OPINIÃO
01/12/2015 18:56 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:35 -02

O racismo como licença para matar

Racismo, racismo, racismo, racismo. Esta não é só uma palavra, é uma licença para matar. Ela vem banhada de sangue e estrutura às relações sociais.

ESTEFAN RADOVICZ/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO

Racismo, racismo, racismo, racismo. Esta não é só uma palavra, é uma licença para matar. Ela vem banhada de sangue e estrutura às relações sociais. Ela tenta destituir a humanidade das populações não brancas, sobretudo, negra e indígena. Ela tenta definir lugares. Ela assassina, elimina, silencia e extermina jovens negros todos os dias. Ela assassina, elimina, silencia e extermina jovens negros. Todos os dias. Todos os dias e em quantidades absurdas.

Segundo a Anistia Internacional, "em 2012, 56 mil pessoas foram assassinadas no Brasil. Destas, 30 mil são jovens entre 15 a 29 anos e, desse total, 77% são negros."

De 2012 para cá, escorreu muito sangue e muitas lágrimas das famílias negras. Neste mar de horror, impossível contabilizar a dor e, nesta matemática sangrenta, muitas ausências não foram contabilizadas, não são números, são pessoas.

Em Osasco, foram assassinadas 18 pessoas e mutiladas 18 famílias, histórias, sonhos e possibilidades; DG, Alan de Souza, 15 anos, assassinado porque corria. Eduardo de Jesus Ferreira, de 10 anos, assassinado porque brincava em seu portão no Alemão. Nem a ausência do meu vizinho, do seu primo, do seu amigo de escola, todos os anônimos que não terão suas ausências contabilizadas, nem causarão comoção nacional nem os penúltimos assassinados; Roberto de Souza, 16 anos, Carlos Eduardo da Silva Souza, 16, Cleiton Corrêa de Souza, 18, Wesley Castro, 20, e Wilton Esteves Domingos Junior, 20. Todos assassinados no último domingo (29) no Rio de Janeiro. Delito: serem negros, empobrecidos e estarem na rua às 23h00.

Foram 50 buracos de bala no Gol branco ocupado por corpos negros. Não eram fogos de artifício, nem comemoração, nem GTA, nem auto de resistência, nem legítima defesa. Era a morte chegando em forma de bala, em forma de Estado.

A todos esses jovens, os direitos garantidos, cunhados em papeis nacionais e universais, foram e têm sido negados há muitos anos.

E nós, em meio a tudo isso, nós que temos o privilégio de escrever e ler sobre essas atrocidades, que compartilhamos imagens dos corpos perfurados, que até após esvair de vida, continuam sem direitos. Seguimos atônitos e muitas vezes passivos.

Há quem diga que somos um País de todos, desde que esses todos não sejam imigrantes negros, refugiados, haitianos, senegaleses, congoleses, porque esses, assassinamos também, com palavras, facadas e subemprego. Nestes "todos", não tem sobrado lágrimas, indignações, panelaço e hashtag que viralize para brecar o extermínio da juventude negra, brasileira ou mundial.

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