OPINIÃO
07/03/2016 13:01 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

Marina e Maria: As mulheres que foram assassinadas pela conivência social

Todos os que responsabilizam as vítimas por serem atacadas são, na verdade, coniventes com a violência. São, de certa forma, colaboradores e igualmente abusadores, visto que com apenas uma palavra se mostram compreensíveis com aqueles que praticam o mal. Até quando Marinas e Marias ficarão perdidas e sozinhas, não pela ausência de um gênero masculino, mas por estarem abandonadas por uma sociedade conivente com hábitos e costumes preconceituosos e abusadores?

Reprodução

A notícia foi divulgada: Duas turistas argentinas, viajando sozinhas pelo Equador, foram dadas como desaparecidas no dia 22 de fevereiro e encontradas mortas a facadas e pauladas no dia 28.

E nesta triste notícia uma única palavra me chamou a atenção:

Sozinhas?

Por que usar esta palavra?

Elas eram duas amigas adultas e em uma viagem. Quem será que estava faltando nesta história?

Porque duas amigas juntas não é o suficiente?

A ausência do que ou de quem a imprensa e as autoridades se referem?

Fui ler a respeito, e para minha surpresa, encontrei opiniões diversas, até de profissionais da área da saúde e de estudos de comportamento humano, dizendo que "essas duas moças se tornaram facilitadoras para serem atacadas, desde o momento que decidiram esta viagem, pois estariam viajando sozinhas".

É claro que compreendo os perigos que rondam as mulheres, mas a presença de um homem neste caso seria, então, a garantia de segurança delas?

A mulher somente estará segura ao lado de um homem?

E curiosamente, não seria este "mesmo homem" o causador de tanto outras violências?

Milhares de meninas, moças ou mulheres que viajam acompanhadas de homens (amigos, irmãos, pais, namorados) são violentadas mesmo assim. E muitas outras também assassinadas por outros homens aqueles que seguindo a lógica social, deveriam "protegê-las".

Pergunto então: Será que outras mulheres como Marina e Maria seriam "facilitadoras" e estariam apenas igualmente "sozinhas"?

É muito forte e presente ainda a crença social e cultural, que teima em se fixar nas diferenças entre os gêneros como justificativa para explicar certo e o errado.

São ideias formadas por conceitos primitivos, não compreendidos e não questionados, também impositivos e à espera de que o meio aceite e concorde com este comportamento.

Talvez o mais impressionante seja perceber que as pessoas (ainda que muitos não saibam porque fazem ou sintam até certo incômodo em fazer) acabam violentando as mulheres duas vezes, ao reproduzir atos e palavras que estão presas a conceitos repressores.

Onde e quando ser homem ou ser mulher, é mais que do que "ser humano"?

Até quando as pessoas ainda vão se conformar e usar deste conformismo, sem questionar sua capacidade de pensar além?

Por quanto tempo, ainda, as pessoas vão alegar, para si mesmos, que a causa de um ato abusivo contra a liberdade de outra pessoa (sendo ela mulher ou homem, homo ou heterossexual, criança ou adulto, negro ou branco ou asiático ou indígena...) é a escolha dela?

Percebem isso?

Concordamos e dizemos que as mulheres são culpadas por serem abusadas, violentadas ou até assassinadas por que elas fizeram suas escolhas de ir e vir, por usarem tal roupa, pelo horário que estavam na rua...

E assim sem se dar conta, as pessoas apoiam e são coniventes com os reais culpados da violência, que são os assassinos e os abusadores.

Penso em Marina e Maria, as duas mulheres que tiveram suas vidas interrompidas brutalmente por aqueles estavam interessados em seu próprio prazer e se deram o direito de decidirem sobre a vida de cada uma delas.

Penso também em cada pessoa que diz que Marina e Maria "facilitaram" ou "pediram por isso", unicamente por estarem "sozinhas".

Entendo, com esses pensamentos, que todos os que responsabilizam as vítimas por serem atacadas são, na verdade, coniventes com a violência. São, de certa forma, colaboradores e igualmente abusadores, visto que com apenas uma palavra se mostram compreensíveis com aqueles que praticam o mal e não solidários às vítimas.

Até quando Marinas e Marias ficarão perdidas e sozinhas, não pela ausência de um gênero masculino, mas por estarem abandonadas por uma sociedade conivente com hábitos e costumes preconceituosos e abusadores?

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