OPINIÃO
16/04/2015 13:40 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:22 -02

Você é psicóloga?

Esse questionamento, aparentemente bobo, me fez refletir por que é tão raro conseguirmos acolher verdadeiramente a dor e os sentimentos alheios, nos conectar por inteiro com o outro.

(Fonte: Free Images)

Hoje me aconteceu algo bastante curioso. Conversando com uma pessoa que eu havia conhecido há alguns minutos e que expunha uma condição de vulnerabilidade (veja não estou usando a palavra fraqueza, e sim vulnerabilidade; se quiser saber de forma mais clara a diferença, recomendo este vídeo), eu tentei ao máximo me colocar no lugar dela. Como o assunto era a culpa ao comer e eu já estive em "lugares parecidos com este" algumas vezes, não foi uma tarefa muito difícil.

Ainda assim, ouvi com meu coração. E em vez de julgar, criticar ou até mesmo pensar que já sabia a resposta, tentei me conectar com o que ela sentia e falei algumas palavras de carinho e acolhimento. De forma natural, sem pretensão. No final dessa breve interação ela agradeceu a conversa e me perguntou: "Você é psicóloga?". Soltei uma risada natural e disse: não, engenheira! Ela também sorriu e agradeceu mais uma vez.

No entanto, esse questionamento, aparentemente bobo, me fez refletir por que é tão raro conseguirmos acolher verdadeiramente a dor e os sentimentos alheios, nos conectar por inteiro com o outro.

Essa dificuldade faz que, nas raras vezes que conseguimos, quem é amparado se sinta grato mas ao mesmo tempo admirado. "Deve ser um profissional no assunto, não um ser humano 'qualquer'."

Eu também não tenho a resposta, não sei por que é tão árduo alcançar o coração alheio de forma real, suave e afetuosa. Acredito, porém, que a resposta passe pelo fato de não sermos capazes, em diversas situações, de acolhermos a nós mesmos e lidar com nossas próprias incertezas, angústias e dores. Sendo assim, é melhor ignorar, engolir seco e seguir em frente, pois acolher o outro pode significar ter que me encarar de frente, me despir, e isso já não sei se estou disposta, principalmente por não saber aonde posso chegar.

Talvez falte leveza no olhar. Falte a percepção dos fatos como acontecimentos e não como causas de um tribunal que esperam julgamento. Acolher o outro é ouvir com o coração sem ficar preocupado em encontrar culpados na fala alheia. Não é necessário colocar os fatos em caixinhas de certo e errado. É abraçar o coração da outra pessoa sem exigir dela o abraço de volta ou uma justificativa.

Esse amparo pode ser por meio de palavras ou num "formato físico", como um abraço, um carinho. Qualquer gesto de apoio e amor que demonstre ao outro que o valor dele é muito maior que qualquer frustração ou dor daquele momento. É como aquele abraço dado a uma criança que acabou de machucar seus joelhos, precisa de sentimento e entrega, não necessariamente de entendimento...

Acolher a nós mesmos segue passos muito parecidos. Começa por sermos verdadeiramente gentis conosco. Afastar qualquer culpa e repetir carinhosamente que, apesar do que nos traz desconforto ou tristeza, temos sim muito valor e merecemos nosso próprio abraço para seguir em frente.

O ato de acolher é reforçado nos dois sentidos. Quando acolhemos o outro, nos tornamos um pouco mais capazes de abraçar a nós mesmos. E quando nos acolhemos, nos tornamos mais preparados para nos conectar com o coração alheio. Trata-se de um exercício que, como qualquer outra coisa, por meio da prática, vamos nos aprimorando aos poucos. E como vale a pena...

A gratidão de quem se sentiu cuidado reflete imediatamente em que pôde cuidar. E essa conexão é o próprio amor em uma de suas mais bonitas formas!

Texto originalmente publicado aqui

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