OPINIÃO
13/04/2016 18:24 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Eu, você e a garota que vai morrer

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"Não faço ideia de como escrever este livro idiota", declara o narrador-personagem Greg Gaines no início de Eu, você e a garota que vai morrer (Fábrica231/Rocco, tradução de Ana Resende), e logo o leitor já tem uma mostra do caráter honesto com que o autor Jesse Andrews procurou dar a seu protagonista.

Autodepreciativo e desbocado, Greg é um adolescente comum que procura passar despercebido socialmente para sobreviver aos anos de ensino médio, transitando em todos os grupos (dos atletas aos góticos) sem pertencer a nenhum: "faça amizade com os góticos, mas em nenhuma circunstância se vista como eles. Participe da banda, mas evite os encontros de uma hora na sala deles, depois da aula", são os conselhos que ele dá a seus leitores. E assim Greg consegue se sair bem na maior parte do tempo.

Do lado de fora da escola Greg tem um único amigo, Earl, que sendo fruto de um lar desajustado - cuja mãe deprimida se tornou uma alcoólatra viciada em internet que quase nunca é vista -, foi se criando por si mesmo ao lado dos irmãos violentos e se tornou um adolescente agressivo e displicente. O que Earl e Carl têm em comum é o amor pelo cinema e sua amizade se estreita enquanto ambos recriam clássicos do cinema de maneira mambembe - o que, inclusive, faz lembrar o filme de Michel Gondry Rebobine, Por Favor. Cientes de que a qualidade se seus filmes deixa a desejar, ambos são fieis a um acordo de que ninguém deve assistir aos filmes além deles mesmos.

A rotina de Greg começa a mudar quando Rachel, uma conhecida sua, descobre que está com leucemia. Tendo um relacionamento até então distante, Greg passa a frequentar a casa da menina e andar com ela na escola a princípio para distraí-la e, em seguida, porque descobre possuir um grande talento para fazê-la rir, o que faz com que ele mesmo se sinta melhor. Em uma dessas visitas, Greg leva Earl, que surpreendentemente demonstra maior empatia e sensibilidade que o amigo para com a gravidade da situação de Rachel e logo se afeiçoa a ela. De tal forma que Earl quebra o acordo e mostra os filmes a Rachel, e é aí que as coisas começam a tomar um rumo inesperado.

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Não dá pra falar muito mais que isso sem estragar a trama, mas o principal é que são os acontecimentos que se seguem desde que Rachel passa a ver os filmes que vão culminar em Greg escrevendo o livro. O que se pode dizer é que, apesar de parecer, o título da obra em nada oferece um spoiler para o leitor, já que apesar de tratar de um tema sério como o câncer, o livro não é sobre a doença ou a luta de Rachel contra ela, tampouco sobre uma amizade edificante ou um romance açucarado; antes, é um livro sobre os anos de formação e amadurecimento em que os protagonistas vão se descobrindo através do cinema e da amizade improvável com Rachel.

Bebendo sutilmente da fonte de Alta Fidelidade, livro de Nicky Hornby que marcou uma geração e se tornou um clássico da cultura pop, aqui é mostrado um protagonista um tanto egoísta, cínico e irônico, que escreve de maneira franca e sem arroubos sentimentalistas, em uma estrutura que ora lembra a obra de Hornby nos momentos em que o narrador lista e enumera personagens e situações, e ora apresenta algo novo, ao trocar a prosa pelo formato de cena de roteiro (o que é um exercício de metalinguagem bem sacado quando descobrimos a finalidade para o qual o livro de Greg está sendo escrito), fazendo com que o leitor forçosamente crie seu próprio filme na cabeça.

Sendo um livro divertido e realista, com tantas referências cinematográficas e o tipo de história que o cinema indie americano gosta, não é de espantar que a obra tenha ganhado uma adaptação para a tela grande. Roteirizada pelo próprio Andrews e dirigida por Alfonso Gomez-Rejon (American Horror Story), o filme traz Thomas Mann, RJ Cyle e Olivia Cooke respectivamente nos papeis de Greg, Earl e Rachel e além de estar recebendo boas críticas, venceu os prêmios de Júri e Público no Festival de Sundance deste ano. O filme está na programação do Festival do Rio deste ano e vale a pena conferir.

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