OPINIÃO
13/02/2015 15:40 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

A favor da vida de quem?

Sou apaixonada pela maternidade. Ser mãe me revolucionou em todos os sentidos possíveis, e me ensina a ser alguém melhor, todos os dias. Mas isso tudo é a minha experiência, apenas. Não me permito usá-la como parâmetro para determinar como será, seria, deveria ou poderia ser a experiência de outra mulher. Escolhas, caminhos, vivências, são pessoais. Não cabe usar a minha régua pessoal para medir a experiência do outro.

Um 'desafio' nas redes sociais convida mães a postarem fotos suas da gravidez, em uma manifestação contra o aborto. Nos textos que acompanham as fotos, uma saraivada de "a gravidez é uma experiência única", "meus filhos são a luz da minha vida", "enquanto há vida, há esperança", e por aí vai.

Tenho três filhas. Vivenciei duas gestações - já que minhas filhas mais velhas são gêmeas - muito bacanas, muito curtidas, muito transformadoras. A primeira foi planejada, a segunda veio no susto. Ambas foram deliciosas.

Sou apaixonada pela maternidade - acho que é desnecessário dizê-lo para quem já acompanha o blog. Ser mãe me revolucionou em todos os sentidos possíveis, e me ensina a ser alguém melhor, todos os dias.

Mas isso tudo é a minha experiência, apenas. Não me permito usá-la como parâmetro para determinar como será, seria, deveria ou poderia ser a experiência de outra mulher. Escolhas, caminhos, vivências, são pessoais. Não cabe usar a minha régua pessoal para medir a experiência do outro.

E sim, eu sou a favor da descriminalização do aborto. A favor da legalização. Sou a favor da autonomia feminina para decidir sobre o próprio corpo, sobre a própria vida. O direito a decidir sobre o próprio corpo não é relativo, não pode ser relativo. Não em uma sociedade que se quer democrática e civilizada. Meu corpo, minhas regras. Corpo da fulana, regras da fulana. Simples assim.

Eu sonho com a maternidade desde que me entendo por gente. E sou a favor do direito ao aborto legal e seguro desde que comecei a pensar a respeito. Porque a maternidade é - ou deveria ser - uma escolha, jamais algo compulsório, muito menos uma punição. Porque métodos preventivos falham. Porque não me sinto no direito de julgar o que cada mulher deveria ter feito para se prevenir de uma gravidez indesejada. Porque coisas inesperadas acontecem. Porque o aborto do homem acontece todos os dias, debaixo dos nossos narizes, sem que os responsáveis sejam socialmente julgados por isso. Por tudo isso, mas principalmente porque o que leva uma mulher a optar por interromper uma gestação diz respeito a ela e a mais ninguém - nem a mim, nem à polícia, nem à sociedade, nem ao Estado. Não faz sentido exigir o preenchimento de formulários em cinco vias assinalando os motivos pelos quais não se quer levar adiante uma gestação. Não querer é, em si, motivo suficiente. Bem, ao menos deveria ser.

Apenas aceitemos esta realidade: mulheres abortam. Fato. Você pode até não saber, mas entre o seu círculo de conhecidas, certamente há mulheres que abortaram, pelos mais variados motivos e submetendo-se às mais variadas formas de violência e aos mais variados níveis de risco.

Sou, sim, a favor da vida - a favor da vida de cada mulher que morre em decorrência de abortos clandestinos, de cada mulher que sofre violência em situação de abortamento, de cada mulher que se vê forçada a prosseguir com uma gestação indesejada, sem convicção de que aquilo é o certo a se fazer, sem estrutura, sem apoio, sem condições físicas, financeiras e/ou psicológicas, sem coisa alguma.

Sou a favor da vida de Jandira, que morreu aos 27 anos em agosto passado, vítima das complicações de um aborto clandestino. Sou a favor da vida de Maria*, conhecida que perdeu o útero em consequência de uma tentativa de aborto mal sucedida. Sou a favor da vida de todas as Júlias, Marianas, Carlas, Cristinas e Patrícias que abortam todos os dias, pelos mais variados motivos que não me dizem respeito, porque não são meus, são delas.

A criminalização do aborto mata mulheres, todos os dias. Todos os dias. Enquanto se escolhe a melhor foto do álbum de gestante para postar 'a favor da vida', uma mulher morreu em decorrência da criminalização do aborto. Talvez duas. Três. Quem está contando?

(post originalmente publicado no blog Uma Vez Mamífera)