OPINIÃO
22/07/2015 18:38 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Daniel Defoe retrata a situação feminina em Moll Flanders

Ao escolher o ponto de vista feminino para falar sobre falta de oportunidades, busca por riqueza, individualismo e desigualdades sociais e de gênero, Defoe demonstra ter notado que eram as mulheres as maiores vítimas das injustiças sociais, com todas as suas capacidades subestimadas e sufocadas pelas convenções da época.

Durante a FLIP, em uma mesa sobre deslocamentos geográficos e escrita, o escritor Daniel Galera foi perguntado sobre deslocamentos de gênero e a voz da mulher na literatura, ao que respondeu:"a ideia de literatura feminina ainda é muito forte e esse ideia sempre foi errada. Ela é mais errada hoje em dia. (...) Escrever do ponto de vista de uma voz que é de gênero, de uma orientação sexual que seja oposta, não tem nenhum mistério nisso". Fora do contexto, a impressão que causou foi a de que o autor estaria menosprezando a importância da literatura feita por mulheres e ainda reduzindo o ponto de vista a estereótipos, o que não era o caso. O autor usou seu perfil no Twitter para esclarecer:

"A crítica que fiz era sobre vozes femininas estereotipadas na literatura, o 'escrever como mulher' enquanto estética rígida. Sobre 'não ter mistério' escrever do ponto de vista de uma mulher, quis dizer que é um desafio técnico como outros. A ficção é terreno para que a empatia humana ganhe forma, atravessando distâncias e diferenças. A diversidade também é uma prerrogativa dos personagens. Saibamos criá-los com liberdade e ouvi-los sem preconceitos."

Galera não poderia estar mais preciso. Ainda que haja quem prefira não se distanciar de suas zonas de conforto, a literatura está repleta de grandes autores que não apenas arriscaram escrever sob um ponto de vista feminino, como também o fizeram com maestria. Aqui nesta coluna já escrevi sobre as novelas femininas de Stefan Zweig, e dificilmente há alguém interessado em letras que nunca tenha ouvido falar na famosa Madame Bovary, de Flaubert. Mas é de outra famosa personagem que quero falar aqui: Moll Flanders, imaginada pelo inglês Daniel Defoe, conhecido pela maioria como o autor das aventuras de Robinson Crusoé.

Publicado em 1722, mais de sessenta anos antes que a francesa Olympe de Gouges redigisse sua Declaração dos direitos da mulher e da cidadã, em 1791, e a inglesa Mary Wollstonecraft publicasse a Reivindicação dos direitos da mulher, em 1792, Moll Flanders ganhou nova tradução para o português, assinada por Donaldson M. Garshchagen, e publicado pela Cosac Naify. Para a edição que marcou a volta da coleção Prosa do Mundo, a editora incluiu ainda ensaios de Cesare Pavese, Marcel Schwob e Virginia Woolf, que chamou a atenção para o caráter moderno da obra e seu autor no que diz respeito aos direitos das mulheres:

"Sabemos que ele pensou a fundo e muito à frente de sua época sobre a capacidade das mulheres, que considerou muito alta, e a injustiça feita a elas, que considerou muito dura. (...) [Moll Flanders] depende totalmente de sua própria inteligência e raciocínio para enfrentar cada situação que surge, com uma moralidade de ordem prática que ela mesma forjou para si."

Narrado em primeira pessoa em formato de memórias, o livro conta a história de uma inglesa que nasceu pobre, saída do ventre de uma prostituta dentro da prisão. Acolhida quando criança por uma senhora piedosa, a menina ainda pequena já demonstra esperar mais do mundo do que ele está disposto a lhe dar: apavorada com a perspectiva de se tornar uma criada, ela declara querer ser uma "dama" -- em sua concepção infantil, uma dama, na verdade, significava ser dona da própria vida e dinheiro através do trabalho, como uma comerciante. E ela realmente começa a ganhar a vida dessa forma, através da costura, até que sua benfeitora morre e Flanders passa a ser acolhida na casa de uma família amiga. Dessa vez, como criada.

Dona de enorme talento, beleza e inteligência, a jovem, ao contrário de outras meninas pobres que compartilham da sua situação, tem a oportunidade de aprender a ler e escrever ao lado das filhas da da família, o que vai lhe dar alguma vantagem ao longo da vida. Seduzida pelo irmão mais velho mas alvo do amor verdadeiro do mais jovem, Flanders enfrenta seu primeiro impasse: casar com o mais novo e garantir uma vida estável ou correr o risco de ser colocada na rua caso a família venha a descobrir seu envolvimento com um homem que não tem a menor intenção de assumi-la. A contragosto, ela escolhe a primeira opção. Dessa maneira, o casal se torna a vergonha da família e vivem afastados até que o marido morre e então começam as peripécias de Moll Flanders para garantir a sua sobrevivência. E ela logo percebeu que seria através do casamento, embora sua situação não fosse favorável. A digressão sobre o casamento é um dos grandes momentos do livro:

"Beleza, inteligência, cortesia, bom senso, conduta, educação, virtude, piedade ou qualquer outro atributo, físico ou moral, não era recomendação para uma mulher, pois só o dinheiro a tornava atraente; os homens escolhiam as amantes por afeto, e uma cortesã tinha de ser bela, bem-feita, ter rosto gracioso e fino comportamento; com relação à esposa, não havia deformidade que chocasse o gosto, nem defeito que alterasse a escolha: era o dinheiro que contava, o dote nunca era disforme ou monstruoso, o dinheiro era sempre agradável, não importava como fosse a esposa. Como todas as vantagens estavam, infelizmente, do lado dos homens, descobri que a mulher perdera o direito de dizer não; agora a mulher via um pedido de casamento como um favor."

E continua:

"Ademais, observei que os homens não tinham nenhum escrúpulo em pôr-se em campo para caçar um dote, mesmo quando não possuíam fortuna alguma para demandá-lo ou qualidades para merecê-lo, e levavam essa atividade a tal extremo que a mulher não tinha sequer o direito de investigar o caráter ou situação do homem que a pretendia. (...) Mesmo na baixa condição em que me encontrava, teria desprezado um homem que me julgasse na obrigação de aceitá-lo apenas por sua palavra, sem me deixar a liberdade de informar-me a respeito de sua fortuna e de seu caráter e (...) tendo [a mulher] boa fortuna, não tinha necessidade de curvar-se ante os costumes odiosos da época: já era absurdo que os homens pudessem insultar as mulheres que não possuíam dinheiro suficiente para serem levadas em consideração, mas se ela deixava passar tal afronta sem se ofender, rebaixava seu valor para sempre e seria desprezada por todas as mulheres daquela parte da cidade; a mulher não deve jamais perder uma oportunidade de se vingar de um homem que a tratou mal, já que não faltavam maneiras de humilhar um tipo como aquele, pois de outra forma as mulheres seriam as criaturas mais infelizes do mundo."

Para garantir seu sustento, Flanders se dispõe de artimanhas e consegue fazer um casamento desastroso, foge para a Virgínia, nos EUA, onde se casa novamente e vive em tranquilidade durante alguns bons anos, até se deparar com a terrível revelação de que dera o azar de se casar com o próprio irmão. Não suportando tal situação, ela retorna para a Inglaterra onde passa a viver de costura, roubos, prostituição e outros casamentos desastrosos, até que, depois de passar uma temporada na prisão de Newgate e quase encarar a forca, finalmente consegue passar seus últimos anos de vida em tranquilidade e estabilidade.

Muito menos que a história em si, o que mais chama a atenção em Moll Flanders, além do caráter livre e autônomo da protagonista, que declara que as mulheres precisam de coragem e força para impor seus direitos, é o panorama geral que a obra fornece, intencionalmente ou não, sobre a situação das mulheres da época, sobretudo as das classes mais baixas, funcionando também como uma crítica ao capitalismo. A maior parte das personagens com quem Moll Flanders se depara não vive vidas confortáveis em casamentos arranjados; antes, são comerciantes, costureiras, prostitutas, ladras, parteiras que também realizam abortos clandestinos, muitas sem a oportunidade de ter tido uma educação, de forma que nos deparamos com perspectivas um tanto quanto sombrias para as mulheres que precisassem cuidar de suas próprias vidas, em uma época em que as opções de fonte de renda eram quase nulas.

Ao escolher o ponto de vista feminino para falar sobre falta de oportunidades, busca por riqueza, individualismo e desigualdades sociais e de gênero, Defoe - que anos antes defendeu a importância de se oferecer educação à população feminina no ensaioOn the education of women [Sobre a educação das mulheres]; e ainda, ele mesmo tendo passado 18 meses na prisão de Newgate, podendo conviver com os tipos mais marginalizados e ouvir diretamente suas histórias - demonstra ter notado que eram as mulheres as maiores vítimas das injustiças sociais, com todas as suas capacidades subestimadas e sufocadas pelas convenções da época, e colocado sua empatia a serviço da voz daquelas que provavelmente não teriam muitas chances de se expressarem e serem ouvidas. E fez isso de maneira magistral.