OPINIÃO
29/03/2016 16:21 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Indignação seletiva, proximidade afetiva e o resto do mundo

Reuters

Acontece um atentado na Síria, no Iraque, no Paquistão ou na Nigéria logo vem muitos para reclamar que "o mundo" não tem a mesma solidariedade com estes lugares do que com, por exemplo Paris ou Bélgica.


(A tragédia se desdobrando e mais mortos em #Lahore. Será que o mundo vai se importar, haverá um #jesuislahore?)

Se tem uma coisa que há muito me irrita é essa mania de, depois de um atentado terrorista, as pessoas começarem a exigir solidariedade.

De certa forma, não há como responder a isso. O problema me parece ser, na verdade, o que se entende por "mundo".

Em primeiro lugar, de que "mundo" estamos falando?

Porque se acontece um atentado na Europa, é lógico esperar que haja maior comoção entre europeus do que estes teriam se o atentado fosse na Nigéria, distante deles. A proximidade é um ponto a ser levado em conta. Quanto mais próximo, mais se sente.

E por "proximidade", não falo só da geografia, mas também proximidade afetiva. E aí chegamos no segundo ponto: o que é mais "próximo" afetivamente para os Europeus? Bruxelas ou Lahore? E mais que só para os europeus, e para as Américas (Latina, do norte, etc)?

As Américas foram colônias europeias, tem população imensa de origem europeia. Faz sentido que sintam mais pelo que acontece na Europa do que pelo que acontece no Iraque.

Mas aí entra um terceiro ponto, que é a mídia. Qual a origem da DW, da BBC, da CNN? São grupos de mídia euroamericanos. É óbvio que tais redes, dada sua origem, darão destaque ao que acontece no seu entorno imediato e dão preferência ao que afeta aqueles mais próximos de sua origem, de seu centro.

O problema é quando uma rede como a Al Jazeera, Árabe, faz o mesmo. E aí entramos no quarto ponto, que é o eurocentrismo que muitos tem. Mas aí já não é, em si, problema do europeu e sua solidariedade. O eurocentrismo é, por um lado, uma imposição midiática e propagandística e por outro é um fenômeno (bem) recebido sem grandes resistências em muitos lugares.

Às vezes parece que quando reclamam que "o mundo" não se importa com algo, este "mundo" se refere aos EUA e Europa. O que, em si, é um grande problema.

Se a visão dos que reclamam do eurocentrismo (ou americanocentrismo) é, em si, eurocêntrica (ou americanocêntrica), fica complicado o diálogo. É preciso, por um lado, reconhecer o papel dos Estados Unidos e da Europa na propagação da imagem do "mundo ocidental", mas é preciso também lembrar da responsabilidade do resto do mundo ao consumir este "mundo ocidental".

Não podemos desprezar a indústria (entretenimento, música, etc) que exporta o que se produz na Europa/EUA para o resto do mundo, criando uma noção de proximidade que, no entanto, não é de mão dupla. O fato de um Chinês, por exemplo, dizer #JeSuisBruxelles, mas um Alemão não dizer #JeSuisLahore é emblemático. Não é, necessariamente, preconceito, racismo ou coisa que o valha, mas reflexo da mídia, da indústria (e mais).

Quinto ponto, retomando a proximidade afetiva, é que Paris está no imaginário mundial, é um destino turístico, está em filmes, poesia e literatura consumida (pelo ocidente e não só) aos milhões. Lahore não, o norte da Nigéria não. Ao menos não para o "mundo" euroamericano.

Podemos, sem dúvida, reconhecer que nos fechamos ao que vem da Ásia e da África, que or lá se faz música, cinema e etc e que nós, na Europa ou nas Américas não damos valor. Mal conhecemos Bollywood, pra muitos a África é um país com uma mesma cultura, etc... O fato é que isso contribui para restringir nossa fronteira afetiva, mas não muda o quadro geral, o imediato.

Sexto e último ponto, sente-se menos por países em que atentados são uma constante do que por onde é uma novidade. Sim, é triste, mas a frequência da violência acaba sendo inversamente proporcional à dor que os rincões mais distantes do epicentro irão sentir. O cotidiano tira ou diminui o choque. É como se um atentado em um país que já está mergulhado em crise ou que é vizinho de tais países fosse algo comum, ordinário. Notem, isto não é uma defesa, é uma leitura da situação.

Não podemos, como elenquei no quarto ponto, desprezar o eurocentrismo puro, o racismo, o preconceito, mas também não é possível tomar esta como a base de toda a indignação "seletiva". Há, sem dúvida, aqueles de mente colonizada, há os que simplesmente desprezam o que consideram diferente, mesmo os que dizem "bem feito" quando acontece atentado, por exemplo, em um país islâmico. É impossível negar. Mas também não podemos tomar estes pelo todo.

Eu não tenho problema nenhum em dizer que senti muito mais pelos atentados em Bruxelas - cidade que conheço, que adoro, onde tenho amigos e perto de onde tenho família - do que por um atentado no Paquistão. Isso não significa que eu não me importe com o Paquistão ou que eu não sinta nada, mas tão somente explica minha proximidade (geográfica e afetiva) com Bruxelas.

Aliás, eu não coloco "#JeSuis" no perfil em momento algum, e tento compartilhar o que posso sobre o máximo de casos possíveis.

Agora, se pessoas na Índia, Paquistão e vizinhos sentem mais pelo que acontece na Europa que em suas terras ou na de seus vizinhos aí o problema não é do Europeu, é dos próprios paquistaneses, indianos, árabes e etc. E não estou afirmando que isto seja uma verdade, mas apenas aponto que se falamos em "o mundo não se importa", bem, é preciso especificar que "mundo" é esse. Porque não há nada de errado na parte do mundo cuja origem é europeia e cujo imaginário é europeu (ou euroamericano) sentir mais dor pelo que acontece dentro de sua fronteira afetiva imediata.

Por fim, quem mais tem que se importar com o que acontece no Paquistão, na Síria, no Iraque, na Nigéria são os próprios habitantes desses países que tem que agir para mudar a situação. Não, isso não exclui de forma alguma a responsabilidade dos Estados Unidos e da Europa nos processos de radicalização e desestabilização do Oriente Médio e do mundo afora, mas os principais interessados são os locais.

Isso não significa que o europeu, o americano e etc não sintam pelo que acontece fora de sua parte do mundo (o que não quer dizer que não existam os que simplesmente não se importem), mas explica porque essa dor é menor, porque a demonstração de solidariedade é diferente e porque não faz sentido exigir a mesma solidariedade que, por exemplo, com Bruxelas ou Paris.

O que é preciso exigir da Europa e dos Estados Unidos não é bem solidariedade, mas sim, responsabilidade. Entender que há uma carga de responsabilidade do "ocidente" sobre suas ações no resto do mundo e que estas ações levam, por exemplo, ao terrorismo que vitima em geral mais muçulmanos que qualquer outro grupo. Exigir responsabilidade é inclusive uma obrigação ética e moral de todos.

Aproximar esses diferentes mundos é o primeiro passo para que a solidariedade venha naturalmente, mas sempre existirá a dor (mais) seletiva. Nada do que eu escrevi, porém, é uma justificativa ou legitimação da não-dor, mas simplesmente uma tentativa de explicar porque algumas manifestações de dor são maiores ou menores do que outras. Nem sempre as razões são simples, puro preconceito ou ausência de alguma dor.

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