OPINIÃO
27/03/2015 17:12 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

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Você não só relativiza, como também aprende a ver soluções onde achava que não existia. E nem precisa frequentar grupo especializados, como o AA ou o Vamos falar sobre o luto. Pode desabafar com um colega, um vizinho (garanta que eles saibam o que é empatia) ou com você mesmo - acredite, adoramos esconder nossas próprias mazelas.

monettenriquez/Flickr
Completed 9 November 2006. Cut out shapes from Vogue Paris and Elle magazines.

Oi, meu nome é Renata, tenho 36 anos, dois filhos e sou viúva. Sim, meu marido morreu quando eu tinha 33 e fiquei muito, muito triste. Devastada, como era de se esperar. Foi de repente, minha vida virou de cabeça para baixo e muitos planos foram para o ralo, em cinco minutos. Mas não precisa me olhar com pena. Acontece bem mais do que se imagina. De qualquer maneira, ele vive nas minhas memórias (Ubuntu) e não se fala mais disso.

Trabalho com moda e gosto de coisas bonitas. Mas aprendi na terceira série que não se julga um livro pela capa. Obrigada, professora de história. Não, não sou patricinha, não sou hipster, não sou hippie. Sou um pouco de tudo isso e nada disso. Como qualquer mulher do século 21, sou acima de tudo confusa e indecisa.

Não tenho grandes vícios, mas adoro uma taça de vinho no fim do dia e alguns cigarros. Li que parisienses são assim e achei cool, essa palavra que quem trabalha com moda adora. Depois pensei que era bobagem me sentir melhor ou pior porque parisienses fazem ou deixam de fazer algo parecido comigo. Complexo de vira-lata. O que me leva ao próximo parágrafo.

Recentemente descobri que duro mesmo é se livrar dos vícios emocionais/espirituais. A dúvida me atormenta (daí ser sempre indecisa), tomo decisões mais pelo outro do que por mim (e, pior, depois me queixo), minha autoestima é baixa (o que faz com que sempre eu queira agradar, o que explica o item anterior e também a necessidade de ser aprovada pelas francesas, entendeu?). Uma coisa leva a outra e, quando você vê, a bola de neve tá tão grande que você fica soterrada pela avalanche.

Por que estou escrevendo tudo isso? Bom, como diria Fernando Pessoa, eu nunca conheci quem tivesse levado porrada. Mentira, gosto só de citar essa frase. Conheci muita gente que vive sofrendo, ainda que não poste no Facebook. Muita gente sem rumo, sem prumo. Com problemas que podem parecer nada perto dos meus ou me fazer sentir uma formiguinha idiota (desculpa, formiguinha, parece que não é mais legal comparar ser humano e animal). Uma amiga com câncer e outra com uma filha com me fazem pensar em quanto tempo eu me senti uma coitadinha sem realmente ser. Em quantas lágrimas derrubei pensando "por que, meu Deus, por que comigo?".

Mas, se aprendi alguma coisa nesse ínterim da minha vida, é que dividir ajuda a somar. Nos deixa mais fortes. Você não só relativiza, como também aprende a ver soluções onde achava que não existia. E nem precisa frequentar grupo especializados, como o AA ou o Vamos falar sobre o luto, iniciativa incrível, aliás. Pode desabafar com um colega, um vizinho (garanta que eles saibam o que é empatia) ou com você mesmo - acredite, adoramos esconder nossas próprias mazelas.

E não se trata de autocomiseração, pelo contrário. É que só vendo o que está errado é possível dar o passo seguinte. Se você não sabe o que quer mudar, nunca mudará nada.

PS: sexta que vem, dia 3 de abril, é pessach, uma ótima chance de assumir o que você tem de ruim e pedir força para mudar. Escreva na véspera o que não quer mais para você e queime na manhã seguinte (o ritual é um pouco mais complexo, mas não vem ao caso e você pode googar).

PS2: não, eu não sou judia. Mas acredito que a palavra é uma das armas mais fortes do planeta Terra. E, sendo assim, por que não seria do universo? Não custa tentar. Só por um dia.

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