OPINIÃO
17/03/2014 12:02 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

A tela entre nós: <em>Ela</em>, Heidegger e os relacionamentos digitais

Nós existimos 'ao lado' dos outros, e não mais 'com' os outros. Relacionar-se é um dilema inescapável e existir é se arriscar. Mas é mais seguro se relacionar por trás de telas do que encarar o mundo lá fora.

Theodore Twobly é um talentoso redator de cartas para pessoas que não têm tempo de escrever cartas, usa bigode, veste calças ocre de cintura alta com camisas vermelhas que ornam com a cor ao mesmo tempo ensolarada e fria das janelas que mostram uma cidade moderna, de arranha-céus cinzentos e impessoais. Theodore volta para casa diariamente de metrô enquanto emite comandos de voz para um smartphone muito mais "smart" do que os nossos e segue deletando mensagens da operadora de cartão de crédito até encontrar-se totalmente só, dentro de seu apartamento, onde também joga videogame em 3D usando um bonequinho de avatar rebelde, quase mais inteligente que ele.

Theodore é também um homem sensível e carente que não resiste à tentação do sexo virtual usando o comando de voz do mesmo smartphone. Do outro lado, uma mulher escandalosa tem um orgasmo apressado. E lá está ele vazio e solitário, pensando no divórcio que não tem coragem de assinar. Seu apego ao passado impede a chegada do futuro. Mas uma distância de horas ou dias o separa de uma feira de novidades tecnológicas onde ele conhece um sistema operacional com inteligência artificial que promete ser o novo melhor amigo do homem. Resolve comprá-lo. Em casa, responde à meia dúzia de perguntas e é apresentado a uma rouca e sensual voz feminina chamada Samantha. Se apaixona por ela. E é correspondido com doses de complexidade, cumplicidade, estranhamento e beleza similares às das relações puramente humanas.

O spoiler termina por aqui. Theodore é vivido por Joaquin Phoenix no filme "Ela", de Spike Jonze, ganhador do Oscar 2014 de Melhor Roteiro Original. Samantha é interpretada por Scarlett Johansson -- ou pela voz dela, cada um entende como quiser. Tudo isso num futuro não muito distante de nós e que revela uma espécie de realismo mágico ou módulo avançado do que já vivemos com a adesão massiva de smartphones, programas de mensagens como o WhatsApp, redes sociais como Facebook e apps de paquera como o Tinder. Todos nos comunicamos e nos compartilhamos incessantemente. Seja qual for o relacionamento, há sempre uma tela entre nós.

O neozelandês Tim Rayner, Ph.D em Filosofia pela Universidade de Sydney, estuda a relação entre a era digital e o pensamento de grandes filósofos. Ele reconhece todos os benefícios e funcionalidades da tecnologia mas aponta implicações existenciais e psicológicas da nossa vida virtual. "Mesmo ocupando o mesmo espaço, as pessoas dirigem atenção ao que está do outro lado da tela. Nós existimos 'ao lado' dos outros, e não mais 'com' os outros", explica ele em entrevista por Skype. Para interpretar a relação entre real e virtual, ele cita o alemão Martin Heidegger (1889-1976), que antecipou algumas implicações da tecnologia em alguns de seus textos célebres.

"Heidegger acredita que o mundo não é um espaço geográfico, mas o resultado dos vários mundos que nossas vivências e relações nos mostram. A realidade é aberta a interpretações múltiplas. Engajar e empoderar o outro estão na essência do existir. Quando compartilhamos nossas visões e interesses, construindo novos mundos e significados. O problema é simplesmente se conectar e desconectar destas realidades e relações a hora que quiser, de forma banal", explica Rayner. Theodore e Samantha se esforçam para ampliar as conexões. Ele a leva para seu mundo, seus amigos e sua praia, descortinando-lhe uma realidade de carne e osso. Ela, por sua vez, o encoraja e ajuda a publicar um livro. Só que nem tudo é perfeito. Samantha não tem um corpo físico e Theodore não acessa o mundo virtual dos outros sistemas operacionais com inteligência artificial. A convivência "ao lado, mas não junto ao outro" acaba por aliená-los. (Desculpem pelo segundo spoiler).

Relacionar-se é um dilema inescapável. Existir é arriscar-se. Mas é tão seguro se relacionar por trás das telas. Gosto de você, curto o que você posta. Concordamos sobre a Copa, as manifestações, ouvimos Nina Simone. Mas evitamos o peso real ou a consequência profunda - deveras dolorosa - de nossos atos. Tudo se torna tão banal quanto terminar namoro pelo chat do Facebook. Nos excluímos, nos bloqueamos, evitamos as reações difíceis e supostamente deletamos todas as complexas teias e possibilidades heideggerianas de nossa convivência com a mágica de alguns cliques.

Para Rayner, a tendência é que a tecnologia estimule relações supostamente mais seguras, de envolvimento parcial com as pessoas e situações. Mas ele alerta para a importância de dar um passo atrás. "Pra que ter o trabalho de ir a um estádio de futebol se posso simular esta experiência no sofá de casa, por meio das lentes do seu Google Glass, enquanto você compartilha sua experiência em tempo real? Viver o simulacro da sua vivência me parece empobrecedor", afirma. Talvez seja mesmo o momento exato de afastar as multi-telas dos nossos campos de visão para verificar as cores ensolaradas e frias do mundo lá fora, só que #nofilter. Amarre o cadarço do tênis, cuidado para não tropeçar na frente de estranhos. Mastigue pastilhas de hortelã caso pretenda disfarçar os excessos de café ou nicotina. Preste atenção ao par de olhinhos inesperados que, sabe-se lá quando, podem brilhar ao seu redor.

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