OPINIÃO
18/11/2015 13:08 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

Ataques em Paris: Entender o inimigo para poder combatê-lo

Pregar o ódio contra muçulmanos nestes termos -- "são todos terroristas" -- apenas os faz se fechar e, sem dúvida, alimenta o ISIS.

Foto tirada por Christiaan Triebert, sob licença Creative Commons

Um dos traços mais significativos das redes sociais é sua capacidade de espalhar ignorância e estupidez e de ser um canal para o ódio fluir. São vários os acadêmicos e intelectuais que já apontaram essa característica e, depois dos atentados de Paris, a coisa parece ter ultrapassado os níveis usuais.

O que se via pelas redes, para além dos justos e sentidos lamentos, era um apanhado de tweets (fiquemos no Twitter) que pregavam mais ódio. De um lado alguns apoiando o ISIS, outros atacando o até o #BlackLivesMatter como se tivesse reação com os terroristas, passando por quem defendesse até a expulsão dos muçulmanos da Europa e a destruição impiedosa de todos os países islâmicos.

Na fatídica noite eu cheguei a bloquear centenas de fanáticos e doentes, uma ampla maioria deles (pelo que pude verificar) contando com fotos de Bolsonaro em seus perfis, com mensagens contra o "comunismo" e ligando essa ideologia ao PT, adoradores de Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo, enfim, aquela turma da extrema-direita brasileira que tem saído desavergonhadamente do armário como se não houvesse amanhã.

De ameaças de agressão física a mensagens raivosas de que todos os muçulmanos deveriam ser expulsos da Europa ou mortos. E por quê?

Academia

A função do acadêmico é a de tentar entender e minimamente explicar fenômenos. Os atentados do ISIS não são apenas atos de loucos e doentes psicopatas (o que não quer dizer que os indivíduos não o sejam), mas frutos de uma dinâmica bem anterior e muito mais complexa.

Terrorismo visa a criar obviamente terror, pânico. Gerar medo e, acima de tudo, gerar uma reação contrária que minimamente o justifique (ao menos para uma certa audiência).

Responder o ódio com ódio é exatamente o que esperam os terroristas que, dessa forma, se encontram (mais) legitimados entre os seus e podem mergulhar no discurso vitimista que tanto atrai apoio para sua causa mesmo dentro da Europa.

A função do acadêmico é, então, a de apontar para esse(s) fato(s) e buscar analisar a História por trás a fim de, então, poder desvelar ferramentas para combater o fanatismo, o ódio e ultimamente o próprio grupo terrorista.

Muito se falava do Hamas ou do Hezbollah quando estes levavam adianta ataques suicidas: loucos, terroristas sanguinários, psicopatas, irascíveis!

Pois bem, ambos os grupos eram atores racionais, com uma agenda (gostemos ou não dela) racional, objetiva, que usavam os atentados suicidas com intenções claras. Se fôssemos apenas considerá-los atores não-racionais, descartando-os por completo, a situação no Oriente Médio estaria potencialmente pior (não está boa, mas sempre pode piorar).

Entender isso não equivale a justificar, a aplaudir, a não lamentar, mas sim a enxergar como e por onde se abrem portas para um diálogo (com quem é capaz de dialogar) ou para um combate (para quem é incapaz de dialogar, e aqui incluo o ISIS).

Nunca propus um diálogo com o ISIS, um grupo que considero além de qualquer contemporização. Não apenas um bando de loucos, mas um grupo com tal nivel de fanatismo e poder de penetração e atração que um combate franco torna-se necessário.

Um confronto que deve vir junto a um combate também da ideologia, da pregação fanatizada, por exemplo, na Europa (que garantiu milhares de combatentes ao grupo), do combate a grupos que pregam a imposição da Sharia na Bélgica e na França, por exemplo.

Mas é preciso saber como fazê-lo para que todas as ações contrárias a ele não acabem se voltando contra a Europa (e além). É preciso, enfim, combater as causas que levaram ao surgimento do grupo e aquilo que motiva sua existência. E, apenas estudando o grupo, os antecedentes, a região e a religião, isso é possível.

ISIS e terrorismo islâmico

O ISIS não nasce do nada, mas de um complexo processo tanto interno quanto externo ao mundo islâmico. Vem - para tentarmos abreviar a história - da falência do Pan Arabismo, passando pela resistência às intervenções dos EUA e da URSS no Oriente Médio (Talibã e Al Qaeda nascem exatamente dessa dinâmica no Afeganistão com apoio da Arábia Saudita), passando pelo conflito palestino e o processo de construção de Israel e pelas intervenções deste país no Líbano, até a imposição e deposição de ditadores e títeres em países da região pelas ditas potências ocidentais.

O Oriente Médio é, há muito tempo, "playground do Ocidente", um campo de experimentos para ditadores, torturadores e criminosos de todo tipo, impostos como forma de garantir que o petróleo flua.

EUA, Europa, Israel e Arábia Saudita se batem e se aliam pelo controle da região, por vezes competindo com potências regionais como o Irã e com grupos resistentes (gostemos deles ou não).

A Al Qaeda pode traçar suas origens ao apoio dado pelos EUA aos Mujaheedin afegães e à Arábia Saudita. O ISIS vem da Al Qaeda e, especula-se, recebeu apoio israelense originalmente no combate a Assad, presidente sírio e inimigo de Israel.

Ou seja, é um tema deveras complexo que resultou no êxodo/fuga da milhões de pessoas (em especial hoje de Sírios) criando uma crise mundial de refugiados e migrantes. Não é simples, não há fatos isolados e a História não pode ser analisada e entendida isoladamente.

Nada disso, porém, visa a JUSTIFICAR as ações do ISIS. Mas o que buscamos é ENTENDER a fim de ter ferramentas para combater.

E é bom lembrar que o ISIS é diferente de outros grupos. Como escreveu o jornalista José Antônio Lima no Twitter, "ISIS é obcecado pelo fim do mundo, que viria em breve, em batalha entre jihadistas e 'infiéis'. Após a vitória islâmica, viria o apocalipse", o que torna ainda mais difícil de combater não só o grupo, mas sua ideologia e uma resposta apenas armada - vamos esmagar o ISIS - não enfraquece sua ideologia, pelo contrário.

Questões internas e externas

Sim, o ISIS é resultado de uma confluência de sentimentos de derrota e humilhação impostos aos países árabes (e persas, afegãos etc) por potências estrangeiras, um sentimento que pode ser traçado mesmo desde a reconquista espanhola e do encolhimento do Império Otomano, passando pela deposição de Mossadegh no Irã e a imposição do xá Reza Pahlevi, a independência (sic) de Israel etc.

Mas também é fruto de uma falência da própria sociedade civil árabe, da conivência de elites locais com os exploradores de fora. Uma dinâmica, como comentei, tanto externa quanto interna. E de nada adianta apenas pregar um ódio contrário sem buscar remediar ao menos parte dos problemas.

Combater elites cleptocráticas, combater intervenções criminosas com motivos falsos, combater a imposição de regimes e modelos ditatoriais, fortalecer a sociedade civil árabe por todo o Oriente Médio, empoderar mulheres, buscar novas fontes de energia que diminuam a dependência do petróleo etc, etc, etc.

Mas, para os ignorantes de plantão, basta jogar (mais) bombas no Oriente Médio e, quem sabe, matar muitos árabes por todo o mundo (lembrando que o Afeganistão, nascedouro de Al Qaeda e Talibã sequer árabe é, mas na "luta contra o terror", entra no pacote).

O mero ato de ANALISAR essa história é, para esses ignorantes, justificar o terror. Árabes, persas, afegãos, paquistaneses, enfim, muçulmanos, são todos a mesma coisa, são todos "inimigos", todos "terroristas".

E falando em História, citar Cruzadas e Inquisição como paradigma do controle e da opressão cristã/católica parece distante, mas faz sentido, porque mostra que religião sempre pode ser instrumentalizada pro ódio e pro terror, independentemnete de qual seja ou da época em que se encontra.

Salvas as proporções, o que faz a Bancada Evangélica senão pregar ódio contra quem não se adapta ao que eles vêem como "correto"? O fenômeno (ao menos inicial) é muito próximo. É intolerância, é ódio contra o outro e a alteridade, contra o que desvia de sua visão estreita do que deveria ser correto e do que deveria ser o mundo.

Isso não significa, porém, que todo fiel deva ser criminalizado, que a religião em si deva ser apontada como "responsável". Isso é muito fácil e muito errado.

Conclusão

Não são "os muçulmanos" os culpados pelo ISIS "e ponto", ainda que o ISIS seja muçulmano. O que não quer dizer que a sociedade civil muçulmana não tenha sua parcela de responsabilidade, assim como as elites muçulmanas que financiam certos grupos terroristas, ou ainda comunidades de imigrantes que se recusam a adotar os costumes das nações hospedeiras e integrar-se.

Porém, pregar o ódio contra muçulmanos nestes termos -- "são todos terroristas" -- apenas os faz se fechar e, sem dúvida, alimenta o ISIS. Assim como a sociedade europeia e "ocidental" tem sua responsabilidade, seja no fortalecimento da extrema-direita, seja no discurso de ódio ou na incapacidade de conviver dentro dos marcos do multiculturalismo e mantendo silêncio em relação aos ataques ocidentais no Oriente Médio. A responsabilidade é, enfim, compartilhada por todos.

O jornalista Igor Natusch acertou em cheio quando disse que "o nós-contra-eles não é Ocidente contra muçulmanos. É Estado de Direito contra os que querem destroçá-lo. E essa batalha tem vários fronts".

O islamismo é hoje apropriado por fanáticos como o cristianismo foi (e ainda é em menor intensidade, vejam por exemplo o Lord's Resistance Army na África e as pregações de ódio de muitos pastores pelo mundo). Os budistas, tidos como pacíficos, com uma religião de paz, cometem genocídio contra a minoria muçulmana Rohingya em Myanmar, assim como o fundamentalismo Hindu causa vítimas na Índia.

Podemos falar que o problema está nas religiões, que o problema está na fanatização de seus fiéis, está no fundamentalismo e nas interpretações ditas equivocadas, mas não que "os muçulmanos" são os culpados enquanto coletivo.

Não existem soluções fáceis para o problema do terrorismo, especialmente em um momento de crise (econômica, de refugiados, migratória, do terror), mas precisamos ter calma para buscá-las, ter uma visão ampla da História e do momento e não tomar atitudes que apenas fortaleçam o inimigo.

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