OPINIÃO
17/01/2018 19:28 -02 | Atualizado 17/01/2018 22:36 -02

'Extraordinário': A gentileza contagiante do livro de R. J. Palacio que baseou o filme

Em nenhum momento, a autora permite que August seja uma vítima ingênua e sofrida das circunstâncias.

'Extraordinário' conta a história de Auggie, um menino que sofre de deformações faciais de nascença e cuja vida é um milagre.
Divulgação
'Extraordinário' conta a história de Auggie, um menino que sofre de deformações faciais de nascença e cuja vida é um milagre.

Com tantos best-sellers no mercado, muitas vezes é difícil distinguir aquele título valioso, que chega às listas de mais vendidos por ser realmente imperdível, daqueles cujo marketing é tão poderoso que faz todo mundo comprar sem saber direito por quê — e muitas vezes, não conseguir passar das primeiras páginas.

Por isso, deixei passar Extraordinário na época de seu lançamento pela editora Intrínseca, em 2013. A sinopse, sobre um pré-adolescente sofrendo de doenças raras na face, de modo a fazer seu rosto parecer deformado, que enfrenta a escola pela primeira vez, me pareceu um tanto apelativo. Parecia haver sérios riscos de acabar em um enredo melodramático repleto de frases de superação, que ao mesmo tempo que nos fazem torcer pelo pobre menininho, nos deixam com um incômodo, como uma culpa remota.

Foi o interesse da minha filha em conhecer a história que me fez iniciar a leitura do romance. Nas primeiras páginas eu já estava completamente envolvida.

O livro conta a história de August, ou Auggie, um menino que como mencionado, sofre de deformações faciais de nascença e cuja vida é um milagre: desenganado pelos médicos, o menino demonstrou ser mais forte que parecia e sobreviveu, ainda que à custa de diversas cirurgias.

Seus pais o aceitaram e o amaram desde o primeiro momento, enfrentando longos períodos de internações e cuidados especiais permanentes, para que Auggie vivesse em um ambiente seguro e pudesse se desenvolver plenamente.

Auggie é mimado e superprotegido, inclusive por sua irmã mais velha Olivia, que todos chamam de Via -- apesar de um leve ressentimento que ela carrega por não ter toda a atenção dos pais e saber que seu parentesco com Auggie desperta a curiosidade de seus colegas de escola.

Sabendo do estranhamento (ou verdadeiro pavor) que o menino desperta nas pessoas, os pais de August decidem educá-lo em casa durante todo o período que contemplaria o Ensino Fundamental 1, até que, quando completa dez anos, eles começam a achar que aquele pode ser o momento de o menino sair da asa dos pais e frequentar uma escola normal, podendo desistir a qualquer momento.

No início, ele resiste. Tem medo de ser tratado como uma aberração e não se adaptar e, por isso, a escola prepara um encontro antes do início do ano letivo para que August conheça a escola e convoca três alunos para ambientá-lo ao local. E assim começa a nova etapa na vida de Auggie, que não é nada simples, mas tampouco é tão ruim como ele esperava.

A grade sacada do livro é não se concentrar somente em Auggie, que assume a função de narrador durante a maior parte do tempo. R. J. Palacio construiu uma história cuja trama é contada através de vários pontos de vista diferentes -- não a mesma história sob vários ângulos, mas depoimentos variados de diversos personagens que de alguma maneira se relacionam com Auggie, que dão substância à história, criando um todo quase tridimensional.

Nenhum personagem é apenas aquilo que Auggie nos conta, e tudo aquilo que ele mesmo não sabe nos é esclarecido ora por sua irmã, ora por seus amigos próximos e até mesmo pelo namorado da irmã, que acaba desempenhando um papel inusitado na trama.

O que impressiona é a franqueza do discurso da autora: em nenhum momento ela permite que August seja uma vítima ingênua e sofrida das circunstâncias; ela o transforma em um ser inteligente, consciente da impressão que causa e da força que precisa ter para seguir adiante, repleto de bom humor e que enfrenta com muita dignidade todos os percalços em seu caminho.

Auggie não se sente uma pessoa diferente de nenhuma outra apesar de sua aparência e necessidades especiais. E é essa autoestima bem resolvida, de quem aceita ser o que é, aliada ao amor da família e aceitação dos seus novos e poucos amigos, que permitem que ele siga adiante.

Da mesma maneira, nenhum dos outros personagens assume um discurso moralista, repleto de pena e lições; todos são bem construídos, confessando fraquezas de caráter e verdades inconvenientes e até mesmo agindo de maneira desleal ou cruel, o que apenas ajuda a tornar a história de Auggie mais verossímil e fácil de se identificar.

Também é com muita franqueza que a autora aborda o preconceito daqueles que são obrigados a conviver com Auggie: uma mãe de um aluno que acredita que ele tenha deficiências devido à sua aparência e que retira por Photoshop a imagem do menino na foto de turma; olhares de espanto disfarçados; a crueldade infantil que faz que as crianças inventem uma brincadeira por suas costas; ou a pura maldade de adolescentes que investem contra crianças por horror à aparência de Auggie. As pessoas em Extraordinário agem, sentem e falam como pessoas de verdade.

Aliás, com certo bom humor, o romance pode ser encarado como uma versão light, infanto-juvenil e com final feliz do Homem-Elefante, mas a inspiração veio de uma história real em que, ao levar seus filhos a uma sorveteria, a autora encontrou uma família com uma menininha com uma deformidade facial e, ao vê-la, seu filho de três anos se assustou e começou a chorar.

Constrangida e sem saber o que fazer, Palacio pegou seus filhos e se afastou da família e em seguida ouviu a mãe dizer "Ok, gente, acho que é hora da gente ir". Foi então que ela se deu conta de quantas coisas aquelas pessoas já não deviam ter passado e acabou escrevendo a história, que agora ganha versão cinematográfica nas mãos de Stephen Chbosky (As vantagens de ser invisível), com Jacob Tremblay (O quarto de Jack) no papel de Auggie e Julia Roberts interpretando sua mãe.

Em uma escrita leve, fluida e repleta de bom humor traduzida por Rachel Agavino, Extraordinário advoga pela gentileza com a qual devíamos tratar uns aos outros.

Vamos criar uma nova regra de vida... Sempre tentar ser um pouco mais gentil que o necessário.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.