OPINIÃO
09/07/2015 12:01 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

Elvira Vigna e o nada que diz tudo

Seu nono livro, Por Escrito, acabou sendo considerado um dos melhores do ano de acordo com diversas listas. Mas não é um livro para todos os gostos: escrito como uma espécie de fluxo de consciência da protagonista Valderez em uma carta para seu companheiro Paulo, o livro requer total atenção do leitor que enquanto é ambientado na mente imagética da narradora, pode ficar com a sensação de que nada acontece durante boa parte da narrativa.

REPRODUÇÃO

Considerada uma das melhores escritoras da literatura brasileira contemporânea, a premiada Elvira Vigna lançou seu nono livro, Por Escrito, pela Companhia das Letras no ano passado e acabou sendo considerado um dos melhores do ano de acordo com diversas listas. Mas não é um livro para todos os gostos: escrito como uma espécie de fluxo de consciência da protagonista Valderez em uma carta para seu companheiro Paulo, o livro requer total atenção do leitor que enquanto é ambientado na mente imagética da narradora, pode ficar com a sensação de que nada acontece durante boa parte da narrativa. De certa forma, não estará tão longe da verdade -- de acordo com a própria autora, Por Escrito "não é sobre nada":

"A história principal do Por Escrito não é bem uma história. Nada acontece com a Valderez, que é a narradora. Ela perde o emprego e isso é mais ou menos tudo. O emprego dela inclui viagens, participação em eventos. Antes de perder o emprego ela fica parada esperando o avião que atrasa, o motorista do evento. Depois que perde o emprego, piora. Fica parada sem álibi mesmo. Fica porque fica. Não é fácil escrever um livro desses e levei um tempão só parada, igual à Valderez", escreveu a autora no texto lido quando do lançamento da obra. Mas de maneira alguma temos aqui um livro vazio: o que Elvira nos oferece é um estudo de personagem, uma personagem observadora, solitária e apática, que parece estar sempre em trânsito por lugares impessoais como estradas, hotéis e aeroportos e por lá fica sentada, por horas. E por um bom motivo, como revela Valderez em certo momento: "Ou é porque é disso que eu sinto saudade, e é disso, da bunda doendo de tanto ficar sentada num degrau curvo de escada, um lugar nenhum que tento repetir e tento outra vez (...), os bilhões de lugares nenhuns que busquei sem parar na minha vida e que a bunda reconhece, ou eu me esforço para que reconheça, como sendo parecido com o degrau de uma escada em que eu me senti próxima, uma vez, de outra pessoa".

Mas ainda que nada aconteça no presente de Valderez, seu passado é cheio de demônios e ela vai se confrontar com alguns deles ao fazer uma visita ao irmão e encontrar sobre o piano a foto de uma antiga amiga. A foto está ligada a um broche e ambos fazem parte de um evento em especial que volta à tona nos pensamentos da protagonista após a morte de sua mãe, a quem chama pelo apelido, Molly. Aliás, a impressão que dá é a de que é a morte da mãe que vai tirar Valderez do piloto automático, fazendo com ela se permita tomar atitudes como deixar o emprego, terminar um relacionamento e escrever sobre sua vida de maneira quase terapêutica, buscando no passado os pontos-chave que explicam o agora.

Com uma narrativa não linear, a leitura de Por Escrito é como desbravar uma mata densa cheia de surpresas que aparecem quando menos se espera. A história de Valderez, de Molly e das várias outras personagens que aparecem no livro é a história de tantas mulheres comuns captadas por Elvira Vigna com a precisão de quem já viveu o suficiente para romantizar a vida. Em suas palavras, "é esse incômodo de você às vezes perceber que está vivendo algo que não está lá. Que a tua vida pode não ser o que você acha que é".

Elvira Vigna atualmente prepara seu décimo livro.