OPINIÃO
30/03/2015 18:26 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

O universo feminino segundo Stefan Zweig

Uma das maneiras de se descrever Zweig é como um autor cinematográfico. "As boas histórias são aquelas que sinto que podem virar filme", escreveu ele para o compositor Richard Strauss em 1931, uma época em que o cinema dava seus primeiros passos. Não por acaso, diversos dos seus escritos foram adaptados para a grande tela e setenta anos após sua morte continuam a fascinar e influenciar diretores como Wes Anderson que recentemente bebeu na fonte de Cuidado da Piedade e da autobiografia O Mundo que Vi para criar livremente o universo do seu O Grande Hotel Budapeste, vencedor de quatro prêmios Oscar este ano.

Uma das maneiras de se descrever Zweig é como um autor cinematográfico. "As boas histórias são aquelas que sinto que podem virar filme", escreveu ele para o compositor Richard Strauss em 1931, uma época em que o cinema dava seus primeiros passos. Não por acaso, diversos dos seus escritos foram adaptados para a grande tela e setenta anos após sua morte continuam a fascinar e influenciar diretores como Wes Anderson que recentemente bebeu na fonte de Cuidado da Piedade e da autobiografia O Mundo que Vi para criar livremente o universo do seu O Grande Hotel Budapeste, vencedor de quatro prêmios Oscar este ano.

Com as histórias que compõe este volume Três Novelas Femininas, organizado pelo jornalista e especialista em Zweig Alberto Dines e lançado no ano passado pela editora Zahar, não foi diferente: todas ganharam mais de uma adaptação para o cinema, com "Medo" se tornando um clássico nas mãos do cineasta italiano Roberto Rossellini, tendo Ingrid Bergman no papel da personagem principal. Como bem observa Dines em suas notas, é uma pena que Zweig e Hitchcock nunca tenham se encontrado, "Medo" teria sido um prato cheio nas mãos do cineasta.

"Medo" é a novela que abre o livro e apesar de ser possível encontrar ecos de Madame Bovary na infiel Irene Wagner, Zweig está mais preocupado com o estado psíquico da personagem, criando um thriller psicológico que acompanha a deterioração mental da protagonista, levando o leitor a entrar em sua mente e enxergar a história através de seus olhos. Irene vive uma existência burguesa banal ao lado de seu marido e filhos até conhecer um músico com o qual resolve ter um caso e ao ser descoberta e chantageada por uma mulher misteriosa, passa a desenvolver uma espécie de síndrome do pânico que a impede de até mesmo sair de casa -- e aqui vale abrir um parênteses para destacar o trecho em que Zweig consegue captar e descrever como é conviver com esta doença:

"Não podia mais ler, nem fazer coisa alguma, demoniacamente acossada pelo mais profundo medo. Sentia-se doente. Vez por outra via-se obrigada a sentar-se de repente, com o coração a palpitar forte, um peso inquieto preenchia todo o seu corpo com o fluido de uma exaustão quase doída, que não a deixava dormir. O medo devorador minava toda a sua existência, envenenava seu corpo. No íntimo, ela ansiava que essa enfermidade irrompesse por fim em uma dor visível, em um mal realmente tangível, clinicamente explícito, que nos outros despertasse a compaixão e a misericórdia. (...) Com os nervos a contorcerem-se, ela tinha de mostrar-se sorridente e satisfeita, sem que ninguém desconfiasse do esforço infinito dessa alegria simulada, da força heroica que desperdiçava nessa autoviolação diária e no entanto vã." (p. 44)

A angústia que a culpa e a vergonha a fazem sentir é tanta que a protagonista envereda por caminhos cada vez mais obscuros, chegando a levar ao extremo o seu plano de dar fim ao tormento; até que acontece uma reviravolta na história.

Já em "Carta de uma desconhecida", Zweig se volta para o Romantismo para contar a história de uma mulher que ao testemunhar o falecimento de seu único filho, resolve sair das sombras em que sempre viveu e revelar para o seu objeto de desejo o amor platônico que nutriu por ele desde a infância. Aqui é a resignação que toma conta do relato de uma pessoa que voluntariamente se anula em prol de um amor que nunca será, a ponto de dar às costas para o conforto financeiro e afetivo da família para viver a duras penas como mãe solteira, em uma época em que isto ainda era considerado um escândalo. Com esta novela, percebemos que não é sem razão que Zweig seja considerado por alguns como um escritor datado, sendo este um enredo de pouca verossimilhança nos dias de hoje -- qualquer mulher moderna rejeitaria a mera ideia de cogitar tal situação --; porém, é a construção da personagem o que importa aqui: em nenhum momento a desconhecida é tratada como frágil ou leviana, antes uma mulher consciente da sua situação que aceita seus sentimentos como um fardo inevitável, optando por manter-se fiel a ele ainda que isso a leve ao desespero e à ruína. Se há alguma lição a ser tirada daqui, é a de que este tipo de amor destrutivo não vale a pena.

Em "24 horas na vida de uma mulher", a terceira e última novela e talvez a mais famosa das três, um grupo de hóspedes de um hotel entra em uma discussão moral após uma mãe de família fugir de uma hora para a outra com um rapaz desconhecido e encantador. O narrador-personagem assume o papel de advogado do diabo defendendo a fugitiva, motivo pelo qual passa a ser hostilizado pelos demais integrantes do grupo, menos uma senhora inglesa identificada como Mrs. C., que encontra no caráter do jovem a motivação para revelar um segredo guardado há trinta anos.

Apesar de parecer uma história sobre aventuras amorosas inconsequentes, há todo um subtexto a respeito do vício, inclusive com um certo clima que sugere uma espécie de embate entre vício e virtude e a ilusão da salvação -- não se fala em cura -- através do sexo, do amor ou mesmo da fé. Não por acaso, "24 horas na vida de uma mulher" foi considerado uma obra-prima por Freud, amigo e mestre de Zweig, que em correspondência para este afirmou: "o senhor é um observador benevolente e afetuoso que luta para compreender o que é inquietantemente excessivo".

A ligação entre Freud e Zweig vai além da mera admiração mútua e o trecho de "Medo" citado acima não foi à toa: nos três textos é o estado psicológico das personagens que compõe a espinha dorsal das tramas, e Zweig demonstra grande sensibilidade para tratar de temas que na época em que foram escritos -- entre os anos 1920 e 1930 --, eram considerados verdadeiros tabus para as mulheres. As histórias podem ser lidas como um estender de mãos do autor: não há julgamento moral ou punição, mas antes, compreensão e até mesmo compaixão, no que pode ser considerada como uma coletânea de estudos sobre os cantos da alma feminina que durante muito tempo permaneceram íntimos e secretos.