OPINIÃO
13/01/2016 16:47 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

A brutalidade da PM não deixou o ato do MPL nem sequer começar

Mais uma vez milhares de pessoas saíram às ruas para participar do protesto contra o aumento das tarifas de ônibus convocado pelo MPL (Movimento Passe Livre) na cidade de São Paulo.

Desta vez, a repressão veio antes mesmo da marcha começar.

Enquanto se concentravam na Avenida Paulista, centenas de policiais cercavam a região numa tática conhecida como "Caldeirão de Hamburgo" impedindo a entrada e a saída de manifestantes na Praça do Ciclista, onde se concentravam, e intimidavam com prisões e ameaças:

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Policiais fortemente armados cercam manifestação. Foto: professor Reginaldo Nasser

Enquanto representantes do MPL negociavam o caminho que a marcha seguiria com o comando da PM - eles queriam seguir para o bairro de Pinheiros, a PM queria que fossem para o centro - a violência policial começou com uma sucessão inacreditável de bombas de gás e balas de borracha. Os manifestantes, encurralados, tentavam fugir e dezenas acabaram feridos.

O Centro de Mídia Independente (CMI) gravou vídeo mostrando o momento em que começa a agressão policial:

O Coletivo Território Livre também gravou um vídeo do início da violência, com a fumaça das bombas tomando a avenida, assim como o Coletivo Passa Palavra postou vídeo do CMI mostrando a repressão. O perfil no Facebook da central sindical CST-Conlutas gravou o início da repressão com manifestantes encurralados. A usuária do Facebook Helena Wolfenson postou um vídeo que mostra, do alto, as cenas de violência. O perfil do Twitter do AnonymousBrasil postou um vídeo do início das agressões por outro ângulo:

Dentre os feridos encontra-se um manifestante que levou tiro de bala de borracha no olho - mas não corre o risco de perder a visão -, um rapaz que teve fratura exposta na mão, vários casos de traumatismo craniano, e apura-se se uma mulher grávida teria sofrido um aborto ao ser chutada no chão por um policial - informações dão conta de que teria fraturado ao menos a costela.

Até mesmo um catador de latas que apenas passava pela região foi atingido por uma bala de borracha na perna.

A jornalista da revista Vice Brasil, Débora Lopes, gravou um vídeo mostrando um manifestante, o metroviário Heber Veloso, com o rosto ensanguentado por uma ferida na cabeça sendo atendido após ser ferido pela polícia:

Muitas pessoas foram feridas por balas de borracha,agredidas pela PM e bombas foram jogadas contra a entrada do metrô Consolação, para desespero de quem saía do trabalho ou apenas buscava se refugiar e escapar das bombas da polícia.

Dezenas de pessoas foram presas e antes do início da violência, jornalistas foram afastados dos manifestantes para que a polícia pudesse reprimir sem preocupação de agredi-los. Testemunhas informaram que qualquer pequeno grupo era agredido e que a polícia não discriminava entre crianças, idosos ou manifestantes. Uma usuária do Facebook comentou que um PM entrou de moto dentro do prédio do irmão dela atrás de manifestantes em fuga.

O jornalista Francisco Toledo foi ferido pela polícia e escreveu:

Estilhaço de bomba na minha perna. Polícia atirou sem pensar em nada hoje. To no Hospital das Clinicas.

Publicado por Francisco Toledo em Terça, 12 de janeiro de 2016


E completou em outra postagem:

Aos amigos e todos que mandaram mensagens, obrigado demais pelo apoio. Infelizmente terei que ficar um mês fora de tudo....

Publicado por Francisco Toledo em Terça, 12 de janeiro de 2016


O midialivrista do CMI foi atingido por estilhaço de bomba jogado pela Polícia Militar enquanto gravava a violência.

O ativista Sérgio Pecci, que teve de fugir das bombas da polícia, escreveu:

O cercadinho da PM é quase a realização do desejo de tortura e fuzilamento dos 111 do Carandiru. Primeiro, eles chegam com viaturas da ROTA e PMs com armas letais, para intimidar. Depois, conforme vão chegando mais manifestantes, eles cercam a multidão e impedem a entrada e a saída de pessoas. Por fim, começam a jogar bombas no meio do cercadinho e tentam proibir as pessoas de saírem do presídio imaginário. Quem é mesmo que impede o ir e vir?

O professor Pablo Ortellado compilou uma lista de feridos:

Emboscada covarde. Foi assim que o governo do Estado de São Paulo preparou a ação policial para o segundo ato contra o...

Publicado por Pablo Ortellado em Terça, 12 de janeiro de 2016


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Foto da repressão via Movimento Passe Livre no Facebook


Na GloboNews, os jornalistas estavam nas ruas e se revezaram na cobertura mas, em vários momentos, buscaram espécies de 'desculpas' para a repressão, justificando bombas e balas diante de pessoas desarmadas em fuga, chamando de "invasão" quando um grupo de manifestantes entrou na área comum de um prédio para fugir da violência ou mesmo justificando agressões contra manifestantes acuados que jogavam pedras para tentar sair de onde estavam sem ferimentos graves.

Em dado momento bombas foram jogadas contra a própria equipe da Globonews que não tremeu: A PM estava correta.

Protestar é um direito. É preciso deixar isto claro antes de mais nada. E a polícia impediu sistematicamente centenas de manifestantes de exercer este direito. Impediu até mesmo a chegada de muitos, ao isolar a região da paulista e fechar ruas para... evitar que os manifestantes fechassem as ruas.

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Mashup via Movimento Pró-Corrupção

A cada nova tentativa de se agrupar após mais uma onda de repressão, mais repressão. E mais defesa entusiasmada dos jornalistas que cobriam a manifestação para a TV Globo. Permitir que o protesto seguisse (ou começasse) era inaceitável.

Na ausência de vidraças quebradas - pese o secretário de segurança de São Paulo ter dito em coletiva que "vândalos" teriam atacado o Instituto Cervantes, quando na verdade estes buscavam se refugiar na instituição das bombas da polícia - a criminalização seguiu pela escolha cuidadosa de palavras.

No vídeo abaixo é possível ver o momento em que começa a repressão. Enquanto rolam negociações entre o MPL e o comandante da operação, as bombas estouram sem aviso - e sem motivo:

Pode descer a Consolação em toda paz from Gustavo Basso on Vimeo.

A repressão em 2013 foi gigantesca, mas este ano se não está maior, veio mais cedo.

A quantidade de feridos é imensa, mesmo inacreditável.

O ódio da PM parece muito maior do que nos anos anteriores e só podemos pensar no que são capazes de fazer quando não há câmeras gravando diante da enormidade da brutalidade mostrada diante de câmeras e mesmo streamings ao vivo.

A grande mídia faz uma cuidadosa escolha de palavras para, sempre que a oportunidade vier, incriminar este tipo de manifestação.

Palavras como "tumulto", "vândalos" e "confronto" são comuns, assim como claras justificativas para a repressão que parecem até ensaiadas com a secretaria de segurança pública.

Nem a dita mídia progressista, ligada ao PT, escapa.

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Em Junho de 2013 a mídia apoiou ativamente a repressão até abruptamente mudar de posição após jornalistas se tornarem alvos principais da PM. Jornalistas forma atingidos por balas de borracha nos olhos, foram perseguidos, recebidos com bomba e brutalidade e a situação se tornou insustentável.

A história promete se repetir - e está se repetindo.

Nas redes sociais petistas se unem a fascistas defensores da PM em seu grito contra as manifestações que atingem tanto Alckmin quanto Haddad. E atingir Haddad, para a turma do PT, em todo seu fanatismo partidário, é intolerável.

Nas ruas, estudantes - muitos dos quais estavam ocupando suas escolas dias antes -, mulheres, crianças, idosos, ativistas calejados, de primeira viagem... Todos alvos para a sede de sangue da PM comandada por Alckmin e aplaudida por Haddad - e seus apoiadores.

Como em 2013, a mídia em peso e uma imensa quantidade de governistas de toda espécie estavam (e estão) unidas na defesa da repressão. Este ano jornalistas e fotógrafos de mídia independente já começaram a apanhar, logo o raio de ação da PM se ampliará.

O MPL não irá recuar, novos protestos serão convocados. A pergunta que fica é: a PM irá chegar ao ponto de matar manifestantes para impedir que exerçam seus direitos?

O MPL já convocou uma nova manifestação para a próxima quinta-feira (14) com duas concentrações simultâneas: no Teatro Municipal e no Largo da Batata.

A repressão não apenas fere manifestantes e imprensa, mas também fere a própria democracia.

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