OPINIÃO
05/09/2014 17:17 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Frei Betto escreve para crianças sobre a finitude da vida em "Começo, Meio e Fim"

Reprodução

A morte é sempre um assunto delicado. Na minha resenha do mais recente livro de Julian Barnes Altos Voos e Quedas Livres publicada no Brasil Post, eu falo sobre meus primeiros contatos com ela, da sensação de impotência e desespero diante da irreversibilidade e finitude e a maneira como cada uma me afetou de uma forma diferente. Ainda que tenha demorado 11 anos até a morte do meu avô em 1996 (ou menos, com a de Senna, dois anos antes), a morte e a partida não eram assuntos desconhecidos para mim: eu havia assistido a longas animados como O cão e a raposa e Dumbo, que me faziam chorar copiosamente com suas implacáveis cenas de abandono (o abandono para mim era equivalente à morte) e também Bambi e O Rei Leão, que tratam da morte de maneira dura e realista, mostrando como é ser obrigado a crescer e enfrentar a vida sozinho. Não importa quantas vezes eu assista: a morte de Mufasa me faz chorar até hoje.

Esses filmes, embora difíceis e dolorosos de assistir, em nada chegaram perto de me traumatizar de alguma forma, nem suas cenas me fizeram perder o sono - apesar de a ansiedade de um dia perder meus pais ter ficado latente em mim. Hoje em dia, noto que esse tipo de obra se torna cada vez mais rara, com o assunto cada vez mais se tornando um tabu de ser tratado honestamente e sem eufemismos, e adultos tentando superproteger as crianças do lado amargo da vida. Nesse sentido, há um quê de coragem em uma figura conhecida como Frei Betto resolver abordar o tema em um livro infantil - e se talvez coragem não seja o termo mais correto, pode-se afirmar que, pelo menos, o autor cometeu um acerto feliz ao ter a sensibilidade de perceber como uma publicação do tipo é necessária.

Em Começo, meio e fim, recém publicado pela editora Rocco, conhecemos a pequena e inocente narradora-personagem que gosta de comparar pessoas a doces e conta como os domingos na casa dos avós são alegres e aconchegantes. Mas um domingo em especial estava diferente. Naquele domingo, sua avó não estava contente nem lembrava um doce, antes, farinha; seu avô nem mesmo veio cumprimentá-la na porta. A menina logo desconfia que algo está errado e imagina coisas terríveis, até ser levada ao quarto do avô e descobri-lo doente. E é aí que o avô inicia uma explicação sobre a existência e finitude das coisas, inclusive do mundo, e como é necessário que o que é velho morra para que haja espaço para o novo florescer.

frei betto

O que pode incomodar no livro de Frei Betto é ser um tanto didático em certos trechos, onde uma aposta em metáforas lúdicas (como as dos doces) talvez fossem de maior beleza. E também há uma certa ligeireza entre a descoberta da doença e a morte do avô, que finda o livro - apesar da beleza com que o desfecho é escrito, talvez o momento sugeria um pouco mais de desenvolvimento e reflexão. Sobre os acertos, Frei Betto trata a criança como um ser capaz de entender e lidar com uma situação tão complicada, apresentando a morte como uma consequência natural da vida - inclusive ao mostrar como nem sempre partimos quando estamos velhos e doentes, podendo acontecer abruptamente em um acidente, por exemplo. E em uma das passagens mais belas, o religioso não assume nenhum tom de superioridade, tratando com respeito e normalidade que algumas pessoas não acreditem nem em religião, vida após a morte e nem em Deus. Sem buscar a verdade para si, o avô do livro assume que a crença em algo além é próprio das religiões e também no que ele crê e de minha parte, penso que incentivar a crença de que a vida continua em outro lugar, ao lado de uma figura que transmite segurança, como Deus, é reconfortante e adequado para crianças, que não precisam lidar com a tristeza de não se crer em nada.

Com a leveza das ilustrações sensíveis de Vanessa Prezoto e a escrita delicada de Frei Betto, este é um livro que vale a pena ser lido com as crianças para introduzir e explicar um assunto tão difícil e inevitável quanto a morte. Independente da religião do leitor, ou da falta dela.

Acompanhe mais artigos do Brasil Post na nossa página no Facebook.


Para saber mais rápido ainda, clique aqui.


MAIS LIVROS NO BRASIL POST:

Livros que capturam o que é ser introvertido