OPINIÃO
11/10/2018 14:19 -03 | Atualizado Há 4 horas

Família Bolsonaro, uma história de intolerância, processos e mediocridade

Violentos, intolerantes e em geral medíocres, Jair Bolsonaro e os filhos estão envolvidos em uma série de denúncias e casos no mínimo nebulosos.

Jair Bolsonaro, líder no 1º turno, ao lado do filho, Flávio Bolsonaro, senador eleito pelo Rio de Janeiro.
ASSOCIATED PRESS
Jair Bolsonaro, líder no 1º turno, ao lado do filho, Flávio Bolsonaro, senador eleito pelo Rio de Janeiro.

O deputado Jair Bolsonaro é visto por muitos como um deputado honesto, mesmo incorruptível, e nem o fato de ter recebido dinheiro supostamente ilegal da JBS em 2014, por meio de seu então partido, o PP, parece afetar esta crença.

Em entrevista ao historiador Marco Antonio Villa no Jornal da Manhã, programa da rádio Jovem Pan, Bolsonaro afirmou não ter aceito cerca de R$ 300 mil reais oferecidos a ele (R$ 200 mil em sua conta de campanha e mais R$ 100 mil na de seu filho) pela JBS Friboi. Há tempos Bolsonaro usa esse ato como propaganda em suas redes sociais e discursos e como exemplo máximo de sua honestidade.

Tudo isso passaria batido, não fosse o fato de seu então partido ter depositado em sua conta o mesmo valor, recusado por ele e devolvido ao caixa do partido, por meio do fundo partidário.

Em outras palavras, o partido teria recebido a propina, mas ele não a recebeu diretamente. Nas palavras do próprio deputado, "o partido recebeu propina sim, mas qual partido não recebe propina?".

Ser de um partido — corrupto — aparentemente são ossos do ofício. Receber deste mesmo partido dinheiro também faz parte, mas receber da Friboi já seria demais. O fato de, num cálculo básico, o partido ter ficado no anedótico "zero a zero" não parece dizer muita coisa para o deputado.

As noções de ética e honestidade do deputado não amoleceram apenas agora; há outros casos. Em 2012 Bolsonaro foi flagrado pescando ilegalmente em Angra dos Reis e enfrentava um processo por crime ambiental, podendo até mesmo tornar-se inelegível caso condenado.

O parlamentar foi autuado pelo Ibama em janeiro de 2012 por prática de pesca amadora na Estação Ecológica de Tamoios, onde a pesca deste tipo é proibida. Sua resposta foi agir como vítima e perseguido, uma constante em sua carreira. AoGlobo, Bolsonaro declarou: "Se for condenado em primeira instância por crime ambiental, fico inelegível. Isso é tudo que meus inimigos querem".

Em março de 2016 a primeira turma do STF rejeitou a denúncia feita pela Procuradoria Geral da República contra o deputado por unanimidade, com o ministro Dias Toffoli rejeitando a denúncia e os ministros Teori Zavaski e Gilmar Mendes aplicando o princípio da insignificância para também rejeitá-la. A ministra Carmen Lúcia considerou a atitude do deputado deplorável, mas concordou em não puni-lo por falta de tipicidade.

Vale lembrar que Bolsonaro, possuindo um recorde medíocre no que tange à aprovação de projetos de leis, tendo aprovado dois míseros projetos em 27 anos como parlamentar, tentou legislar em causa própria após esse episódio.

Um de seus projetos aprovados faz parte de seu figurino vitimista: trata-se da regulação do voto impresso nas urnas eletrônicas que, segundo Bolsonaro, seriam inseguras. Uma das agendas mais importantes para alguns setores da extrema direita é a segurança das urnas. Ao não verem seus candidatos eleitos (ainda que existam fortes contraexemplos, como o próprio Bolsonaro e seus filhos) culpam supostas fraudes. Em 2018 não foi diferente, mesmo tendo formado a segunda maior bancada da Câmara dos Deputados, Bolsonaro questionou a lisura do processo por não ter sido eleito em primeiro turno.

Não apenas Bolsonaro adota uma postura constante de vítima: "não aprovam meus projetos", "não me deixam pescar" etc, como seus apoiadores reforçam o discurso pelas redes sociais.

O papel de vítima caiu bem na figura do Bolsonaro, por mais incongruente que possa parecer um ex-capitão do Exército e deputado federal saudoso da ditadura interpretar tal personagem... Ainda mais quando é o primeiro a denunciar o que considera "coitadismo" dos movimentos sociais.

A imagem de honestidade e de ser uma eterna vítima são parte fundamental da personagem criado por Bolsonaro e vendido por centenas de páginas e grupos espalhados pela internet que contam com milhões de seguidores e admiradores. Seu militarismo, sua defesa da repressão contra minorias e da violência contra vulneráveis completam seu figurino. O discurso anticomunista também faz parte da personagem, ainda que em 2002 ele tenha defendido o então comunista Aldo Rebelo para a pasta da Defesa, algo que seus apoiadores parecem esquecer.

Isso não quer dizer que não haja eleitores moderados, mesmo que pertençam às minorias, que embarcam em seu discurso, muitos movidos por um sentimento de "basta", de que é preciso algo novo, mesmo radical na política.

Machismo, racismo e homofobia de Bolsonaro

Quando falamos em radicalismo, não se trata de figura de linguagem. Bolsonaro segue com um processo tramitando na primeira turma do STF por acusação de incitação ao estupro e viu uma acusação de racismo ser rejeitada pela mesma turma.

Em dezembro de 2014 o deputado discursou no plenário da Câmara afirmando que só não estupraria a também deputada e defensora dos direitos humanos, Maria do Rosário (PT-RS), porque ela não merecia, após Rosário discursar em defesa das vítimas da ditadura. No dia seguinte ele fez a mesma declaração para o jornal Zero Hora. Para o deputado, Maria do Rosário não merecia ser estuprada por ser "muito feia".

Não foi, aliás, a primeira vez que Bolsonaro atacou a deputada; em 2003 ele já a havia chamado de "vagabunda" em uma discussão captada pela TV nos corredores da Câmara enquanto a empurrava e a ameaçava.

Como se não bastasse, em 2015 o ministro Luis Roberto Barroso, do STF, arquivou um inquérito aberto em 2013 contra o deputado em 2011 com base em uma entrevista ao programa CQC no qual afirmou que não discutiria "promiscuidade" com a cantora Preta Gil após esta questionar como ele reagiria se seu filho namorasse uma mulher negra. No mesmo caso ele foi condenado a pagar R$ 150 mil por declarações homofóbicas ao Fundo de Defesa dos Direitos Difusos pela juíza Luciana Santos Teixeira, da 6ª Vara Cível do Fórum de Madureira, em 2015.

Em 2011 Bolsonaro conseguiu escapar da cassação no Conselho de Ética da Câmara por supostas declarações racistas e homofóbicas proferidas contra Preta Gil e a comunidade LGBT no mesmo programa.

Ao contrário do que se esperaria, as declarações de Bolsonaro lhe fizeram ganha mais fama: de machão e de opositor ferrenho dos direitos humanos, que para seus apoiadores equivale a "defender bandidos". Falar o que pensa é, mesmo nestas situações, algo atraente para seu eleitorado.

Seu passado militar também está envolto em histórias pouco gloriosas e elogiosas. Em história já bem conhecida, mas que ressurgiu recentemente com mais provas, o então capitão do Exército tinha um plano para explodir bombas-relógio em unidades militares do Rio de Janeiro em 1987 no que ele chamou de "Operação Beco sem Saída". Além disso ele teria cometido atos de indisciplina e deslealdade para com seus superiores e foi condenado a 15 dias de prisão por um tribunal militar por um artigo à revista Veja, em 1986, em que reclama dos salários dos militares

A família de Jair Bolsonaro

Ao contrário do que tenta vender, a carreira de Bolsonaro, tanto militar quanto política, é envolta em denúncias e mediocridade. Seus filhos, aliás, não são diferentes.

O vereador Carlos Bolsonaro foi alvo de ação do Ministério Público em 2011 por ter escrito, no Twitter, a frase "CHuUuuupa Viadada. Bolsonaro absolvido (...)" em relação à absolvição de seu pai no Conselho de Ética por declarações homofóbicas. Em 2015 o vereador foi absolvido em segunda instância.

Seu outro filho, o deputado Eduardo Bolsonaro, foi alvo de polêmica ao desfilar em protesto pelo impeachment da então presidente Dilma Rousseff, em 2014, com uma arma na cintura. Em maio de 2017 dois processos contra ele foram abertos na Câmara dos Deputados, um por cuspir no deputado Jean Wyllys durante a votação do impeachment e outra por editar de forma fraudulenta com o objetivo de prejudicar Wyllys. Em 7 de junho o Conselho de Ética decidiu não seguir adiante com o processo de cassação.

O quarto Bolsonaro na política, o também deputado Flávio Bolsonaro foi condenado em 2014 pela Vara da Infância, da Adolescência e do Idoso por exibir a foto de um menor acusado de estupro. O deputado recorreu da condenação em primeira instância. Como se não bastasse, em 2016 o deputado ameaçou com processo todos que compartilhassem fotos suas ao lado do coronel da Polícia Militar Pedro Chavarry Duarte, acusado de estuprar uma menina de 2 anos, entre outros crimes ligados à pedofilia.

Por fim, Flavio Bolsonaro ainda se envolveu em um malcontado tiroteio na Barra da Tijuca, bairro do Rio de Janeiro em uma suposta tentativa de assalto.

A família Bolsonaro é considerada modelo pela extrema direita. Violentos, intolerantes e em geral medíocres, estão envolvidos em uma série de denúncias e casos no mínimo nebulosos. Tiroteios, ameaças de processo, tentativa de legislar em caso próprio, homofobia e racismo são apenas parte do que paira sobre eles que, sem dúvida, agem como um só, mas em múltiplas frentes e em 2 estados, Rio de Janeiro e São Paulo.

Contam com imenso apoio de membros das polícias e Forças Armadas e vêm ganhando o apoio de lideranças fundamentalistas evangélicas, como do pastor Marco Feliciano — que chegou a almejar ser vice de Bolsonaro nas eleições de 2018 — ou o pastor Marcos Pereira, condenado por estuprar uma fiel (e suspeito de outros estupros) em 2013. Em 2015 Bolsonaro e Feliciano foram juntos visitá-lo em sua casa, já que o pastor havia sido beneficiado por um habeas corpus em 2014.

Concorrendo à Presidência em um segundo turno e garantindo excelentes votações para seus filhos, Bolsonaro é uma estrela em ascensão e um lembrete ao Brasil dos perigos de líderes intolerantes que pensam estar acima da Justiça enxergando o mundo por uma lente própria.

*O HuffPost Brasil dedica as semanas que antecedem as eleições para se debruçar sobre temas fundamentais para o próximo governante e Parlamento eleitos. Convidamos vozes relevantes da sociedade civil e especialistas para pensar juntos os desafios do Brasil. Este artigo aborda as dificuldades da saúde pública no País.