OPINIÃO
07/12/2015 11:35 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

'O protesto dos estudantes em São Paulo é político'

Revoltados Online da vida, tucanos paulistas e outros espécimes resolveram, na falta de qualquer bom argumento, atacar os protestos por serem "políticos". É óbvio que o movimento é político, assim como não fazer nada ou atacar o movimento é igualmente um ato político.

Foto do Coletivo Molotov, uso livre

Muito tem se falado sobre as ocupações feitas por alunos secundaristas em São Paulo contra o fechamento de quase uma centena de escolas e a imensa e totalmente nonsense repressão que se seguiu a essas ocupações.

Usar a PM para violentar adolescentes de 14-15 anos protestando pelo direito de estudar é algo simplesmente intolerável, inaceitável, ou ao menos deveria ser.

A "reestruturação" proposta pelo governo fará que escolas passem a atender a apenas um dos três ciclos do ensino secundário. No Brasil, o ensino secundário é dividido em três ciclos: 1º ao 5º ano, 6º ao 9º ano (ambos chamados de ensino fundamental) e o último, que reúne os três anos finais (chamado de ensino médio).

Atualmente, muitas escolas públicas em São Paulo oferecem vagas em mais de um ciclo. Cerca de mil estabelecimentos serão de alguma forma afetados pela medida e mais de 300 mil alunos deverão ser transferidos para outra escola.

As escolas ocupadas têm sido geridas pelos próprios alunos, em muitos casos com apoio de pais, professores e movimentos sociais. Nas escolas, os estudantes organizam horários e turmas para cuidar da limpeza, da comida, e da segurança.

Quem poderia ser contra as reivindicações dos estudantes, ainda mais diante do show de organização e comprometimento dado por eles?

Revoltados Online da vida, tucanos paulistas e outros espécimes resolveram, na falta de qualquer bom argumento, atacar os protestos por serem "políticos".

É óbvio que o movimento é político, assim como não fazer nada ou atacar o movimento é igualmente um ato político, uma decisão de cunho político.

Você, amiguinho que achou linda a foto com o pessoal tomando o Congresso em Brasília em junho de 2013, ou que se emocionou e até participou das manifestações com milhões de pessoas na mesma época sabia que aqueles protestos eram... políticos?

Sim, protestar é política, se revoltar é política, ter opinião sobre a política é.... política! Bingo!

E é bom lembrar, especialmente pros que se animaram em 2013 (ou com os protestos de direita contra Dilma, pese terem caráter totalmente diferente, mas eram políticos igualmente), que esses garotos e garotas protestando hoje eram muito novos em Junho, mas acompanharam pelas redes sociais o que acontecia e hoje colocam em prática o que aprenderam.

Estamos diante de uma continuidade de 2013, de uma nova geração tomando as ruas depois de terem aprendido com a geração anterior. Estamos diante de uma mobilização crescente levada adiante por um público jovem com uma pauta consensual (como foi em 2013, quando a questão central era o transporte) e, mais além, em franco embate com a violência policial que apenas reforça o caráter popular da manifestação.

Outra característica marcante é o papel da mídia. Como em 2013 o grosso dos meios se coloca ao lado da repressão, quase que no papel de assessores do governo. Em Junho a mídia mudou de posição apenas quando seus jornalistas começaram a levar tiros nos olhos. Não chegamos (ainda) neste ponto em 2015.

Um estudo do professor Fábio Malini, da UFES, deixa claro que até as fontes, no Twitter, a reproduzir informações sobre os protestos, são semelhantes às de 2013:

No grafo 02, vemos o repertório de mídia das escolas ocupadas, isto é: as páginas no Facebook que as ocupações adotam como referência para se obter notícia e informação sobre o movimento. Curiosidade: esse repertório está relacionado com aqueles dos protestos de junho de 2013, quando fanpages como Passe Livre SP, Ninja, Advogados Ativistas eram seus protagonistas midiáticos no Facebook.

Pra quem ama o Alckmin (pasme, existem) e acha o MBL o "must" (gíria velha pernambucana, me perdoem), saibam que também é política. Política burra, claro, e até denúncia de sérios problemas psicológicos, mas ainda assim é política.

"Ah, mas tem partido político no meio", grita um revoltado online.. E? Partidos fazem parte da política.

Você pode não gostar de um partido (ou de todos), mas a participação ou não de um ou mais deles não é fator de legitimação ou deslegitimação de movimento algum, em especial no caso dos estudantes que são absolutamente autônomos, mas me parece que não são burros de recusar apoio - mesmo daquele apoio duvidoso e hipócrita, como é o da turma petista que defendia a PM em Junho.

A sua decisão de apoiar, discordar ou de não se importar com os estudantes é política, a participação de partidos, movimentos, sindicatos e etc é também política e faz parte. Deal with it.

E lembrem-se, amiguinhos, o fato de existir porventura alguém ou "alguéns" querendo se aproveitar e capitalizar em cima dos meninos e meninas protestando não quer dizer nada. Vá reclamar e denunciar o aproveitador, não quem luta.

Por fim, recomendo esta música em homenagem ao governador Geraldo Alckmin, relembrando seus feitos (e o da sua polícia) durante os protestos de Junho de 2013, o embrião da atual revolta:

Posted by Banidos pela Direita on Terça, 7 de outubro de 2014

E para um apanhado dos protestos e da repressão até o dia 2 de dezembro, vejam o Global Voices Online.

Galeria de Fotos SP: A força dos alunos das escolas ocupadas Veja Fotos

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