OPINIÃO
10/06/2015 16:55 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:25 -02

Por que o brasileiro não lê?

jumpinjimmyjava/Flickr
Garbage left out behind our local Goodwill store ! made me think of sad endings! What, if indeed any version, do you like best ?

Com o deslocamento da cultura visual da TV para a expressão escrita da internet, os índices de leitura no País devem ter dado um salto na última década e meia. Em termos de qualidade, porém, como sabe quem alguma vez entrou numa caixa de comentários de grande portal, o cenário está mais para desastre. Michel Laub

Eu costumava pensar da mesma forma que Laub.

Ora, na internet o que mais fazemos é ler, então, em tese, estaríamos mais preparados enquanto nação para ler mais, para já com uma carga significativa de leitura - mesmo que superficial e rápida - partir para "algo mais", para os livros, mesmo que eletrônicos. Puro engano.

De fato na internet a maior parte da atividade, por assim dizer, se baseia na leitura permeada por algumas imagens, vídeos ocasionais... Mas em geral é a leitura que domina, ou ao menos é leitura de forma transversal, muitas vezes apenas títulos de matérias não necessariamente contextualizadas e com conteúdo recortado para caber nas limitações intelectuais (ou no oportunismo momentâneo) do leitor. Isto quanto, alavancado pelo Facebook, não lemos apenas aquilo que em tese nos interessa, sem o desafio do contrário e do contraditório - por vezes quando este surge, vide comentários de portais, sobra ódio em geral escrito em péssimo português.

Não se trata só de qualidade, mas o mundo das redes sociais, dos vídeos engraçados, dos jogos online e etc acabaram por se tornar um mundo em si, não formaram leitores, formaram apenas pessoas que lêem aquele necessário ali, na internet, e muitas vezes reproduzindo o que leram de forma a suspeitar que faltou alfabetização (e noção).

Quantas pessoas lerão este texto até o final vendo que ele não é curto, mas exige um tempo maior e mesmo uma atenção maior do leitor? É praticamente um texto-teste.

Falo por experiência pessoal que antes da internet nós, que vivíamos em apartamento nas grandes cidades, tínhamos tempo, tínhamos tédio. E este tédio/tempo tinha de ser preenchido por alguma coisa. Sim, podíamos assistir TV, mas não creio que alguém aguente passar o dia sendo submetido ao lixo de programação da TV aberta (TV paga era um luxo durante minha infância), sobrava os livros.

Hoje não existe mais esse tédio, existem redes sociais, existe a internet.

Seja qual for o impacto da internet, o fato é que o brasileiro que já lia pouco, lê cada vez menos:

[...] na pesquisa do Instituto Pró-Leitura, a queda no índice de leitura de 36 a 28% entre 2009 e 2011 (reiterada em pesquisa da Fecomércio-RJ divulgada em abril de 2015); a diminuição, tanto em números percentuais quanto em absolutos, do número de leitores entre 2007 e 2011 (de 95,6 para 88,2 milhões) - sendo leitor aquele que leu pelo menos parte de um livro nos últimos três meses antes da pesquisa. Dezesseis por cento dos não leitores são estudantes, naturalmente, em um país em que analfabetos logram obter diplomas de curso superior em instituições privadas.

[...]

Além da queda da média, que foi de estonteantes 2,4 livros em 2007, verifica-se o papel da escola, e é provavelmente o que assegura o primeiro lugar de Monteiro Lobato entre os escritores mais admirados em 2007 e 2011. Quando se vê a "leitura por gêneros", até a Bíblia caiu. Subiram, no entanto, contos (eu não sabia disso antes de publicar Cidadania da bomba...) e livros religiosos

Em 2012 já se falava que 50% dos estudantes (sic) universitários do país não sabiam ler, eram analfabetos funcionais. Universitários, vejam bem. Gente que se forma em UniEsquinas, tem um diploma, mas provavelmente mal conseguem ler o que está escrito no próprio diploma.

E apenas 25% das pessoas ditas alfabetizadas tem capacidade efetiva de leitura. Nem adianta produzir mais livros, não há pessoas com capacidade para os ler.

Os membros do PT gostam de encher a boca para o fato de terem criado as condições para o maior acesso dos mais pobres às universidades, mas esquecem de dizer que não garantiram educação básica, pelo contrário, ela tem piorado. A Pátria Educadora não é apenas um estelionato, é escárnio. Em 12 anos, como vemos, a situação piorou.

Sem educação básica não há efetiva alfabetização. Sem a prática da leitura não há efetiva alfabetização. E nem o PSDB antes e nem o PT hoje deram a mínima para a situação. Todos, em campanha, defendem a educação, mas na prática o que vemos é criminalização de greves de professores lutando por dignidade, cortes, investimento em setor privado de baixa ou nenhuma qualidade e um total abandono do setor.

No Brasil há mais municípios com universidades que, por exemplo, com livrarias. Como é possível uma cidade com uma unidade de ensino superior sem sequer um local onde comprar livros? Como acreditar que alguém vá sair de tal lugar minimamente preparado não para o mercado de trabalho, mas para a vida?

Ha pouco tempo eu lia que em 2008 o Brasil produziu 211 milhões de livros (para uma população de, então 190 milhões), e no mesmo dia li ainda um artigo comentando que a venda de e-books tinha caído nos EUA. Qual a relação? Os e-books que engatinham no Brasil representavam, lá fora, 26% das vendas de livro (em 2014) e apenas esses 26% equivaliam a, pasme, 223 milhões de livros.

Veja bem, apenas a venda de livros eletrônicos nos EUA, 26% do total de livros vendidos, é maior do que a quantidade de livros PRODUZIDOS no Brasil. A população dos EUA é maior que a brasileira, sem dúvida, mas apenas pouco mais da metade maior, logo, é simplesmente impressionante e lamentável observar como não lemos. E notem, dos 211 milhões de livros produzidos no Brasil, até 130 milhões são comprados diretamente pelo governo, se tratam de livros didáticos, livros para alunos lerem, para bibliotecas públicas e etc.

A quantidade de livros efetivamente comprada pelos brasileiros é ínfima.

E além de ínfima, é vergonhosa por outras razões. Uma passada pela lista dos mais vendidos é capaz de fazer chorar. No momento competem livros de pintar (nada contra, realmente tem potencial de relaxar pessoas, mas nota-se que é apenas uma moda e também combina com o momento atual, onde pessoas não lêem e compram um livro que exatamente não exige leitura, não exige raciocínio algum) com romances infanto-juvenis de qualidade altamente duvidosa e os eternos presentes livros de auto-ajuda, cuja qualidade literária - ou qualquer qualidade - é inferior a zero.

A internet contribui para reduzir a quantidade (já pequena) de leitura de muitos, o fechamento de livrarias é um resultado desse fenômeno, ao mesmo tempo em que promove também a fuga dos livros, pois uma livraria é o local em que nos apaixonamos por uma capa e compramos o livro, onde podemos ou podíamos conversar com o livreiro e conhecer novidades.

Mesmo sem livrarias, no entanto, não faltam opções online para encontrar e comprar livros. Não há desculpa.

Hoje temos "megastores" amorfas com vendedores pouco motivados, ganhando mal e loucos para a hora de ir embora (fui vendedor numa Saraiva e não é algo que eu recomendaria a ninguém), transformadas em cafés high techs onde muitas vezes os livros são um detalhe - nem tocarei no preço abusivo dos livros, é coisa para outro artigo.

Talvez possamos colocar na conta também a falta de tempo. Um livro exige alguma dedicação, enfim, tempo. Um bom livro te faz pensar, te exige um cuidado, atenção e dedicação que a vida moderna de horas a fio de trabalho e horas mais no trânsito das grandes cidades tornam precioso qualquer minuto livre e o livro passa a ser segunda, terceira opção - ou nenhuma opção.

Os exemplos poderiam seguir ao infinito: da "pátria educadora" que deixou de comprar livros às goteiras da Biblioteca Nacional, do fascínio por celebridades ignorantes aos "guias de lazer" que dão dicas sobre brechós e passeios com o "pet", desconhecendo a hipótese de alguém preferir ler num sábado ou domingo, o futuro está contratado no que valorizamos no presente.

Além disso, e talvez o grande vilão seja mesmo a educação. Ou a falta dela. E não faço apenas da péssima educação dada aos mais pobres, os mais ricos também não lêem. Se por um lado escolas públicas muitas vezes tem falta de estrutura, falta de professores (motivados) e todos os problemas que conhecemos, escolas ditas de ponta são fábricas para "preparar" para o vestibular/ENEM e se preocupam apenas em passar ao aluno o conteúdo obrigatório, a enfiar goela abaixo o que for exigido e nada mais.

Não se criam leitores, se criam pessoas sem contato com livros para além do necessário, e muitas vezes o necessário é absolutamente chato e estafante. Seria fácil dizer algo como "tudo conspira para que o brasileiro não leia", mas isso seria jogar a responsabilidade para alguma entidade cósmica desconhecida, para o acaso, e não se trata disso. Se trata de ações pensadas, de uma educação voltada para o mercado e não para o pensamento crítico - isso quando há sequer educação.

Se trata, enfim, do sucateamento da educação, da precarização e do abandono, da educação como indústria: de pessoas, de diplomas.

Junte a isso a vida moderna atribulada, a falta de tempo, os problemas que isto acarreta e que são "tratados" com vídeos fofos na internet ou, por outro lado, pelos desabafos violentos e muitas vezes ignorantes nas redes sociais, nos comentários em portais e etc, onde muitos extravasam da forma mais estúpida e inconsequente possível, ou ainda que desviam para a auto-ajuda, numa tentativa torpe de curar problemas existenciais dentro de uma lógica igualmente industrial.

Não é surpresa que impere um aberto anti-intelectualismo no Brasil. Um anti-intelectualismo que criminaliza o pensar, que prejudica a ciência, que mesmo nega a ciência. O Brasil é dominado por um congresso coalhado de indivíduos intelectualmente incapazes aliados a uma elite semiletrada. O resultado não pode ser bom para o País.

Como comentou o professor Pádua Fernandes em texto lamentando o fechamento da tradicional livraria Leonardo da Vinci no Rio de Janeiro:

Livrarias como a Leonardo da Vinci são espaços para encontro, o que é tão necessário, especialmente neste momento em que o espaço virtual parece estimular acirramentos vazios de fanatismos satisfeitos de si mesmos e bolhas sectárias de opinião.

*Texto fortemente baseado em conversas com Mariana Parra e nos preciosos dados coletados por Pádua Fernandes e postados em seu blog pessoal.