OPINIÃO
14/07/2014 17:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

<em>Entre 4 Linhas</em> ajuda a unir quadrinhos e futebol

Dentre editores, roteiristas, desenhistas, coloristas dá para se contar nos dedos os que gostam de futebol. O livro "Entre 4 Linhas" conseguiu reuni-los.

Divulgação

Diz a lenda que todo brasileiro tem alguma história de futebol para contar. Se isso é verdade, eu tenho sido uma das exceções. Tenho lembranças vagas do título de 94 (a tensão dos pênaltis, o chute pra fora de Roberto Baggio, o marcante grito de "é tetra!") e alguma noção da polêmica convulsão de Ronaldo na Copa da França em 1998. Não faço a menor ideia de como, quando e onde fomos penta campeões. Mesmo crescendo em uma família de flamenguistas, nunca chegou a despertar em mim o interesse pelo esporte. Tímida e preguiçosa, fugia das aulas de Educação Física na escola. Morando no Rio, só conheço o Maracanã de vista, não namorei peladeiros e o meu contato mais íntimo com o esporte foi ter jogado uma partida uma vez na vida e encontrado uma vez o Romário na praia. Enfim, o futebol nunca me disse nada nem marcou minha vida de nenhuma maneira. A Copa do Mundo deste ano foi a primeira que acompanhei de verdade, motivada por um misto de crescente animação com os eventos e a ilimitada zoeira nas redes sociais - e pode ser que no futuro vire história a se contar para os netos, admito.

Sendo assim, não costumo prestar muita atenção no que se lança sobre o tema. Livros, filmes e programas passam despercebidos por mim, principalmente por preguiça. Mas este ano me chamou a atenção o discreto lançamento de uma publicação em parceria entre as editoras ZnorT! e Quadrinhópole: Entre 4 Linhas, livro com a proposta de unir quadrinhos e futebol - uma mistura ainda poucas vezes vista principalmente porque, segundo Sidney Gusman em seu prefácio, "dentre editores, roteiristas, desenhistas, coloristas etc... dá para se contar nos dedos os que gostam (...) tem muita gente que simplesmente odeia!". "Acho que existe um certo preconceito (bobo) com o tema por parte de quem faz HQ", arrisca Fabrizio Andriani, coordenador da Gibicon Curitiba e idealizador do projeto, onde ilustra o texto de Eduardo Visinoni na história "O torto e eu", uma homenagem a Garrincha sob o ponto de vista de um rapaz que frequentava o bar O Torto, uma espécie de um antro de devoção ao jogador, e compartilha das mesmas pernas tortas do famoso craque.

Com a crença de que boas histórias podem ser contadas a partir do futebol e a vontade de mostrar o aspecto cultural do esporte através da sua presença em nosso dia a dia, Fabrizio decidiu convocar um time de mais de 30 artistas - entre eles Carlos Ruas, responsável pelo blog Um Sábado Qualquer -, para uma coletânea recheada com ilustrações, charges, tiras e mais 16 histórias não exatamente de futebol, mas sobre ele. O resultado é um curioso apanhado, permeado pelos mais diferentes estilos narrativos: "Interativisoccer", do Estúdio Lobo Limão, por exemplo, simula um mangá do tipo gamebook; André Ducci faz uma adaptação ilustrada da crônica "O Fim da Infância", do escritor Joca Reiners Terron; histórias reais, como o depoimento de Tako X, que conta ter um dia sido conhecido como "Pelé japonês", figuram ao lado de aventuras fantásticas como "Perna de Pau", de Joe Bennet e Gian Danton, extraída da famosa mitologia da "Insólita Família Titã". Há espaço para tudo: de relacionamentos entre pais e filhos a zumbis, extraterrestres e vikings; momentos de consciência política, social e ambiental e outros de simples humor despreocupado, em uma interessante colcha de retalhos que se utiliza da presença do futebol no imaginário coletivo como matéria-prima.

A publicação traz ainda um bônus: o resgate das ótimas tiras do "perna de pau e mau caráter" Maciota, personagem de Paulo Paiva que fez sucesso nas páginas da Placar durante os anos 80, e ainda uma prévia de uma sequência do filme Mundo Cão, de Marcos Jorge (Estômago), mostrando momentos de um sequestro durante um jogo do Palmeiras no Pacaembu, em São Paulo, em adaptação assinada pelo ilustrador a animador Walkir Fernandes. Estrelado por Lázaro Ramos, o filme está previsto para estrear em 2015.

Mas se por um lado Entre 4 Linhas procura ajudar a saldar uma dívida dos quadrinhos com o futebol, a publicação não foge do estereótipo de encarar o esporte como assunto masculino: Pryscila Vieira é a única mulher entre os artistas colaboradores e, curiosamente, a sua tira "Amelly, a mulher de verdade" é também a única a trazer uma mulher como protagonista. Na verdade, as mulheres são praticamente inexistentes no livro, mesmo como coadjuvantes - e esta nada surpreendente falta de representação (ou a representação carregada de estereótipos, em alguns casos) ainda é lugar comum no universo dos quadrinhos. O que não chega a ser impedimento para que a audiência feminina aproveite o caprichado material editado por Leonardo Melo, que, aliás, tem o mérito de ser capaz de agradar um público amplo: seja o leitor um fã de quadrinhos clássicos ou simplesmente um aficionado por futebol, seja um curioso interessado em boas histórias ou um leitor casual em busca de entretenimento, Entre 4 Linhas não vai decepcionar, cumprindo o seu papel com material honesto e de qualidade. Ainda que sofra um desfalque.

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