OPINIÃO
09/03/2016 17:13 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

Amy: só uma menina

Amy era só uma menina que não teve a chance de se conhecer, não teve a chance de existir, não teve a chance de crescer, mas recebeu um Oscar por sua vida.

www.photoshow.com/watch/ri6hy5kw?source=em_ps_show_owner... Amy was only with us for 27 years, genetically via Israel and Russia she came from England, where she was a dynamo of energy and talent. ... Wikipedia has a long list of her work and awards. Here's the link ...en.wikipedia.org/wiki/Amy_Winehouse... Here's the link where I purchased the MP3 download of her album for $3.99 ...www.amazon.com/s/ref=nb_sb_noss?url=search-alias%3Ddigita..." data-caption="... here' the link to my photoshow of Amy singing Will You Still Love Me Tomorrow...www.photoshow.com/watch/ri6hy5kw?source=em_ps_show_owner... Amy was only with us for 27 years, genetically via Israel and Russia she came from England, where she was a dynamo of energy and talent. ... Wikipedia has a long list of her work and awards. Here's the link ...en.wikipedia.org/wiki/Amy_Winehouse... Here's the link where I purchased the MP3 download of her album for $3.99 ...www.amazon.com/s/ref=nb_sb_noss?url=search-alias%3Ddigita..." data-credit="mrbill78636/Flickr">

Sempre fui fã daquela voz e melodia. Após alguns pedidos resolvi, sem sacrifício algum, assistir ao seu documentário e fiquei pensando: Amy Winehouse era só uma menina.

Sua mãe afirmava 'não saber ser mãe'. O seu pai era ausente. E ela era uma menina que quando decidia algo ninguém a fazia mudar de ideia.

"Mãe, você é muito mole, eu sempre escapo das broncas. Não pode ser assim, você deve me dizer quando parar!"

Amy parecia saber que se não houvesse limites, ou um olhar mais direcionador em sua vida, as coisas poderiam se complicar. Tentava alertar a sua mãe, talvez sem nem saber que era um alerta para si mesma.

Ela admirava o seu pai, mas também disse que ele nunca foi presente, mesmo quando estava presente. Ele até podia estar na escola ou nas festinhas, mas nunca foi assertivo: "Obedeça sua mãe e vá para cama ou parem de brigar."

Eu esperava que ele interviesse em algum momento, mas ele estava sempre fora das situações. Ele ia embora e isso doía todas as vezes nela.

Quando seus pais separaram a menina Amy entendeu que podia fazer tudo o que quisesse dali por diante, afinal, não havia mais nada o que esperar deles. Ela ainda não entendia o que sentia e o que passava em sua cabeça. Tudo era intenso. Era tudo ou nada.

Nada importava. Ela apenas queria ter a chance de não se importar. Queria não ter expectativas, mas parece que estava sempre esperando. Esperando o quê e a quem?

Amy era intensa. Comia muito quando podia e colocava tudo para fora quando queria. Bebia muito em todas as oportunidades e se anestesiava da realidade. Buscava sempre várias formas de não ter que lidar com o real. Fico pensando o quão grande era a sua dor para precisar de tantos anestésicos assim.

Dor essa tão sentida, tão incompreensível por meio dos atos e das palavras, mas que foi tão cantada.

Pobre menina Amy. Enriqueceu com sua dor, mas apesar da fortuna parece que continuou cheia de faltas. Faltas essas que riqueza alguma poderia comprar. Queria colo, ser amada, ser desejada, como qualquer pessoa. Era só uma menina assustada com suas faltas e com todo o seu poder.

Ela era cheia de extremos. Ia do tudo ao nada em pouco tempo. Tempo esse que parecia não fazer sentido cronológico a ela, uma menina em corpo de mulher. Muitos diziam que aos 19 anos ela tinha alma de 65 anos. E um dia, aos 20 e poucos anos, precisou de socorro ao avistar seu pai, sentou em seu colo e pediu abrigo, como uma menina de apenas 7 anos.

A menina Amy se apaixonou, sentia que precisava ter aquele alguém. Alguém que ela escolheu e que desejou, que foi embora, a fez chorar, voltou e depois se foi novamente. Como doía nela cada vez que ele se foi. Ela o queria muito, queria muito alguém que estivesse lá, que lhe desse a chance de viver, alguém que ela havia escolhido.

Conseguir o que queria sempre foi muito importante para ela. Fico imaginando se desejava em seus sonhos que ele quisesse ficar por amor, somente por esse sentimento. Mas sempre existiram dúvidas em torno dos valores. Havia os custos desse amor.

Enquanto ele estava com ela, parecia cuidá-la. Ela queria ser cuidada, isso a fazia sorrir. Os cuidados sempre a leva a fantasiar. Era como um sonho.

Amy tinha muita fome e sede por amar e ser amada. Sua necessidade tinha que ser saciada. Ela vivia buscando desesperadamente por seu aconchego. Não se preocupava em ter dinheiro ou fama, mas aprendeu rápido que estes dois podiam ao menos comprar o seu sonho de amor. E isso parecia ser melhor que não ter nada.

A menina Amy possuía uma imensa e poderosa voz. Sua mente e seu corpo lhe deram a chance (ou ela descobriu tal chance) de falar por meio das canções para que de alguma forma não se afogasse em seus sentimentos.

Sentimentos esses que parecia não existir palavras certas ou linguagem comum para serem ditos. Ela cantava, ela falava, ela mostrava, mas parece que suas palavras, letras e melodias somente ela podia entender.

Uma vez ela disse: "Não tenho nada para mostrar que queiram ver. Preciso ficar só em meu canto para escrever e cantar, preciso disso para viver... Se um dia me tornar famosa, acho que não aguento e me mato!"

Amy foi premiada, em grande estilo, com tapete vermelho e um Oscar, após a sua morte.

Ela disse, ela cantou, mas ninguém a ouviu de verdade. Ela aparecia em todos os lugares e todos a enxergavam, mas quase ninguém a viu e verdade.

Amy era uma menina que se perdida e como toda criança teve medo e procurava por seu pai e mãe.

Naquele último dia ela resolveu que mudaria. Pediu desculpas as suas melhores amigas. Já estava com um novo amor -- este parecia ser menos sofrido. Mas não era o suficiente.

"Tudo isso é muito chato quando se está sóbrio. Crescer assim não parece legal."

Então a menina Amy morreu. Uma menina solitária dentro de si mesma. Talvez esperando aquele olhar, aquele colo que a fizesse acreditar que ela valia a pena por quem ela era e não pelo que enxergavam dela.

No fim desta análise só penso como as crianças precisam de cuidados adequados e atentos, que respeitem a sua existência, para que tenham alguma chance de vida dentro delas. A importância de um olhar afetivo ou o dano que a falta dele pode gerar são imensuráveis.

O que dizer disso tudo? Talvez o que eu senti ao assistir o documentário: Amy era só uma menina que não teve a chance de se conhecer, não teve a chance de existir ou de crescer, mas recebeu um Oscar por sua vida.

LEIA MAIS:

- Marina e Maria: As mulheres que foram assassinadas pela conivência social

- Por que é urgente cuidar da saúde mental das crianças no Brasil

Também no HuffPost Brasil: