OPINIÃO
23/07/2015 12:17 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

O Brasil NÃO precisa de um novo junho de 2013

O Brasil sequer foi capaz de entender junho de 2013. Não é hora de uma nova dose - agora artificial - em meio à uma escalada conservadora que não se deve só ao PT, mas também em significativa parte à frouxidão de lideranças de esquerda (não só do PSOL) diante dos inimigos (PSDB, PT e todos seus aliados).

midianinja/Flickr
20/06/20133º Ato pelo Passe Livre na capital federal reuniu mais de 100mil manifestantes. Partindo da concentração no Museu da República às 18h, seguindo e ocupando o gramado do Congresso Nacional com forte barreira policial. (CC BY-SA) Midia NINJA

Algumas lideranças do PSOL, como Luciana Genro, me surpreendem pela capacidade de falar inúmeras besteiras em textos relativamente curtos.

Em recente artigo, Genro deixa claro que, para ela, o Brasil precisa de um novo Junho de 2013. O problema é que não precisa. Não mesmo. Explico.

O PSOL não apenas não soube aproveitar os protestos de junho, como muitos de seus quadros inclusive ficaram senão do lado da repressão aberta, ao menos ficaram contra as manifestações de rua que não seguiam seus desígnios e nem sua cartilha de "bom protesto". Junho foi um momento de revolta social em que diversos grupos confluíram, de anarquistas a membros de partidos de esquerda, passando por milhares (milhões?) de pessoas com interesses difusos de todos os espectros políticos (ainda que majoritariamente de esquerda nos principais momentos).

Junho não poderia ser apropriado unicamente por um partido ou movimento, era e ainda é maior que todos eles, mas sem dúvida parte de suas agendas poderiam ter sido melhor encampadas pelo PSOL (dentre outros). Mas o partido preferiu esperar sentado, achando que os anseios de junho simplesmente se refletiriam no partido, que as ruas confluiriam para a "única" opção de esquerda.

No fim mesmo setores do PSOL ao invés de encarnarem Junho se bandearam para o ridículo e danoso "apoio crítico" ao PT. Apoio por vezes, na verdade, acrítico, gratuito.

O Brasil sequer foi capaz de entender junho de 2013, muitos movimentos e partidos se mostram absolutamente ultrapassados ou mesmo obsoletos diante da magnitude de junho, então não é hora de uma nova dose - agora artificial - em meio à uma escalada conservadora que não se deve só ao PT, mas também em significativa parte à frouxidão de lideranças de esquerda (não só do PSOL) diante dos inimigos (PSDB, PT e todos seus aliados).

Não cabe (como não coube) às ruas apresentarem um "programa claro de mudanças estruturais na política e na economia", isto é função de partidos, de movimentos organizados, de instituições e organizações sociais. As ruas se manifestam, as organizações populares canalizam a revolta e as pautas das manifestações e transformam em ações políticas e agendas. O PSOL foi incapaz. Foi incapaz e agora espera que, com um aviso prévio, um "novo junho" possa ser instrumentalizado pelo partido.

Genro, no entanto, vai além do erro de não entender Junho e esperar uma nova onda pensando ser capaz de se apropriar dela ou mesmo de cooptá-la (sem dúvida não entendeu nada), mas repete a falida agenda petista de "constituinte".

As manobras de Eduardo Cunha e as modificações recentes que tem PIORADO o sistema político deixam claro que a Reforma Política que por tanto tempo o PT gestou - e manipulou -não passa de um golpe contra a população. Não satisfeita em ver a péssima reforma saída de um congresso abertamente conservador, Genro novamente se mostra incapaz de enxergar diante de seu nariz e acredita que virá um milagre e do nada teremos uma eleição limpa, livre da influência de empresários e empresas (e políticos) corruptos e que magicamente a esquerda (ou seja, ela e seu partido) terão a maioria para fazer a revolução pelas vias democráticas.

Não é apenas um erro, é inconsequência e auto-ilusão.

Precisamos, sem dúvida, de uma democracia real, mas se formos esperar que Genro junto a (algumas) lideranças do PSOL que criminalizaram junho, que deram "apoio crítico" ao governo mais reacionário e maléfico da história recente do País, e que simplesmente não conseguem apresentar um programa realista de mudanças, então estaremos perdidos.

Não se trata, porém, de denunciar ou mesmo repudiar aqui o PSOL, mas tão somente apontar este processo de auto-ilusão inconsequente que parece ter se apoderado de alguns quadros do partido. Adotar o mote falido do PT de Constituinte é dar mais um passo no caminho do suicídio e ser incapaz de abrir os olhos e buscar entender efetivamente Junho ao invés de simplesmente tentar artificialmente repetir um fenômeno único para cooptá-lo.

O que o Brasil precisa é ser capaz não apenas de compreender junho enquanto um fenômeno único, com pautas difusas, mas tirar lições (também da repressão) e repensar seu caminho. À esquerda cabe superar sua imensa fragmentação, sua dependência (e mesmo lealdade) frente ao PT, seus personalismos e sectarismos e buscar efetivamente ouvir as ruas e seus anseios para, por fim ser capaz de pôr em prática pautas que nos levarão a mudanças.

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