OPINIÃO
03/06/2015 15:16 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02

Como os algoritmos se transformaram em fanzines da nova geração

Há quem condene a evolução da inteligência artificial e a capacidade das máquinas aprenderem sobre nossos hábitos. Eu, particularmente, sou uma entusiasta.

Se você nasceu na década de 1980 e sempre foi apaixonado por música certamente já pegou um fanzine na mão. Lembro bem que era por meio dessas publicações totalmente independentes e editadas, na maioria das vezes, por gente muito legal, que eu conhecia novas bandas e que decidia o que devia - ou não - ouvir.

O assunto veio à tona depois de ler um texto do Nick Hornby no site da Billboard. Nesse ensaio, o escritor britânico fala sobre a queda e ascenção do vinil, um importante "personagem" de seu primeiro - e adorável - romance "Alta Fidelidade". No livro, que virou filme, a história gira em torno da música e tem como cenário, é claro, uma típica loja de discos.

Horny lembra como era diferente a relação das pessoas com um disco antes da popularização da internet. Comprava-se menos, ouvia-se mais. Faz todo sentido. Meu primeiro vinil foi um álbum da Xuxa. Minha primeira fita cassete, comprada com o dinheiro da mesada, foi a trilha sonora internacional da novela "A Viagem". O meu primeiro CD foi uma coletânea do Bon Jovi (não me julguem, okay?). Não lembro, porém, qual foi o primeiro mp3 que baixei ou a primeira música que ouvi em um serviço de streaming. A razão: variedade.

Era na Galeria do Rock, em São Paulo, onde encontrava os fanzines e fazia as encomendas. Para você, que é bem jovenzinho, vou explicar como funcionava o processo de descoberta musical: eu lia no zine que algo era bacana e ia atrás do disco. Muitos álbuns eram importados, porque não chegavam ao Brasil, e por isso custavam rios de dinheiro. Mas, é claro, existiam alternativas - algumas não muito "legais". Quando gostava-se muito de um disco, o dono da loja na Galeria fazia uma cópia do original e vendia a "versão" mais barata.

Descobrir uma banda nacional era ainda mais divertido. Você ficava sabendo da novidade através dos zines e entrava em contato com o artista via carta. A banda, então, lhe enviava uma "demo tape", através da qual era possível ouvir, ainda que em uma qualidade sofrível, as músicas da galera. Era difícil? Muito! E a tecnologia apareceu para tornar esse processo mais simples e intuitivo.

Há quem condene a evolução da inteligência artificial e a capacidade das máquinas aprenderem sobre nossos hábitos. Eu, particularmente, sou uma entusiasta. Gosto de música e acabei trabalhando justamente onde ela se encontra com a tecnologia. Fico admirada, por exemplo, quando um serviço de streaming "adivinha" algo sobre mim e sugere uma banda ou uma faixa que tem tudo a ver comigo. Em um mundo tão cheio de informação desorganizada, fico encantada ao perceber que algoritmos podem cumprir o papel que os fanzines tiveram na minha adolescência: sugerir o que devo - ou não - ouvir. E isso, definitivamente, não me assusta!