OPINIÃO
13/03/2018 19:42 -03 | Atualizado 18/03/2018 23:44 -03

O curso sobre golpe e a censura que sustenta a narrativa vitimista

"Só há uma coisa mais estúpida que parte da esquerda na narrativa do golpe: A turma acusada de dar o tal golpe dando argumentos pra essa narrativa."

NurPhoto via Getty Images
'Teria mais seriedade fazer uma disciplina sobre o impeachment de 2016 e nela fazer as perguntas que importam: Foi impeachment? Foi golpe? Porque não houve uma grande massa popular defendendo o mandato da presidente eleita?'

Só há uma coisa mais estúpida que parte da esquerda e sua insistência na narrativa do golpe: A turma acusada de dar o tal golpe dando argumentos pra sustentar a narrativa do outro lado.

Mendonça Filho, vulgo Mendoncinha, é uma das figuras mais risíveis que a política pernambucana já produziu. O nível ali é muito baixo e sabe-se lá que acordos costurou pra chegar a ministro da Educação (ironia das ironias).

No cargo não fez nada de notável (o que era esperado) e nem tinha feito uma grande cagada (aí sim algo notável), até o início deste mês.

A história é bem simples: O professor da UnB Luis Felipe Miguel apresentou a ementa do curso "O golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil".

Nada além de um panfleto para sustentar uma narrativa fracassada que não mereceria qualquer publicidade não fosse a decisão de Mendoncinha de querer censurar o tal curso passando por cima da liberdade de cátedra, da autonomia universitária, da ética, da noção, enfim, toda censura é burra e Mendoncinha é, obviamente, burro.

O Moysés Pinto Neto escreveu um texto excelente em que destaco um trecho pertinente:

"A esquerda, assim, torna-se uma vítima de um processo gigantesco de retomada do poder pelas elites políticas.

Desde então, tudo que acontece é reflexo do golpe. O parlamentar Jean Willys, do PSOL, por exemplo, recentemente declarou que a exclusão da cientista política Mara Telles do Big Brother Brasil é consequência do golpe parlamentar de 2016, uma vez que, quando o público o elegera como vencedor, estivera em jogo a politização do programa televisivo e o reconhecimento dos direitos LGBT. Agora, com o retrocesso golpista, viveríamos o processo inverso: Telles, tentando o mesmo movimento, teria sido excluída em face do ambiente implementado pelo golpe de Estado já no primeiro 'paredão'.

Esse tipo de retórica é constante nas redes sociais: tudo que acontece de negativo no Brasil desde 2016 é reflexo do golpe. Há uma espécie de descontinuidade absoluta entre os governos do PT e o governo atual fundada na mistificação do período anterior".

E vejam que o Moysés defende a tese do golpe. Da qual discordo, obviamente. No entanto vejam que sua defesa da tese do golpe não implica no embarque à uma narrativa vitimista e conspiratória, o que é absolutamente louvável.

No entanto atitudes como as de Mendoncinha apenas reforçam esse vitimismo dos necrogovernistas. Não que a esquerda não tenha sua veia censora, não tente impedir que filmes sejam mostrados, não tente impedir debates... Faz muitas vezes o mesmo (mas com uma suposta superioridade moral) que MBLs da vida.

Censura não tem ideologia, é uma ideologia em si que todo mundo adota quando acha que é necessário. Mas no caso aqui temos um idiota como ministro dando argumentos para uma narrativa que a todo momento tenta romper a bolha em que se encontra — e pode ter conseguido.

Mendoncinha é um cretino que com seu pequeno poder tenta censurar aquilo que não lhe agrada. Não tem nada a ver com "golpe", fosse assim a mera reclamação sobre a censura seria censurada, criminalizada.

Eu considero a proposta de curso uma vergonha. Um panfleto sem noção, anti-acadêmico, que pela ementa não abre espaço para qualquer contraditório. Não propõe um debate, tão somente joga uma certeza (onde ela não existe) e cria limites pra qualquer conversa — muito ao gosto da esquerda tem já muito tempo, que se limita a fazer debates entre quem concorda ou cujas discordâncias seguem no próprio campo da esquerda.

Ainda assim, defendo o direito de o curso existir, do professor dar sua aula e espero que ele possa ir além da ementa e promover um efetivo debate e não apenas confirme aquilo que já pensa. E que, se possível, estudantes críticos se matriculem e sejam capazes de rebater argumentos, propondo textos alternativos e posições diferentes.

O lamentável, e aqui retomo novamente o texto do Moysés, é que a esquerda se reduziu a essa coisa patética de achar que faz "resistência ao golpe" ao promover cursos risíveis na universidade, ao fazer postagens raivosas nas redes sociais, ao gritar que não vão aceitar isso ou aquilo sem, no entanto, terem qualquer intenção real de ir além do grito, da rede, da lacração inócua dentro da bolha, do cosplay bastardo de resistência.

"O grande fracasso da 'resistência ao golpe' causou uma ferida traumática na esquerda brasileira."

Acho que teria mais seriedade fazer uma disciplina sobre o impeachment de 2016. E nela discutir as interpretações sobre o evento e fazer as perguntas que importam: Foi impeachment? Foi golpe? Porque não houve uma grande massa popular defendendo o mandato da presidente eleita? No fim a mera crença em um golpe torna-se a base pra posteriores justificativas de tudo com base nessa narrativa — tudo que dá errado é culpa do golpe, tudo que dá certo é a gloriosa resistência a ele. É inescapável.

E vale lembrar que aqueles que não concordam com a narrativa do golpe são tratados como inimigos e fascistas indistintos dos tais "golpistas" (com os quais Lula está pronto a se aliar Brasil afora, aliás, mas aí pode). E está OK limitar os espaços destes, mesmo censurá-los, seja ativamente, seja por tentar ignorá-los e negar-lhes espaço. Não há santos no Brasil pós-impeachment (ou pós-golpe), cada lado quer puxar a sardinha pra si e pintar o outro como criminoso, traidor, ressentido e, enfim, excluir o outro.

Um amigo fez um comentário certeiro:

"Toda hipótese de trabalho tem que ser severamente testada, ou falseada, como diria Karl Popper. É o beabá do trabalho intelectual. O que torna tudo tóxico é a interdição do debate. É a impossibilidade de você fazer isso, sob pena de ser considerado 'golpista'. É você ser julgado moralmente por não concordar com uma hipótese de leitura acerca do quadro político brasileiro. É o paradigma Márcia Tiburi: 'não sento à mesa com golpistas'. É uma grande merda na qual nos metemos e sabe-se lá quando sairemos desse atoleiro".

Quanto ao Mendoncinha, desejo a ele o mesmo que a Temer e todo seu governo: A lata do lixo da história, o ostracismo, o fim da carreira — e pra muitos a cadeia. No fim é o que desejo também para Lula, Dilma e toda a turma que passou 13 anos no poder.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.