OPINIÃO
24/05/2015 23:37 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Profissão? Estudante

"Estudante", "pesquisador" ou "bolsista" não são "profissões" apreciadas pela maior parte da população. Aliás, minto, não são compreendidas. Apreciar é outra coisa.

Soyoung Jeon/500px
In Centre Library, Hanyang University, Seoul, South Korea

Graduando com parca experiência em estágios, mestrando ou doutorando com bolsa. Um, dois, três pós-Doc. Profissão? Estudante.

Tem coisa pior do que, ao conhecer novas pessoas, ou mesmo ao encontrar aquela tia perdida que você não via ha uma década, ter de responder àquela perguntinha básica da nossa sociedade capitalista pós-fordista, pós-moderna e pós-decente:

- O que você faz da vida?

- Bem, eu estudo e pesquiso.

- Sim, mas no que você trabalha?

- Eu estudo, sou bolsista de mestrado/doutorado/pós-doc/etc

- *silêncio constrangido por alguns segundos*

- Ah, que legal, mas quando você acabar no mestrado/doutorado/pós-doc/etc pretende fazer o que?

- Doutorado/pós-doc/etc

- *mais um pequeno momento de constrangimento*

- Mas depois você vai arranjar um emprego (de verdade), né?

O constrangimento pode ser trocado por um olhar de desdém, de pena, de descrença ou, dependendo, até uma risada sarcástica. Mas invariavelmente, "estudante", "pesquisador" ou "bolsista" não são "profissões" apreciadas pela maior parte da população. Aliás, minto, não são compreendidas, apreciar é outra coisa.

Existe, ao menos no Brasil, já um costume (por assim dizer) de revirar os olhos frente ao conhecimento, frente à negação do senso comum. Não se "informar" pelo Facebook, pelo Whatsapp ou, para os saudosos, pelas correntes de e-mail ou pelo Jornal Nacional é motivo para certa desconfiança, para uma suspeita, para um certo nojinho.

"Eu li (em um artigo científico, não na Veja, claro)" ao invés de "vi no Fantástico" é quase uma súplica para ser execrado pela família e amigos.

Sempre tem aquele amigo metido a engraçado que, toda vez que você o encontra, pergunta se você vai trabalhar algum dia, ou que faz piadinhas em hora errada sobre o fato de você ser um vagabundo...

Ser estudante, não importa o quanto você se mate para conseguir ler aqueles livros em português medieval pra sua dissertação em linguística dos tempos de Camões, ou mesmo as noites em claro revisando o texto que seu orientador insiste em "não estar perfeito", é ser um eterno vagabundo.

Um jovem (mesmo aos 70 anos, para lembrar do Paulo Leminski), lutando para publicar artigos, para sobreviver com bolsas miseráveis dadas de má vontade pelo governo e para, depois, acabar dando aula para colégios públicos com o imenso salário de 300 reais e alguns vale-coxinhas é, se sempre será, aquele arquétipo do vagabundo sentado no sofá, tomando cerveja, assistindo Malhação e pedindo dinheiro aos pais.

E, uma vez "trabalhando" (vamos fingir que mestrado, doutorado e afins não seja trabalho, só uma maneira muito estranha de se divertir), ai de quem ousar fazer greve. Oras, não escolheu passar todo aquele tempo livre ao invés de, sei lá, apostar na bolsa ou fazer algo "útil"? Agora aguenta! Toma aí seu vale-coxinha e vá ensinar aos meus filhos um caminho diferente do seu.

O eterno estudante tem que conviver com difíceis escolhas: Morin ou Bourdieu, modernidade ou pós-modernidade, escrever pra congresso em Santa Catarina ou em Pernambuco - ou talvez na Coréia do Sul -, assaltar um banco ou uma loja pra pagar a inscrição pro congresso, comer ou comprar livros, pedir esmola ou pedir grana emprestada pro orientador... enfim, problemas cotidianos que, para "os outros" parecem irrelevantes, toscos até.

Bolsas que perpetuam a miséria entre os acadêmicos e que, em alguns casos, proíbem até que este busque um "emprego digno" pra pagar as coisas e contas, a completa incerteza da vida à medida em que o período da bolsa vai acabando, a interminável burocracia para você provar que não está comprando drogas com a bolsa, ma efetivamente pesquisando, o olhar de pena/desprezo/condescendência do público em geral, da família e amigos, falta de tempo para tudo, mas necessidade de participar de grupos de pesquisa mil, de palestras, de conferências e necessidade de escrever, publicar ("publish or perish")...

Esta é a vida do Estudante. Um profissional da vagabundagem, mas de agenda cheia.

Adaptado e ampliado do post original na Revista Fired, a revista do desempregado moderno.