OPINIÃO
22/07/2015 12:36 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Como a neutralidade da Cruz Vermelha foi posta à prova em Gaza

Sua atuação no mais recente conflito entre Israel e as forças do movimento Hamas tem manchado sua imagem perante a população palestina e, por consequência, perante o mundo árabe e islâmico.

SAID KHATIB via Getty Images
A man walks near an International Committee of the Red Cross (ICRC) vehicle as the comittee assists Palestinian farmers to repair their fields that were devastated during the Israeli army summer's military offensive on the Gaza Strip on October 22, 2014, in Khan Yunis' Khuzaa neighbourhood in the southern Gaza Strip near the Israeli border. AFP PHOTO/ SAID KHATIB (Photo credit should read SAID KHATIB/AFP/Getty Images)

O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) e o Crescente Vermelho - atuando em cooperação com a comunidade internacional e os Estados nacionais - são organizações internacionais neutras, independentes e imparciais, que trabalham para a proteção e assistência de vítimas de conflitos armados e outras situações de violência. O CICV atuou de forma consistente em inúmeros conflitos pelo Oriente Médio e em outras nações islâmicas. No entanto, acusações referentes à sua atuação no mais recente conflito na Faixa de Gaza, entre Israel e as forças do movimento Hamas, ocorrido entre o início de julho e o final de agosto de 2014, tem manchado sua imagem perante a população palestina e, por consequência, perante o mundo árabe e islâmico como um todo.

Em 20 de julho, como parte da "fase 2" do que foi chamada a "Operação Limite Protetor", que incluiu o começo de uma incursão terrestre do exército israelense pelo território, a vizinhança de Shoujaiyeh foi invadida, e teve início uma confrontação brutal entre as forças do exército e os militantes do Hamas, na qual a população civil se viu presa no fogo cruzado. Testemunhas desta população acusaram efetivos do CICV de abandonar a região quando do começo do ataque da artilharia - a qual foi descrita pela versão em língua inglesa do site Al‐Akhbar como um "massacre, que tirou a vida de mais de 70 mártires" - e de não responder às ligações de residentes pedindo ajuda para evacuar o local. O representante da organização teria dito que "Isto não é nossa responsabilidade, e o exército israelense nos impediu de adentrar a área, pois a declarou uma zona militar". Apenas após os bombardeios teriam os veículos entrado no bairro, para recolher corpos e sobreviventes debaixo dos escombros.

Conforme notícias da suposta irresponsabilidade de uma organização creditada mundialmente pela sua assistência às vítimas de conflitos armados mundo afora se espalhavam, através de testemunhos de residentes e gravações de ligações ignoradas, a população palestina começou a manifestar seu repúdio ao que viam como uma ajuda insuficiente e ineficaz na resolução de longo prazo de seus problemas humanitários. No dia 25, três ambulâncias da organização foram alvo de hostilidade de palestinos quando deixavam Shoujaiyeh, carregando 11 sobreviventes feridos da batalha - locais jogaram paus e pedras contra os veículos, gritando "Vocês são inúteis. Vocês deveriam nos proteger". Fora de Gaza, os escritórios do CICV em Genebra e Jerusalém inicialmente não atendiam ligações de palestinos que cobravam maior atuação, e apenas pela manhã seguinte as prometidas ambulâncias do Crescente Vermelho Palestino entraram no bairro. O porta‐voz do CICV para a Faixa de Gaza, Nasser al‐Najjar, afirmou que "a artilharia israelense nos impediu de completar nossa tarefa".

Jacques de Maio, chefe das operações do CICV em Israel e nos Territórios Ocupados, defendeu as ações do organismo, ao mesmo tempo em que admitiu sua falta de poder em situações de guerra: "organizações humanitárias são um esparadrapo, não a solução"; o fim do conflito israelense‐palestino, no longo prazo, é uma questão política. Apesar de se solidarizar e compreender a revolta dos habitantes, De Maio explica que o escritório foi sobrecarregado, e era impossível atender a todas as ligações, enviar ambulâncias para todos os feridos, evacuar todos aqueles em perigo, e que mesmo assim dúzias de feridos foram trazidas para os hospitais durante a trégua de pouco mais de uma hora acordada entre a organização e Israel. O autor argumenta ainda que não se deve confundir a neutralidade do CICV com conivência com violações do Direito Internacional Humanitário - em nenhum momento a organização deixou de condenar atos como o bombardeio de hospitais e escolas, os foguetes do Hamas direcionados a Israel, e de defender o direito das vítimas ao tratamento médico e ao acesso à água. O público deve entender os limites da atuação do CICV.

Fica difícil sustentar se, ao final, em vista das evidências, no caso de Gaza, o CICV faltou ou não para com seus princípios de humanidade ("O Movimento [...] se esforça, nos âmbitos nacional e internacional, para evitar e reduzir o sofrimento humano em todas as circunstâncias") e imparcialidade ("nenhuma distinção de nacionalidade, raça, religião, condição social nem orientação política") enquanto uma política deliberada, ou se não houve de fato, como diz de Maio, o maior esforço cabível por parte de voluntários dentro das condições existentes; a matéria de Orouba Othman para o Al‐Akhbar não consegue provar de fato nenhuma forma de "claro viés israelense".

No entanto, o princípio da neutralidade ("o Movimento abstém‐se de tomar parte em hostilidades ou em controvérsias, em nenhum momento") fica prejudicado se tomarmos a palavra de Hans Haug em seu artigo para a edição 315 do International Review of the Red Cross, de 1996: a neutralidade não é um valor em si próprio; ela serve como a melhor forma de garantir a confiança de todos os governos que podem lhe abrir ou fechar o acesso às populações que pretende ajudar, e de garantir a confiança de todas estas populações - o que se verifica, no caso de Gaza, é que, mesmo que a neutralidade tenha sido mantida, a confiança da população local foi prejudicada, talvez permanentemente.

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  • Gavriel
    Gavriel
    Judith Hertog
    Nome: Gavriel Vinegrad
    Idade: 32
    Onde vive: Tel Aviv

    Quais as suas esperanças e expectativas para o futuro desse país?
    "Há dezenove anos, quando eu tinha 13 anos, os meus pais me trouxeram aqui, para essa praça, para aquela demonstração pela paz [onde o Primeiro Ministro Yitzhak Rabin foi assassinado]. Eu lembro de quando estávamos voltando para casa, depois que Rabin havia levado o tiro. Os meus pais ficam dizendo, 'Acabou. Acabou.' Foi aí que tudo acabou. Foi aí que mataram o processo de paz.

    Eu não quero morar aqui mais. Gostaria de morar na Austrália. Viajei para lá e passei dois anos, depois que saí do exército. Eu amo a qualidade de vida que existe lá, o ambiente, as pessoas...

    Acho que vai acontecer o seguinte: com o passar do tempo é uma guerra total entre o fundamentalismo de cada lado; uma guerra abrangente, com milhões de refugiados. O fundamentalismo é tão popular dos dois lados porque pessoas oprimidas, pessoas pobres, pessoas que não tem nada a perder, escolhem o fundamentalismo.

    Hoje mesmo os meus pais disseram que não vêem mais futuro aqui. Eu desafio os jovens israelenses a estudar uma profissão e deixar o país, levando a profissão para outro lugar. Digo a mesma coisa aos jovens palestinos... Saiam daqui!"
  • Amalia
    Amalia
    Judith Hertog
    Nome: Amalia Avinoam
    Idade: 60
    Onde vive:Parque de Caravanas Neve Yam (Originalmente: Nisanit, Faixa de Gaza)

    Quais as suas esperanças e expectativas para o futuro desse país?
    "Obviamente, eu gostaria de ter paz e segurança, mas o que eu realmente quero para esse país é que ele seja apenas para os judeus. Assim que decidirmos que esse é um país judeu -- só para os judeus -- resolvemos o problema. Sei que isso parece terrível -- o meu filho é de esquerda e se eu dissesse isso para ele, ele não entenderia -- mas o que eu acredito. Eu sei que os palestinos estão numa situação deplorável, mas pode ser solucionada separadamente. A resposta é a transferência. Daremos a eles o próprio país deles, os ajudaremos a mudar para lá; podemos até dar algum dinheiro para começar de novo. Eu admito... em algum lugar da minha mente eu sinto que o mundo pertence a todos. Mas eu também acho que devido à história dos judeus, com todos os problemas que tivemos, e por causa do ódio que muitos têm contra o nosso povo, precisamos ter um país só para nós. Hoje em dia, todo mundo tem um discurso tão bonito e quer incluir e proteger os direitos de todo mundo. Mas se sempre recebermos os outros de braços abertos, acabamos prejudicando a nós mesmos.

    Não acho que esse conflito irá acabar. Nunca. Nós não vamos chegar num acordo. É um fato: nós evacuamos Gaza e demos tudo para eles. Mas agora estão atirando foguetes contra nós dos assentamentos que abandonamos!

    Na próxima semana, estou organizando uma viagem para Jerusalém para um encontro com ex-colegas de escola. Eu comecei a receber telefonemas de pessoas que estão preocupadas e querem cancelar por causa dos protestos. Eu digo para eles: 'Esse é o nosso país!' Se eles têm medo de conflito, devem ir morar nos Estados Unidos".
  • Amit
    Amit
    Judith Hertog
    Nome: Amit Shalit
    Idade: 20
    Onde vive: Ashdod

    Quais as suas esperanças e expectativas para o futuro desse país?
    "Eu espero que haja paz, apesar de não achar que isso vai acontecer. Pelo menos, eu espero que ganhemos, como sempre. Como na segunda guerra mundial, por exemplo. No final, nós ganhamos. Independente do que acontecia, nós sobrevivemos à situação. Hitler matou bastante judeus, mas muitos sobreviveram e seguiram em frente. Ele podia ter matado todos nós. É preciso olhar pelo lado positivo. Ele poderia ter exterminado todos nós. Se você me perguntar quem eu espero que seja o Primeiro Ministro, eu diria [Avigdor] Lieberman porque ele é simplesmente mais inteligente que os outros. É tipo ... os fatos mostram que ele toma decisões mais inteligentes do que os outros políticos".
  • Moran
    Moran
    Judith Hertog
    Nome: Moran Tamam
    Idade: 25
    Onde vive: Netanya

    Quais as suas esperanças e expectativas para o futuro desse país?
    "Eu espero que haja paz e que não tenhamos que ter mais medo. A guerra começou o dia depois que o meu filho nasceu. Foi a primeira vez que ouvi os alarmes de foguetes de verdade. Os ataques de Gaza nunca tinham chegado tão ao norte. Os foguetes atingiram a rodovia 4, bem próximo de onde morávamos. Eu nunca havia estado em uma guerra de verdade antes. Eu tinha acabo de dar à luz e nunca tinha sentido tanto medo. Quem sabe foi por conta dos hormônios... eu chorei muito.

    Eu também gostaria que fosse mais fácil e menos caro viver nesse país. Eu gostaria de estudar mais e avançar na vida. Eu espero que as coisas fiquem bem, mas eu duvido que fiquem. Todo ano há uma outra guerra. Os meus irmãos estão servindo no exército agora. Dá medo. Eu espero que haja paz antes que Eliah faça 18 anos".
  • Baruch
    Baruch
    Judith Hertog
    Nome: Baruch Keter
    Idade: 60
    Onde vive: Ramat Gan

    Quais as suas esperanças e expectativas para o futuro desse país?
    "Eu espero que tenhamos paz com os árabes e como todo o mundo. Não espero que isso aconteça logo, mas é preciso acreditar. É como esperar pelo Messias. Você precisa continuar a acreditar que as coisas vão ficar bem, ainda que demore a acontecer. A princípio, não acreditávamos que conseguiríamos a paz com o Egito e veja só, acabou acontecendo!

    Mas eu não espero muito dessas eleições. O roteiro é sempre o mesmo: um sai e outro entra. É a mesma coisa desde que eu era criança: Eles pegam o dinheiro, eles dão dinheiro, eles ajudam um pouco, tiram um pouco da gente... Nada muda.

    Mas eu vou votar mesmo assim, para um partido religioso, é claro!"
  • Dalia
    Dalia
    Judith Hertog
    Nome: Dalia Dadon
    Idade: 62
    Onde vive: Jaffa

    Quais as suas esperanças e expectativas para o futuro desse país?
    "Me deixa muito chateada ver o que está acontecendo em Israel. Sou Sionista convicta, mas ultimamente, as coisas não são como eram antes. Estou preocupada com o país. Não existe ninguém com pulso suficiente para liderar o país. E -- eu amo o nosso exército -- mas eu tenho três netos no exército e me preocupo com eles. Sabe... tudo está muito nebuloso. Vou te contar uma coisa muito triste: Se hoje eu estivesse pensando em ter filhos, pensaria duas vezes. A situação simplesmente não é segura.

    Se eu estivesse vivendo em um outro país e tivesse que considerar imigrar para Israel, eu não sei se o faria. Me sinto muito confusa. Nós temos muitos inimigos ao nosso redor e o anti-semitismo está em toda parte! Não dá pra lutar contra o mundo inteiro!

    As eleições não resolverão nada, porque os políticos só querem saber dos seus próprios interesses! Eles não se importam comigo! As coisas não são como eram no passado. Eu me lembro do [Primeiro Ministro Menachem] Begin. Ele se importava com o país! Ele dirigia um carrinho velho e vivia igual a qualquer um de nós.

    Eu confio em Bibi [Netanyahu], ou melhor, eu me convenço a confiar nele, porque não tenho mais ninguém em quem confiar. Mas Bibi viaja de avião particular e ele nem bebe a mesma água que eu."
  • Ludmilla
    Ludmilla
    Judith Hertog
    Nome: Ludmilla Koffman
    Idade: 82
    Onde vive: Jaffa

    Quais as suas esperanças e expectativas para o futuro desse país?
    "Os árabes não prestam. Há bombardeios o tempo todo. As coisas não vão bem. Não haverá paz".
  • Ofer
    Ofer
    Judith Hertog
    Nome: Ofer Mousai
    Idade: 37
    Onde vive: Tel Aviv

    Quais as suas esperanças e expectativas para o futuro desse país?
    "Eu espero que o nível da educação aumente aqui, porque essa sociedade está ficando cada vez mais burra. É triste. Você sente isso nas atitudes das pessoas. As pessoas estão com as mentes mais fechadas, aceitam menos umas as outras. Existem pessoas que são descendentes de iraquianos dizendo coisas do tipo "Morte aos árabes!" sem ao menos perceber que elas mesmas são árabes de origem judaica!

    Bibi [Netanyahu] é um charlatão -- mas é um charlatão muito inteligente -- e ele administra o país inteiro para o seu próprio lucro. Eu vou votar por qualquer um que possa livrar o parlamento da corrupção. É a corrupção que está causando a guerra e aumentando ainda mais a disparidade econômica. Os ricos estão ficando cada vez mais ricos e o resto da população está ficando mais pobre. Igual aos EUA.

    Mas eu não me alinho nem com a direita nem com a esquerda. A única coisa que eu sei que é constante nessa vida é a morte. Exceto isso, tudo é subjetivo e pode mudar. Eu não concordo com as opiniões da mídia estrangeira sobre Israel. Quando eu leio o jornal The New York Times, é como se as pessoas estivessem olhando para você através do filtro de suas próprias crenças. É a mesma coisa que acontece com as resoluções das Nações Unidas. Eles denunciam a Israel, mas não à Coreia do Norte, China, Turquia, Irã ou Iraque... Como isso é possível? Será que só nós somos os vilões?

    Apesar de tudo, é bom viver aqui. Não consigo imaginar viver em qualquer outro lugar. Eu gosto de visitar a Holanda e os EUA, mas ficaria louco se morasse lá. Mas eu já pedi um passaporte holandês. Vai que...

    Tenho medo de duas coisas: acho difícil abrir mão da ideia de Israel como um país judeu. Talvez isso se deva ao fato da minha doutrinação sobre o Holocausto e como os muçulmanos não gostam de nós. Posso estar errado, mas eu não gostaria que houvesse uma maioria muçulmana aqui. Isso me dá medo.

    O meu segundo temor é que esse país se torne em uma sociedade judia fundamentalista. É basicamente o mesmo temor. Eu tenho medo de todo tipo de fundamentalismo religioso, seja ele judeu ou muçulmano, pois as pessoas que têm um pensamento inflexível não te olham nos olhos; não é possível argumentar razoavelmente com elas. Elas acreditam em uma verdade superior que as aliena da humanidade".
  • Gilad
    Gilad
    Judith Hertog
    Nome: Gilad Bonis-Mahluf
    Idade: 17
    Onde vive: Herzliya

    Quais as suas esperanças e expectativas para o futuro desse país?
    "Eu gostaria muito de -- eu não quero dizer apagar Gaza, porque nem todos lá são culpados -- mas existem muitas pessoas lá que só querem nos machucar. Não sou a favor da coexistência. Mas se tivermos que conviver com eles [palestinos], não podemos aceitar que eles explodam ônibus ou matem família judias. Eu sou a favor de matar todo terrorista. Se a decisão fosse minha, mandaria matar todos. Eles só querem nos machucar. Não devemos libertar os terroristas. E se nós os colocarmos na prisão, não deveriam ter condições tão confortáveis. Não é justo. Se eu quiser estudar, preciso pagar milhares de shekels, mas os terroristas presos podem estudar gratuitamente. Alguns árabes são presos de propósito, só para conseguir estudar de graça e receber dinheiro. Quando eu falo coexistência, quero dizer que eles podem viver aqui conosco. Eu não quero dar territórios para eles. Se eles já recebem territórios mesmo assim, só terão mais lugares de onde nos atacar, como estão fazendo em Gaza. Aí, estaremos rodeados de inimigos. Espero que não chegue a esse ponto".
  • Nada
    Nada
    Judith Hertog
    Nome: Nada Mansoor
    Idade: 33
    Onde vive: Tira

    Quais as suas esperanças e expectativas para o futuro desse país?
    "Eu espero que haja paz. Estou com uma sensação a respeito disso ... estou sentindo que vai acontecer. Mas em relação a mim: Em vinte anos ainda estarei aqui, da mesma maneira, sem mudança. Não há nada que eu possa fazer sobre isso. A vida é difícil. Nós trabalhamos, trabalhamos, trabalhamos: para os nossos filhos, para sobreviver, para ter o que comer... mas fazer algo realmente importante na vida é difícil".