira e única vez que escrevi aqui (sim, estou em falta, mas inventei de casar no mês passado e não tive tempo para mais nada; prometo escrever sobre isso na próxima) contei como tinha refeito a minha vida depois dos 50, mudando de um trabalho bem remunerado para uma aposentadoria com pouquíssima grana, mudando de cidade, de marido, de tudo.

Disse que tinha virado mãe e que, com todas as mudanças para uma vida mais simples no interior, vivia mais plenamente e feliz. O mais importante nesse processo de transformações profundas foi ter me tornado mãe. Prometi que o segundo texto seria sobre a Manu. Estou cumprindo, ok?

Quando a peguei pela primeira vez no colo, numa sala asséptica na Vara de Infância e Juventude do Forum, o mais forte foi o seu olhar. Fixou seus grandes olhos negros nos meus e segurou dois dedos da minha mão. Na verdade, os agarrou. Eu senti que estávamos predestinadas. Disse, baixinho: "você é minha, eu sou sua, nunca mais vou te deixar".

Levou uma semana ainda para a trazermos pra casa. Fui com minha irmã Patricia buscá-la. Semana difícil, triste, em que a visitava todos os dias no abrigo junto com a minha mãe, Jacy, com minha sobrinha Mariana, com minha cunhada Rosane, mas a certa hora tinha de ir embora. Sempre saía chorando. Ela era muito magrinha, tinha olheiras, e era calma, bem quieta. Não pensei que fosse se transformar no azougue que é hoje.

Na época, eu corria o dia todo com a Rosane (que será madrinha de batismo junto com meu irmão, Vinícius), para montar quarto, banheiro, enxoval. Deu tempo - e ficou legal. Ela chegou com um vestidinho muito simples, feio mesmo, que logo troquei. Minha irmã e suas filhas; Lucia, minha secretária e amiga e sua filha Luana e eu rodeamos o berço e ficamos a olhando dormir. Eu não sei bem como me senti. Era como se estivesse em transe, vivendo um sonho, como se não fosse comigo.

Foi maravilhoso, mas difícil também. Tive de aprender a dar banho (tinha medo), a dar a mamadeira a embalando e cantando pra ela dormir, a cuidar da saúde dela. No abrigo não haviam feito nenhuma vacina. Dei todas. Mas havia o medo de ela cair dos meus braços, de parar de respirar, de morrer. Vigiava sua respiração - agora sei que é assim com todas as jovens mães. Mas eu sou uma mãe nova com mais de 50 anos! É mais difícil, imagino, porque minhas forças não são as mesmas de uma mamãe de 20, claro!

Também é chato trocar fralda cheia de cocô - felizmente estamos, principalmente a babá Rafaela, no processo de retirar a fralda, e ela já faz xixi e está começando a fazer cocô na privada. Voluntariosa que é, sobe sozinha na privada grande. Não quer saber de piniquinho nem do assento menor para a privada de adultos. Quando eu a abraço de digo "meu bebê" ela agora começou a dizer que não é mais. "Sou menina, mamãe." Está certa, mais uma vez. Rapidamente virou uma menina.

Fala tudo, observa tudo, adora passear de carro e ir a praças e parques - o que faz todos os dias. Mês que vem começa na escolinha. Esperei para colocá-la na escola com três anos, seguindo os conselhos das minhas amigas Bell Kranz e Silvia Carone, que me falaram de uma psiquiatra francesa dos anos 20, Françoise Dolto. Ela defendia a tese de não levar a criança para a escola tão novinha como é costume hoje. Diz que até os três a criança deve ficar na sua casa, com a sua família, para se sentir segura e acalentada. Acho que estava certa. Deu certo para a Manuela. É o amor de uma grande família cheia de mulheres, cuja matriarca, minha mãe, é louca por ela. Paixão totalmente correspondida. Manu corre para o colo da avó e a beija sempre que a vê.

Um pouco antes de Manuela chegar apareceu na minha vida um homem, Vasco. Ele também tinha acabado de se mudar de São Paulo e começamos a nos ver, depois a nos beijar, depois a morarmos juntos. Apaguei a memória de um casamento recém-desfeito, que teve um final absolutamente horrível. Vasco se tornou meu amor e meu grande companheiro. Tanto que no mês passado nos casamos, com uma festa deliciosa.

Quem foi a estrela da festa, embora eu, imodestamente, estivesse linda? Manuela, que, encantadora, dançou a noite toda. Rodopiou levantando a saia (como se fosse uma moça, não uma menina), dançou com o pai, comigo, sozinha. Dançou segurando o ursinho e tomando mamadeira. É da pá virada ou não a nossa menina?

Sim, nossa, porque Vasco ainda não é pai de direito mas é de fato. A primeira palavra que ela disse foi "papai". Eu já tenho a guarda definitiva, com meu nome na certidão de nascimento dela. Agora Vasco entrou com o processo para adotá-la também. Ela terá pai e mãe no documento, mais avós, tias e um bando de primos para brincar. Além dos colegas de escola que agora vai fazer. Tem uma casa com um quintal cheio de frutíferas, que adora, e dois gatos para puxar o rabo. Tem uma grande varanda no andar de cima onde corre e vê o por do sol e a lua - adorou conhecer a lua!

Manuela me faz muito, muito feliz e o melhor, é feliz! Quando dizem que eu fiz uma coisa linda ao adotá-la (é um pensamento recorrente, este) vou logo cortando a pessoa: não, ela fez uma coisa linda por mim ao me aceitar.

Ontem à tarde, na casa da avó, viu uma propaganda da Copa onde crianças cantam cada uma um trecho do Hino Nacional. Minha mãe, a cuidadora dela, eu mesma, todos disseram "que lindo!". Ela rapidamente repetiu a última frase que ouviu: desceu um quilômetro de carro até a minha casa cantando: "Átia amada Basil!". Várias, dezenas de vezes. Hoje repetiu novamente.

Ok, Manu gritou gol para os sete da Alemanha. Mas canta pátria amada, Brasil. É óbvio que, como os gols, também não sabe do que se trata. Mas entrou com tudo no clima da Copa, minha filhinha, meu amor, Manuela.

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