OPINIÃO
01/09/2015 21:43 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Em novo livro, Caitlin Moran mostra do que é feita uma garota

A música será a ferramenta que irá guiar a protagonista durante sua transição entre a adolescência e a vida adulta, permitindo que Johanna descubra seu lugar no mundo e o que quer fazer dele.

No início dos anos 90, Johanna Morrigan é uma adolescente pobre que vive em Wolverhampton, uma pequena cidade operária do condado das Midlands Ocidentais, na Inglaterra, com uma família numerosa: o pai que usa uma "meia invalidez" para viver de benefícios do governo enquanto sonha em ser um astro do rock, uma mãe em depressão pós-parto de gêmeos, um irmão mais novo, seu mascotinho, e um mais velho, seu melhor amigo. Ela sabe que suas opções para romper com seu destino e sair da cidade são poucas. Mas Johanna tem um talento, que descobre logo cedo: ela sabe escrever. "Pessoas pobres podem escrever. É uma das poucas coisas que a pobreza e a falta de conexões não podem impedir você de fazer", afirma, confiante, a narradora-personagem.

E assim, Johanna acaba inscrevendo um de seus poemas em um concurso cujo prêmio, além de um cheque que vai ajudar sua família, inclui ler seu texto ao vivo em programa popular de TV. Ela vence e, durante o programa, acaba se colocando em uma situação tão constrangedora e humilhante que a leva a tomar uma decisão radical: precisa acabar consigo mesma. Mas não literalmente -- Johanna quer ser outra pessoa, uma de quem possa se orgulhar. Para isso, ela decide reinventar a si mesma, mas não sabe direito como: "O que eu quero ser ainda não foi inventado", lamenta. Seus planos incluem ser uma pessoa descolada, gostosa e nobre: "mas não quero ser nobre e dedicada como a maior parte das mulheres da história -- o que parece invariavelmente envolver ser queimada na fogueira, morrer de tristeza ou ser emparedada em uma torre por um conde. Não quero me sacrificar por alguma coisa. Não quero morrer por algo.(...) Quero me divertir".

E vai ser na imprensa musical onde ela irá encontrar ao mesmo tempo a chance de exercer sua vocação e a saída para a vida sem muitas perspectivas que leva até então. Para a mudança ser completa, Johanna até mesmo resolve se apropriar do nome da sobrinha de Oscar Wilde, Dolly Wilde, como pseudônimo, e cria um visual baseado em um forte delineador nos olhos e uma cartola na cabeça. "Fingir até conseguir" é o seu lema. Como jornalista, começa a frequentar shows em Londres, onde aprende a beber e fumar, e passa a detonar diversas bandas nas resenhas que publica em uma revista de circulação nacional.

Ela faz questão de ser maldosa com os artistas cujos trabalhos não gosta, acreditando que "a música pop é importante demais para ser deixada para os inertes, broncos e pouco ambiciosos. (...) O tipo de caras presunçosos que integram essas bandas são o tipo de gente que normalmente desprezaria uma adolescente gorda oriunda de um bairro popular e, no único lugar em que sou mais poderosa do que eles -- as páginas da [revista] D&ME --, quero minha vingança -- vingança em nome de todos os milhões de garotas como eu". Um tipo de pensamento muito comum na imprensa cultural até hoje e que no próprio livro a autora irá derrubar, em uma digressão a respeito do cinismo, do medo e do sarcasmo por trás desse tipo de atitude e como essa postura, principalmente diante do trabalho de artistas pequenos e iniciantes na verdade ajuda a conduzir à morte da arte, da criação, do risco e do novo.

Por trás de Johanna está a mente criativa de Caitlin Moran, jornalista e escritora inglesa feminista que ficou conhecida no Brasil em 2012 quando a Companhia das Letras, através do selo Paralela, publicou seu Como ser mulher (tradução de Ana Ban), livro em que usa a história da sua vida como ponto de partida para discutir questões femininas de um ponto de vista feminista -- inclusive o próprio feminismo que, segundo escreve, acreditava estar "empacado" e restrito ao meio acadêmico, sem dialogar com a maior parte das mulheres que de fato precisam dele.

Em Como ser mulher, Moran também aproveita para refletir brevemente sobre a situação de mulheres do passado que se tornaram ícones -- o que muitas vezes lhes custava a sanidade ou mesmo a vida: "A maior parte das mulheres que fazem frente aos homens parece ser infeliz e ter certa propensão a morrer jovem", observa. "Quando olho para a destruição delas -- desespero, aversão a si própria, baixa autoestima, frustração e repetidas faltas de oportunidade, de espaço, de compreensão, de apoio ou de contexto --, me parece que estão todas morrendo da mesma coisa: de estar encalhada no século errado". Por mais discutível que seja a noção de que neste século as mulheres que desafiam os homens não encontram o mesmo fim, é verdade que as perspectivas estão melhores.

Neste Do que é feita uma garota (Companhia das Letras, tradução de Caroline Chang), ela vai desenvolver este pensamento sob um outro aspecto, já que Johanna além de ser mulher, também pertence à classe operária, o que muda muita coisa: "Acho que eu não teria sido eu mesma em nenhuma época. Não teriam me permitido. Sei o que acontece com garotas como eu, na história. Elas têm mãos ásperas, suadas e sem perfume, frutos do trabalho manual. Pegam tão pesado que parecem ter cinquenta anos aos trinta. Eu trabalharia numa fábrica, ou no campo, sem livros por perto, ou música, ou trens que me levasse, até Londres. Eu seria uma de um milhão de cabeças tristes de gado, pegando chuva, sem deixar rastro", reflete sua protagonista.

Se vale a pena citar Como ser mulher aqui, é porque ambos os livros são tão parecidos que, apesar de Moran deixar claro em um aviso logo no início de que Do que é feita uma garota, seu primeiro romance, é inteiramente ficcional, fica óbvio para o leitor familiarizado com título anterior que muitas das cenas, personagens e reflexões foram baseados diretamente na vida real da escritora, fazendo com que a história de Johanna Morrigan pareça um mergulho na adolescência daquela Caitlin Moran que foge das pedradas dos meninos aos treze anos de idade, como conta no prólogo de Como ser mulher, e que consegue iniciar precocemente uma carreira no jornalismo, como uma crítica musical ferrenha.

Música e autonomia

A música será a ferramenta que irá guiar a protagonista durante sua transição entre a adolescência e a vida adulta, permitindo que Johanna descubra seu lugar no mundo e o que quer fazer dele. A música muda a sua vida desde que, para se enturmar com outros adolescentes, passa a ler as revistas do gênero e encomenda discos de artistas como Patti Smith, Sonic Youth e David Bowie na biblioteca da cidade, até quando consegue um emprego na fictícia revista D&ME, onde será a única mulher em uma redação predominantemente masculina. E vai ser na descoberta das Riot Grrrls ("Um bando de mulheres como uma Liga Extraordinária feminina -- escrevendo fanzines, produzindo shows só para mulheres, andando juntas, tentando abrir um espaço -- na superpopulada, pantanosa selva do rock -- que seja apenas para mulheres"), com figuras emblemáticas como Kathleen Hanna e Courtney Love, que ela se dará conta de que não apenas não está sozinha, como também "tudo é possível".

"Toda a minha vida sempre pensei que, se não fosse capaz de dizer algo que os meninos achassem interessante, eu poderia muito bem calar a boca. Mas agora me dou conta de que havia toda uma outra metade invisível do mundo -- garotas -- com quem eu podia falar. Toda uma outra metade igualmente silenciosa e frustrada, apenas esperando que dessem a ela o menor sinal verde -- a menor cultura de arranque -- e ela explodiria em palavras, e música, e ação, e em gritos aliviados e eufóricos de 'Eu também! Eu também sinto isso!'"

O single "Teenage Whore" [Vadia Adolescente, em tradução livre], do Hole, muito popular no Reino Unido em 1991, é mencionado em particular e não à toa: enquanto Courtney Love se autodeclarava uma vadia, cantando sobre baixa autoestima e comportamento promíscuo para obter vantagens, Johanna, sendo uma adolescente gordinha e meio feinha, louca para transar, se sentia da mesma forma, o que lhe provocava tanto orgulho quanto autodesprezo. "De certa forma que parece bastante injusta, a única maneira de me qualificar nisso -- sexo --, que é vista como socialmente importante e desejável, é sendo uma baita vadia -- o que não é visto como socialmente importante e desejável. (...) Num exercício para desconstruir minha vergonha, repito frequentemente a frase 'baita vadia' para mim mesma, de forma que ela deixe de ser tão nociva", nos confidencia.

O que Caitlin Moran está realmente fazendo com as peripécias de Johanna, é oferecer para diversas meninas o tipo de ficção honesta a qual ela, que só tinha visto uma mulher gozar na cena do falso orgasmo de Harry & Sally, não teve acesso, em uma era pré-internet. Isso ainda diz muito sobre como a experiência feminina da descoberta do próprio corpo e sexualidade foi silenciada em grande parte do material ficcional fora do nicho considerado erótico. Aqui, retomando o que já tinha feito no livro anterior, Moran faz questão de falar abertamente sobre a descoberta do desejo e da sexualidade, desde o primeiro beijo, até a masturbação adolescente, o consentimento no sexo, o orgasmo feminino, a vergonha de permitir o sexo oral, etc. sempre contando causos sexuais de maneira leve e divertida -- incluindo um episódio hilário em que a protagonista acaba com uma cistite após transar com um rapaz conhecido como Al Pau Grande.

Primeiro amor e recomeço

Como toda adolescente que começa a descobrir as possibilidades do mundo, a jovem anti-heroína também se impressiona fácil. E assim, acaba se apaixonando platonicamente por John Kite, um músico que conhece durante uma entrevista e com quem descobre tantas afinidades que leva a uma grande amizade, baseada em troca de dicas musicais, caminhadas pela cidade e muita bebedeira. Durante um desses encontros, Johanna aparentemente acaba protagonizando um episódio com Kite que finalmente a levará a se sentir tão culpada e envergonhada de si mesma e da vida que vem levando até então, que chega ao ponto de se automutilar ("As cicatrizes são como se eu tivesse uma mensagem no braço. Algo que precisa ser lido, urgentemente, por alguém. (...) Aquelas linhas significavam 'nunca se sinta mal assim de novo. Nunca volte para este lugar, onde apenas uma faca funciona. Não faça coisas que farão você querer se machucar'").

E é a partir de então que, mais uma vez, Johanna se permite morrer, apenas para ressuscitar como uma fênix: dessa vez, sem o cinismo, a maldade e a insegurança de antes mas, usando suas palavras, "como uma entusiasta". Ela decide cortar de sua vida pessoas e comportamentos que a levaram ao fundo do poço e recomeça do zero: sai da redação da antiga revista, que estimulava sua postura destrutiva, e vai escrever para uma mais positiva; e finalmente, consegue se mudar de Wolverhampton para Londres, dando os primeiros passos na jornada de uma Johanna Morrigan/Dolly Wilde, que começa a deixar de ser garota para aprender a ser mulher.

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