OPINIÃO
14/12/2015 22:35 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Há consenso científico sobre armas - e a National Rifle Association não vai gostar

Depois da tragédia de Sandy Hook, jornalistas frequentemente me chamavam para pedir informação sobre armas de fogo.

Jupiterimages via Getty Images
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David Hemenway

Depois da tragédia de Sandy Hook, jornalistas frequentemente me chamavam para pedir informação sobre armas de fogo. Eles queriam saber se as leis rígidas de controle de armas reduzem a taxa de homicídio (eu disse que sim); e se, do outro lado, as leis permissivas de armas reduzem a taxa de crimes (eu disse que não).

Eu descobri, nas reportagens publicadas, que os jornalistas escreveram que eu falei uma coisa enquanto outro pesquisador sobre armas de fogo disse o contrário. Essa abordagem de "ele disse-ela disse" me aborreceu - porque eu sabia que a evidência científica estava ao meu favor.

Um dos jornalistas para quem eu reclamei disse que ele já tinha feito reportagens sobre mudanças climáticas por muitos anos. Ele explicou que os jornalistas apenas foram capazes de parar com suas reportagens "equilibradas" quanto ao assunto quando resultados objetivos indicaram que a maioria dos cientistas achou que mudanças climáticas estavam, de fato, ocorrendo e que elas foram causadas pelos seres humanos.

Então, eu decidi descobrir objetivamente, através do voto, se havia consenso científico sobre as armas de fogo. O que eu descobri não agradaria a "National Rifle Association" (Associação Nacional de Rifles).

Meu primeiro passo foi criar uma lista de cientistas relevantes. Decidi que para estar qualificado para a pesquisa, o pesquisador deveria ter publicado pesquisas sobre armas de fogo em revista científica especializada e deveria ser cientista ativo - alguém que tenha publicado um artigo nos últimos quatro anos.

Eu estava interessado em ciências sociais e políticas, portanto eu queria que os artigos fossem diretamente relevantes. Eu não estava interessado em cientistas que faziam pesquisas forenses, históricas, sobre questões psiquiátricas, engenharia ou sobre outros tipos de armas (por exemplo, pistola de prego).

A maioria dos cientistas que publicavam artigos relevantes era da área de criminologia, economia, políticas públicas, ciências políticas e saúde pública. Como, em geral, nos artigos da área de saúde pública havia mais autores do que nos artigos da criminologia, para ter uma lista equilibrada inclui apenas o primeiro autor de cada artigo. Estudantes de pós-graduação que trabalham para mim identificaram mais de 300 primeiros autores distintos, e encontraram mais de 280 endereços de e-mail.

Em maio passado nós, começamos a enviar curtos questionários mensais. A primeira questão em cada pesquisa perguntava sobre o quanto o respondente concordava com uma alegação específica relacionada às armas de fogo, a segunda e a terceira questões pediam ao respondente para avaliar a qualidade da literatura científica, assim como o nível de sua familiaridade com a literatura científica naquele assunto específico.

Então, por exemplo, em um questionário foi perguntado se o fato de possuir uma arma dentro de casa aumenta o risco de suicídio. A maioria dos 150 pesquisadores que responderam a consulta, 84%, disse que sim.

Esse resultado não foi nem um pouco surpreendente porque a evidência científica é esmagadora. A evidência inclui uma dúzia de estudos em nível individual que investigam por que algumas pessoas cometem suicídio e outras não, e um número quase igual de estudos de várias áreas tentando explicar as diferenças nas taxas de suicídio entre cidades, estados e regiões.

Esses estudos concluíram que as diferenças nas taxas de suicídio dentro do país são menos explicadas pelas diferenças na saúde mental ou ideação suicida do que pelas diferenças na quantidade de armas de fogo nos domicílios.

A meta-análise de 2014, conduzida por pesquisadores da UC San Fransisco, aplicada nos estudos científicos sobre armas e suicídios concluíram que o acesso às armas de fogo aumenta o risco de suicídio. De forma similar, a National Strategy for Suicide Prevention da National Action Alliance for Suicide Prevention e o U.S. Surgeon General concluíram que o "acesso à arma de fogo é um fator de risco de suicídio nos Estados Unidos".

Como disse, eu não fiquei surpreso com os resultados desse questionário. Mesmo assim, foi bom poder documentar que a grande maioria de pesquisadores do assunto havia chegado à mesma conclusão sobre armas de fogo e suicídio a partir de suas leituras da literatura científica.

Eu também encontrei um convencimento generalizado de que uma arma no domicílio aumenta o risco de uma mulher residente ser vítima de homicídio (72% concordam, 11% discordam), e que uma arma no domicílio torna o local mais perigoso (64%) ao invés de mais seguro (5%).

Há consenso de que as armas não são usadas para autodefesa com muito mais frequência do que são usadas para crimes (73% vs. 8%), e que a mudança para leis mais permissivas de porte de arma não reduziu as taxas de crime (62% vs. 9%). Finalmente, há consenso de que leis rígidas de controle de armas de fogo reduzem os homicídios (71% vs. 12%).

É claro que é possível encontrar pesquisadores que se aliam ao "National Rifle Association" na crença de que armas tornam a nossa sociedade mais segura ao invés de mais perigosa. Como mostrei, porém, eles são a minoria.

O consenso científico nem sempre é certo, mas é o nosso melhor guia para entender o mundo. Os jornalistas podem, por favor, parar de fingir que os cientistas, a exemplo dos políticos, estão divididos quanto às armas de fogo? Nós não estamos.

David Hemenway é professor da Harvard School of Public Health e Diretor da Harvard Injury Control Research Center.

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