OPINIÃO
30/03/2014 06:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:16 -02

Exílio na tempestade

Foi assim. E é assim. Um pé lá, um pé cá. Um passado que cisma em estar presente, mesmo quando a gente não tá prestando atenção. E eu fui virando gente a partir disso, dessa trama e dessas histórias que começaram antes de mim.

Eu tenho, há muitos anos, um texto não-escrito que fala de mim e de outros filhos da ditadura. O título (provisório) é "páginas soltas de uma filha da tempestade". Sei, já tem outros, alguns muito bons, sobre isso. E no entanto ainda gostaria de conseguir escrever o meu. Já até escrevi um texto no blog com título parecido.

Esse do blog trata de desenraizamento: essa sensação não me deixa nunca, até hoje, depois de todos esses anos, a de ser sempre meio forasteira, meio daqui, meio de lá. De ter que explicar sempre, de contar essa história, de dizer de onde venho. Minha família é do Recife; eu, pequena, morava no Rio; saí (fui saída, com os pais) para morar em Genebra, com 7 anos e meio; voltei com quase 13, na época da anistia.

Meu jeito de ver o mundo foi adquirido nessa época: era "nós" X "eles" (eles, os que fizeram com que a gente saísse, os que prenderam minha tia, os que não deixavam a gente voltar) - "o que é esquerda e direita?" (uma pergunta tantas vezes feita e que embutia tantas outras perguntas) - e, para o meu pai: "o que você faz?", e ele me explicava lá do jeito dele, mas além do jeito dele explicar tinha as reuniões, as conversas com amigos, e eu tava lá, atenta, silenciosa, tentando organizar as ideias e entender mais um pouquinho. Meus pais não fizeram parte do pessoal que participou da luta armada: eles eram de "outra leva", anterior. Já em 64 saíram do Brasil pela primeira vez. Meu pai trabalhava no gabinete do prefeito do Recife (Pelópidas da Silveira), cedido pela Sudene. Com o golpe, Pelópidas foi preso, meu pai saiu do Recife, antecipou o casamento com minha mãe - foram para Paris e depois para a Argélia.

Voltaram em 66, com minha mãe grávida de mim - e eu nasci em São Paulo, porque foi lá que eles pousaram nessa volta. Aí já tá o começo da história.

A minha, de filha, começa em 74, quando a polícia bateu na minha casa, meus pais cataram os filhos e foram embora de novo - pra Genebra, na Suíça, desta vez. Eu não tinha 8 anos ainda. Meu irmão tinha quase 6, minha irmã, 1 e meio. Foram cinco anos por lá. Cinco anos nessa idade pesam muito, cês nem têm ideia. Digo "cinco anos", e era quase metade da minha vida. Cinco anos difíceis, cinco anos incríveis. Tudo junto e misturado. A gente crescendo no bolo.

A volta se deu no começo da minha adolescência: 79, tempos de abertura, anistia. A volta: a parte mais difícil pra mim. Começo de adolescência já é duro: ainda mais quando a sua é tão diferente da dos outros em volta. Escrevi aqui sobre isso:

Tem um buraco maior - o dos silêncios. O do silêncio da ida, de quando a gente saiu do Brasil: porque a gente não sabia, a gente era criança - e pras crianças tem tanto que não se conta. A gente foi descobrindo aos poucos. Que tia Sônia tava presa. Que papai tinha fugido pelo Paraguai. Que a gente não tinha ideia de por quanto tempo ia ficar fora. Que a gente não tinha saído porque queria. Tudo isso aos poucos, nada disso muito bem contado. A cada descoberta, um susto. E, depois do susto, a recomendação: não era pra contar. Não contar a ninguém. Na escola, não contar nada: dizer que a gente tava ali por conta do trabalho do meu pai. E pronto. Aprender a mentir todo dia: uma dura aprendizagem, da qual a gente não se desfaz com facilidade.

E o silêncio da volta. A volta, um pouco antes da anistia maior. Papai, tio Sylvio foram anistiados antes, como já acontecia nessa época. Anistiados no final da ditadura. E a gente voltou sem saber direito. A gente voltou e eu não me entendia mais com nada. Parecia que aqui o tempo passava diferente: outras modas, outras roupas. Outra história. A gente falando estranho e tentando se encaixar. A gente, os filhos dos que tinham voltado. A gente que não tinha escolhido ir e que não escolheu voltar. Tudo tão difícil. E o mais difícil: à gente, a mim e a Marcelo, foi pedido que a gente mentisse de novo: excesso de cautela, hábito antigo de viver clandestino. Ainda era ditadura. Podia ser. Nada era certo. Enfim. Não era pra dizer. Na volta, de novo, a gente dizia que tinha estado fora "por conta do trabalho do meu pai". Cinco anos fora, tanto pra recuperar, e a gente não podia dizer. Cacete, como foi foda não dizer. Não poder contar essa história. Nossa história, que era tudo que a gente tinha. E que, tanto tempo depois, ainda dói. Talvez mais ainda por conta do silêncio.

Essa sensação de estranhamento e de que as pessoas em volta (meus colegas de escola, as pessoas na rua) não sabiam o que tinha acontecido, o que estava acontecendo, foi muito forte na chegada. O que salvava é que, junto com a gente, tinha chegado uma galera: outros exilados e seus filhos voltando. Tão desenraizados quanto a gente. Ajudava ter com quem trocar, ter gente que falava a mesma língua - literal e figurativamente.

E foi assim. E é assim. Um pé lá, um pé cá. Um passado que cisma em estar presente, mesmo quando a gente não tá prestando atenção. E eu fui virando gente a partir disso, dessa trama e dessas histórias que começaram antes de mim.

Eu: bicho do mato. Eu, esmagada sob o peso dos "heróis" - aqueles que estavam na tempestade, os que lutaram, os que fizeram, os que tentaram.

Enquanto a gente, os filhos da tempestade, a gente era levada no fluxo. Deixando pessoas objetos pelo caminho. Mudando de casa, mudando de língua, mudando de amigos. Fluxo de perdas. Absorvendo, aprendendo, novos jeitos, novas paisagens, olhos e ouvidos abertos: fluxo de conquistas.

Eu, crescendo, me tornei economista - meu jeito de tentar entender isso tudo, de responder por mim mesma àquela pergunta lá de cima sobre esquerda e direita. Tradutora eu sou, por circunstâncias, desde sempre. Economista, tradutora: tudo por conta do exílio, da volta.

E fica uma sensação persistente de estar enredada para sempre nessa ida e nessa volta, nessas perdas e nesses ganhos, que me explicam e a partir dos quais construí meu olhar sobre o mundo. Esse ano faz 50 anos desse golpe que eu não vivi. Mas que continuo querendo explicar e entender, como "filha da tempestade".