OPINIÃO
22/04/2014 15:31 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:24 -02

No Brasil, Isabelle Huppert fala sobre escolhas em cinema e teatro

Usando calças pretas, suéter de manga longa vermelho, óculos escuros bem grandes e sandálias de plataforma rosadas, esboçou seu meio sorriso franco-blasé de lábios finos e apontou os próprios pés para os fotógrafos dizendo: "Brasil".

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Foto: Isabelle Huppert em cena de Um Amor em Paris

Tudo indica que Isabelle Huppert estava de bom humor no início da tarde de quarta-feira, 16 de abril, dia em que completou exatamente 61 anos e um mês. Usando calças pretas, suéter de manga longa vermelho, óculos escuros bem grandes e sandálias de plataforma rosadas, esboçou seu meio sorriso franco-blasé de lábios finos e apontou os próprios pés para os fotógrafos dizendo: "Brasil". Horas antes, havia passeado a pé pela Rua Oscar Freire e até comentou que gostaria de visitar a exposição sobre David Bowie no MIS (Museu da Imagem e do Som), em São Paulo.

A coletiva de imprensa marcada para o dia anterior, na capital paulista, teve de ser adiada por causa do mau tempo - Isabelle não conseguiu embarcar no aeroporto Santos Dumont, Rio de Janeiro, onde estava hospedada para divulgar o mesmo Festival Varilux de Cinema Francês, encerrado ontem. Em première, dois novos trabalhos protagonizados por ela. Uma Relação Delicada, de Catherine Breillat, entra para seu rol de papéis emocionalmente limítrofes: a personagem dela, diretora de cinema que sofre sequelas de uma hemorragia cerebral, convida um vigarista para atuar em novo projeto e acaba tendo problemas dentro de uma relação que se torna complexa e intensa.

Um Amor em Paris, de Marc Fitoussi, é uma comédia. Trata-se do mesmo diretor com quem Isabelle colaborou em Copacabana, outra comédia, em 2010. Para uma atriz que ganhou notoriedade internacional com a força de personagens dramáticos -- a atormentada Erika Kohut em A Professora de Piano, de Michael Hanake, clássicos de Claude Chabrol como Mulheres Diabólicas e a adaptação de Madame Bovary, por exemplo --, pode parecer que as comédias têm menos peso. "Não. Sempre fiz comédias. Só não fiz mais porque às vezes é difícil encontrar roteiros interessantes, mas o que interessa é um bom texto". Ainda acho que ela está de bom humor, embora oscile entre poucas e médias palavras além dos tais meio sorrisos franco-blasés em lábios bem finos. E afinal, há dramas em comédias e coisas engraçadas até mesmo em filmes de Michael Hanake.

Seguem as perguntas. Como escolhe os papéis? "Depois de premiá-lo no Festival de Cannes de 2009, quando presidi o júri, acabei encontrando o diretor Brillante Mendoza num café da manhã de hotel aqui em São Paulo. Acabamos trabalhando Captive. Às vezes as coisas acontecem por acaso". Se sente algum tipo de peso com o rótulo de maior atriz francesa da atualidade? "Não me acho a maior atriz francesa da atualidade. Não penso muito nisso. Gosto de viajar e estar em países como Filipinas, a Coreia e aqui no Brasil".

Se gostaria de trabalhar com diretores brasileiros? Cita encontros com Bruno Barreto e Walter Salles, mas nada de conversas avançadas. "Não os conheço bem a ponto de dizer, mas também nunca recebi convites. Se tiver propostas, considerarei com muito prazer". Ainda sente-se desafiada ou já se encontra em zona de conforto com tanta experiência? "Não tenho medo do desconhecido e avalio todo tipo de personagem. Mas meu principal desafio tem sido me sentir confortável ao atuar nos palcos, procurando aventuras atípicas como trabalhar com Bob Wilson e interpretar personagens em outra língua".

Huppert, aliás, anda falando inglês em texto de Jean Genet que ela mesma define como "um patrimônio da França" na peça As Criadas, ou melhor, Les Bonnes - que virou The Maids em montagem da Companhia de Teatro de Sidney (Austrália), chegando logo mais ao Lincoln Center de Nova York. Mas tem um adendo importante: ela contracena com Cate Blanchett. "A experiência foi formidável e aí sim desafiadora. Falo bem inglês mas não é minha primeira língua. Enxergar Jean Genet pelos olhos de um diretor neozelandês também foi bastante interessante, além de trabalhar com duas atrizes maravilhosas", diz ela se referindo também à novata Elizabeth Debicki, que completa o elenco.

E por fim, vai voltar a contracenar com Gerard Depardieu, com quem dividiu a telona em Loulou, de Maurice Pialat, mais de três décadas atrás. O filme será dirigido por Guillaume Nicloux, com quem ela trabalhou em A Religiosa. Questionada sobre as expectativas a respeito, manda mais uma: "Não sei. Não aconteceu ainda". Na agenda, também tem as filmagens de Louder Than Bombs, novo filme de Joachim Trier e a perna europeia da peça Les Fausses Confidences, de Marivaux.