OPINIÃO
05/12/2014 19:47 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Janaina Tokitaka e o acolhimento à diferença em "Eugênia e os Robôs"

'Há uma espécie de tradição em estabelecer uma falsa simetria entre o gênero masculino e habilidades lógicas e para lidar com tecnologia. Das mulheres, é esperado que tenham uma grande inteligência emocional e capacidade afetiva. Sinto que quebrar estes dois estereótipos ao mesmo tempo foi mesmo intencional'.

divulgação

Eugênia é uma menina de 11 anos que não é como todas as meninas de 11 anos: ela se interessa por mecânica e elétrica avançadas e, na sua idade, já havia melhorado a imagem da TV da casa, a velocidade do computador e a eficiência da cafeteira. Como o nome sugere, Eugênia era um gênio.

E como todos os gênios que entendem mais de métodos, de lógica que de seres humanos, Eugênia era incapaz de fazer amigos. Um tantinho pelo ar de superioridade, que considerava as crianças comuns, seus interesses e brincadeiras em bobos e entediantes, outro tanto por incapacidade de entender as emoções e comportamento humanos: como alguém pode chorar quando está feliz e dizer que "está tudo bem" quando não está?! Então, como uma espécie de deusa mirim, Eugênia resolve construir seus próprios amigos à sua imagem e semelhança e com alguns aperfeiçoamentos, para que ficassem na medida do seu gosto e expectativa. Os robôs de Eugênia obedecem às leis de Isaac Asimov:

1. Um robô não pode fazer mal a um ser humano nem permitir que algum mal lhe aconteça;

2. Um robô deve obedecer às ordens dos seres humanos, exceto quando estas contrariarem a primeira lei;

3. Um robô deve proteger a si mesmo desde que isso não contrarie as duas primeiras leis.

E tudo funciona muito bem até o dia em que Eugênia vai à escola - local cuja mera visão costuma provocar enjoos nela - e, satisfeita com os novos amigos que a aguardam em casa, se afasta ainda mais do convívio com seres humanos ao ponto de resolver passar o horário do recreio trancada no banheiro com um livro de haicai japonês. E então, a menina é confrontada com, Daniela, a bully de sua classe, que diz que aquela cabine é sua. Eugênia não reage. Daniela consegue mobilizar toda a escola a ir espiar a menina que não quer abrir a porta do banheiro e a cada pessoa que tenta convencê-la, Eugênia se encolhe cada vez mais, sem reação, até o momento em que seu Beto, o faz-tudo da escola, derruba a porta e ela, finalmente, explode em choro. Eugênia não compreende como pode ter acontecido tanta confusão quando tudo o que ela queria era evitar problemas. E é depois deste episódio que Eugênia resolve ter uma ideia ainda mais radical para os seres humanos.

A esta altura, já ficou claro para o leitor que Eugênia é a típica antissocial, cujo gênio se assemelha a personagens badalados da cultura pop como Sheldon, de The Big Bang Theory, ou Sherlock Holmes, na moderna adaptação da BBC. Ao contrário de Eugênia, no entanto, ambos se rodeiam de seres humanos, um tanto pacientes e passivos, que em pequena escala, conseguem extrair alguns lampejos de humanidade deles, em um caminho inverso de Eugênia que com sua megalomania, acaba se aproximando mais do personagem escritor no filme Ruby Sparks, que acaba conseguindo transformar uma personagem de sua cabeça em uma namorada real e, até mesmo, de Theodore Twombly, do filme Ela, que se não chega a dar vida a alguém que caiba nos seus sonhos, é com uma máquina que está a seu dispor que ele consegue se relacionar intensamente. O que todos esses personagens têm em comum é um profundo e patológico narcisismo.

Uma abordagem um pouco pesada para tratar um livro infantil? Sim e não. É verdade que este não é o ponto do livro de Janaina Tokitaka, que tem uma lição e uma redenção para Eugênia e cuja trama fantástica e com um quê de ficção científica muitas vezes nos leva a lembrar de desenhos como Os Padrinhos Mágicos ou Fineas e Pherb mas também é interessante observar a personalidade de sua personagem. Muitos adultos muito parecidos com Sheldons e Sherlocks e Theodores manifestam suas inadequações à vida social e adulta ainda jovens, como Eugênia, e costumam passar por diversos sofrimentos por não receberem a atenção adequada. Um exemplo disso é encontrado no próprio livro: enquanto Eugênia permanece trancada e encolhida no banheiro, a atitude da diretora da escola é brigar com ela e sugerir um psicólogo aos pais, que a deixam de castigo. E não é difícil imaginar que coisas parecidas aconteçam na vida real. Em nenhum momento se levanta a possibilidade de se preocupar com o comportamento estranho de Eugênia e conversar com ela sobre como se sente, se limitando a tentar enquadrá-la no "comportamento normal" e puni-la. Na vida real, muitas vezes, essa ausência de compreensão e de tato adequado para inserir a criança na sociedade, gera indivíduos narcisistas e egocêntricos que se tornam solitários, acreditando que poucos estão à sua altura e ansiosos por encontrar alguém sob medida: seja um melhor amigo submisso, uma personagem de ficção ou uma máquina. Dificilmente aprendem a lidar com companheiros/as reais e autônomos. E agem como Eugênia quando confrontados: chegam ao limite do desespero, pedindo aos berros para parar.

Voltando ao livro, Eugênia tem a oportunidade de poder experimentar um mundo completamente acolhedor a ela. E se entedia. E acaba entendendo que deveria partir dela a coragem de "lidar com as Danielas desse mundo". Que não são seus pais que não a amam quando não fazem uma festa a uma conquista sua: as emoções humanas têm várias nuances e manifestações e a partir do momento em que ela busca entendê-las, tudo passa a fazer sentido.

O leitor vai perceber que em todos os filmes e desenhos citados nesta resenha os protagonistas são homens. E este é o grande diferencial de Eugênia e os Robôs, publicado pela editora Rocco: um livro escrito por uma mulher, com uma protagonista mulher que se mete em encrencas e resolve seus problemas praticamente sozinha, sem um mentor ou uma paixonite no meio. Sim, existem os robôs e existe a quase mística figura de seu Beto, o faz-tudo da escola que pode ter ou não um papel importante no livro, mas para nenhum deles Eugênia deve o protagonismo. Sem estereótipos, a história é universal e possível de agradar a todos os públicos.

A paulistana Janaina Tokitaka, que além de ser autora de mais de 10 livros infanto-juvenis é também artista plástica e ilustradora, concordou gentilmente em conceder uma breve entrevista sobre a condição de Eugênia - que ela esclareceu se tratar de autismo -, o protagonismo feminino na ficção, e ainda deu dicas para quem busca conhecer mais autoras que ocupam gêneros ainda considerados "não femininos" na literatura. Vem ver!

Você comentou que o livro trata de uma criança com autismo. A ideia de criar uma personagem com essa condição veio de alguma experiência pessoal ou é apenas um assunto que desperta o seu interesse?

Evitei explicitar a relação com o autismo porque acho que, para além de autista ou neurotípica, Eugenia é simplesmente uma menina sensível que funciona de um modo próprio e, enquanto tal, só precisa ser compreendida. Tenho sim relações próximas com pessoas que foram diagnosticadas com autismo leve e usei algumas experiências próprias para construir a personalidade da Eugenia e maneira com que ela se comunica com o mundo. Acredito que é preciso caminhar para não estigmatizar psicopatologias, até porque, elas são extremamente comuns e não definem ninguém. No fundo, é uma questão básica de acolher a diferença.

No livro, tanto a direção da escola quanto os pais de Eugênia não parecem tratar do caso adequadamente. Isso me lembrou a bonita campanha da TreeHouse em 2009, que veiculou peças dizendo "Quanto mais uma criança com autismo ficar sem ajuda, mais difícil será alcançá-la". Você não chega a problematizar a questão no seu livro, mas eu gostaria de saber o que você pensa sobre o assunto. Acha que há ainda muita desinformação?

Obrigada pela chance de falar sobre isso, é MUITO importante. Acho essa campanha bastante positiva. É muito importante que os pais e a própria escola saibam lidar com autismo. Independente do grau de autismo, as dificuldades que advém dele são bem mais contornáveis e superáveis quando há envolvimento da parte dos pais e quanto antes isso for feito, melhor.

De novo, é preciso desestigmatizar. Acho que a própria criação de personagens complexos na literatura ou cinema é importante, nesse sentido. Representatividade adequada é bom tanto para a criança autista, que de alguma forma pode se identificar com o personagem, quanto para o público em geral, que pode perceber a questão de uma maneira mais humana e menos estereotipada e empatizar melhor a partir deste contato na ficção.

Um outro ponto do seu livro é que ele traz referências da ficção científica, porém com uma menina inventora como protagonista - e isso sem cair em estereótipos. Como eu citei na resenha, geralmente vemos essas histórias serem contadas através de protagonistas masculinos. A representatividade feminina também é uma questão que te preocupa? Acha que há preconceitos com livros protagonizados por mulheres?

Sim, há uma espécie de tradição em estabelecer uma falsa simetria entre o gênero masculino e habilidades lógicas e para lidar com tecnologia. Das mulheres, é esperado que tenham uma grande inteligência emocional e capacidade afetiva. Sinto que quebrar estes dois estereótipos ao mesmo tempo foi mesmo intencional. A própria ficção científica é um gênero, de modo geral, associado aos homens. Essas categorizações são absolutamente falsas e nocivas e temos que trabalhar com urgência para derrubá-las. Recentemente, uma das minhas autoras preferidas, Ursula Le Guin, que escreveu obras absolutamente geniais de ficção científica, recebeu um prêmio literário importante, de Lifetime Achievement, pela National Book Foundation. Recomendo muito a leitura da obra dela para quem quiser pensar em questões de gênero dentro deste recorte.

Há um tempo, as escritoras brasileiras Aline Valek e Lady Sybylla lançaram a coletânea independente de ficção científica feminista Universo Desconstruído. Em um universo onde há uma necessidade maior de mulheres ocupando espaços de criação em gêneros geralmente considerados "masculinos", como ficção científica e terror, que outras autoras você recomendaria?

Além da própria Ursula Le Guin, outras autoras que eu adoro e ocupavam lugares ditos "não femininos", recomendo a obra de Flannery O'Connor. O'Connor escreveu contos extremamente maravilhosos e terríveis sobre assassinatos, desajustados e o lado perverso da natureza humana, todos ambientados no sul dos estados unidos. Gosto bastante da obra policial da Patricia Highsmith, criadora de um dos personagens mais assustadores e sofisticados da literatura policial, Mr. Ripley. Penso, também, que a abordagem seca, crua e assustadora dos contos de fada feita pela Angela Carter é bem interessante enquanto literatura de terror.

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