OPINIÃO
26/03/2016 22:30 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

O que eu aprendi sobre feminismo com a quadrinista Ulli Lust

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No ano passado duas movimentações feministas chamaram a atenção nas redes sociais ao denunciarem o machismo cotidiano a que todas as mulheres estamos expostas desde muito cedo.

Com a hashtag #PrimeiroAssédio, lançada pela Think Olga, mulheres relataram a primeira vez que sofreram algum assédio ou abuso sexual na vida.

Depois de ser replicada mais de 80 mil vezes, a Think Olga resolveu analisar os dados de alguns milhares e chegou à chocante conclusão que a idade média do primeiro assédio é de 9,7 anos, e que 62% dos assediadores são conhecidos da vítima.

Já a segunda hashtag, #MeuAmigoSecreto, dividiu opiniões. A campanha incentivava mulheres a relatarem atitudes, posturas e discursos machistas e hipócritas de homens do seu círculo de convivência.

Para algumas pessoas, a hashtag nada mais era que uma oportunidade para pessoas mandarem indiretas e atingirem ex-namorados, amigos e familiares ao exporem apenas um lado da história.

Seja como for, ambas campanhas serviram como forma de mostrar o tanto que ainda se faz necessário falar honestamente sobre o machismo estrutural a que todos estamos expostos, e a importância de não silenciar sobre abusos e agressões, sejam elas físicas ou morais.

Foi pensando sobre isso que li a graphic novel autobiográfica da quadrinista austríaca Ulli Lust, lançada por aqui no ano passado pela WMF Martins Fontes, em tradução de Augusto Paim.

No livro, Ulli conta uma viagem que fez aos 17 anos da Áustria para a Itália, sem dinheiro e apenas com as roupas do corpo. Sendo uma adolescente que havia largado a escola para se juntar ao movimento punk, a autora aspirava acumular experiências e conhecer a maior variedade possível de pessoas, pretendendo que a viagem, feita de caronas ao lado de uma amiga que mal conhecia, se tornasse uma grande aventura.

E talvez a história de Ulli seja um bom exemplo do porquê vemos tão poucas histórias de mulheres que saem em aventuras sozinhas de carona e sem dinheiro pelo mundo, no melhor estilo beat: o que deveria ser uma grande diversão, se transforma em um enorme perigo.

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Das pessoas que Ulli encontra ao longo de sua jornada, a grande maioria homens, são todos muito parecidos -- ao artista ao político, do artista ao budista: todos encaram as mulheres como seres sem autonomia e poder, meros objetos sexuais disponíveis para satisfazerem seus desejos.

Ou se não chegam a tanto, preferem se omitir, como o citado amigo budista que a garota faz em suas andanças, quando se perde de sua amiga, e que decide abandoná-la sozinha à própria sorte com a justificativa de que os olhares de tantos homens deixava o clima "hostil" e "agitado". Ele não dava conta.

"Mas eu tenho que dar conta SOZINHA, é?! Idiota! Sou o maldito objeto de cobiça!", pragueja ela ao lembrar suas palavras. Enquanto ele caía fora deixando ensinamentos hipócritas sobre "abrir o chacra do coração e irradiar amor à sua volta", ela era abusada e estuprada sem que ninguém se importasse.

As páginas que contam do estupro e os momentos de medo, raiva e culpa são ao mesmo tempo as mais pungentes e também as mais belas do livro: a autora demonstra toda a dor que sentiu e o apagamento de si mesma ao se ilustrar pequena, sem forma definida, chegando a se tornar apenas um mero contorno no quadro até mergulhar na completa escuridão.

Mais desconcertante ainda, é que ela acaba desenvolvendo uma espécie de Síndrome de Estocolmo, vindo a se apaixonar por seu agressor e começar namoro com ele, no que logo se torna um relacionamento abusivo.

No livro de Ulli Lust não há denuncismo, lições de moral e nem mesmo uma moral da história.

Há apenas o relato honesto sobre uma adolescente idealista que se depara com a realidade como ela é. Enquanto Ulli passa maus bocados ao se ver constantemente assediada, sua amiga Edna encara a viagem de maneira completamente oposta.

Ninfomaníaca assumida, Edna fica feliz de transar com qualquer homem disposto e não vê problema algum em se prostituir por comida e acabar estabelecendo a profissão durante sua estadia na Itália.

Para ela, longe de se sentir impotente, o desejo dos homens lhe confere poder, o que lhe parece confirmado em seu envolvimento com um membro da máfia, que faz com que os outros homens se afastem pela primeira vez. Mas esta é uma crença enganosa: elas só terão algum apoio desses homens se forem obedientes a eles. Quando finalmente se dá conta disso, Ulli resolve voltar para casa.

Hoje é o último dia do resto da sua vida funciona como um road book contado pelo ponto de vista feminino, e se há uma lição a ser tirada daqui é a confirmação de que ser mulher é estar, desde cedo, exposta. E não há exceção.

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