OPINIÃO
08/03/2016 19:21 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

A voz das mulheres ecoando no tempo

A voz das mulheres continua a reunir forças em 2016, ecoando os episódios do tenebroso ano de 2015, um grande marco para o empoderamento que ainda pode ser visto/ouvido/sentido em todo mundo, seja através dos movimentos de igualdade de direitos entre gêneros, pelo fim do machismo ou, ainda, no combate à violência contra mulher.

A voz das mulheres continua a reunir forças em 2016, ecoando os episódios do tenebroso ano de 2015, um grande marco para o empoderamento que ainda pode ser visto/ouvido/sentido em todo mundo, seja através dos movimentos de igualdade de direitos entre gêneros, pelo fim do machismo ou, ainda, no combate à violência contra mulher.

Se 1968 foi emblemático para o movimento feminista no mundo, o ano de 2015 será lembrado certamente como relevante pela força e coragem das mulheres - cis e trans (pois é importante ampliar a reflexão sobre gênero) - que protagonizaram momentos importantes na luta pelo direito ao respeito e a dignidade. Talvez, os três episódios mais evidentes, que ainda perduram, tenham sido:

O movimento #MulheresContraCunha que despertou o protesto de mulheres do Brasil contra à aprovação do projeto de lei nº 5.069/2013, de autoria de Eduardo Cunha pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, que torna crime induzir, instigar ou auxiliar uma grávida a abortar, e exige exame de corpo de delito para a mulher interromper uma gestação no caso do estupro, entre outras medidas;

A campanha #PrimeiroAssédio, que reuniu depoimentos de mulheres vítimas de comentários de pedófilos nas redes sociais - tendo ignição nos comentários pedófilos sobre a menina do reality show de culinária - dando visibilidade aos primeiros assédios sofridos por mulheres, ainda crianças, e também ao longo da vida.

A prova "feminista" do ENEM trazendo uma questão com a famosa citação Simone de Beauvoir "Não se nasce mulher, torna-se mulher" ("O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980). E também pela prova de redação, que teve como tema "a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira".

Revolvo essas memórias tendo como inspiração o dia 08 de março - data escolhida como registro histórico como marco do Dia Internacional da Mulher, que passou a ser comemorada em todo mundo como lembrança do movimento das mulheres operárias de Nova York, em 1857, revoltas contra as precárias condições de trabalho, reprimidas de forma violenta, sendo muitas delas mortas carbonizadas dentro de uma fábrica.

E sigo viajando através do tempo, por provocação da professora Anélia Petriani (UFRJ) que estuda as vozes femininas na literatura brasileira - estreando esse espaço no HuffPost Brasil, a convite de Diego Iraheta -, relembrando a atuação de duas raras poetas que admiro a vida e a obra, e que foram importantes para o fortalecimento da mulher:

Soror Juan Inês de La Cruz (1651-1695), freira, poeta e dramaturga nova-espanhola (mexicano-espanhola) do século XXVII, "a Décima Musa", "a Fênix Mexicana", considerada a primeira feminista das Américas, que teve a biografia crítica escrita pelo poeta Octávio Paz. E Adalgisa Nery (1905-1980), poeta, escritora, jornalista e política brasileira (pouquíssimo lembrada na história da literatura), cuja obra estudo no mestrado e organizo para republicação pela José Olympio Editora, após 35 anos fora das prateleiras.

O que elas têm comum, além do fato de serem mulheres e poetas, e ocuparem lugares considerados tradicionalmente masculinos? O amor pela literatura, o mais evidente, e a coragem de dar voz a mulher de forma firme, abrindo assim espaços que lhes eram negados.

As trajetórias de duas poetas cruzaram-se no tempo e no espaço, pois Adalgisa Nery viajou ao México, em 1952, ao lado do então marido Lourival Fontes (1899-1967) como embaixadora do Brasil, realizou conferências sobre Juana Inês de la Cruz, sendo então a primeira mulher a receber a Orden del águla Azteca pelas palestras sobre a poeta religiosa. Na ocasião conviveu ainda com artistas como Frida Kalho (que lhe dedica uma página do diário), além de Diego Rivera e José Orozco que a retrataram em telas belíssimas.

Adalgisa se casou cedo, aos 16 anos, com o pintor Ismael Nery, um dos participantes do modernismo brasileiro, convivendo em sua casa com escritores, intelectuais e artistas como Antônio Bento, Jorge de Lima, Manuel Bandeira, Mario Pedrosa, Murilo Mendes e Pedro Nava - todos homens.

A relação doentia com o primeiro marido, que a oprimia e humilhava na frente de todos, sufocou sua expressão. A estreia literária de Adalgisa ocorreu somente em 1937 com o livro Poemas, três anos após a morte de Ismael, por incentivo de Murilo Mendes.

A partir de então, ela foi em busca de sua voz e escreveu diversos livros de prosa e poesia, marcados pelo "essencialismo", pensamento filosófico formulado por Ismael.

Após a separação do casamento de treze anos com o segundo marido, Lourival Fontes, chefe do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) da Ditadura Vargas, Adalgisa estreou no jornalismo fazendo uma polêmica carreira no jornal Última Hora de Samuel Wainer, com a lendária coluna "Retrato sem retoque", abordando em tom nacionalista, assuntos de política e economia, e atacando desafetos políticos.

O desempenho jornalístico a projetou na política, sendo então deputada por três mandatos pela Guanabara, até ser cassada em 1969 pelo regime militar - o que a motivou a abandonar tudo: a família, os amigos e a literatura. Adalgisa Nery foi cassada por ter provocado a ira de homens carrascos, como relembra a biógrafa Ana Arruda Callado, ao publicar em 1963, no Última Hora, um texto intitulado "Cisne Negro" - em alusão ao hino popular da marinha do Brasil "Cisne Branco" -, onde contava que haviam sido jogada fora toneladas e tinta compradas para pintar os navios de guerra, com alegação que não tinham o tom exato.

Contemporânea das escritoras Dinah Silveira de Queiroz (1911-1982), Cecilia Meirelles (1901-1964), Rachel de Queiroz (1910-2003) e Clarice Lispector (1920-1977), Adalgisa Nery deixou, embora não se considerasse feminista, um legado para as mulheres que hoje ocupam lugar de destaque na literatura e, principalmente, no campo jornalístico e político - a excelente tese de doutorado "Adalgisa Nery e as questões políticas de seu tempo", de Isabela Candeloro Campoi, comprova essa afirmação. Apesar do pioneirismo de Adalgisa, contraditoriamente, percebe-se em seu texto resquícios de uma cultura machista.

Séculos antes, Soror Juana Inés de La Cruz, já havia feito muito mais, e acabou tendo um fim muito parecido com o de Adalgisa Nery.

Com mais de vinte anos como freira e poeta, fazendo de sua obra uma constante defesa da mulher - como no poema "Homens Néscios": "homens néscios que acusam a mulher sem razão" - é obrigada a abdicar de sua produção intelectual após se posicionar abertamente sobre sua condição de mulher na Carta Atenagórica e na Respuesta a Sir Philotea de la Cruz (pseudônimo do Bispo de Puebla, Fernandez Santa Cruz).

Nos textos epistolares a poeta faz crítica ao Sermão Mandato, do Padre jesuíta Antônio Vieira, e relata, além do amor aos estudos, a escolha a vida religiosa.

A poeta, para justificar seu interesse em estudar temas profanos, busca sua defesa em mulheres sábias, desde a antiguidade clássica até sua época, apoiada na teologia, na filosofia, com ecos feministas. No primeiro momento recebeu a indiferença, depois foi perseguida pela Igreja, viveu "infinitos infernos", tendo então que confessar seu "erro" e assinar abjuração, abdicando de todos os seus estudos e instrumentos musicais e científicos para o arcebispo.

São muitos avanços, apesar de lentos, conquistados em vidas de muitas mulheres corajosas como Juana, Adalgisa e tantas outras anônimas que lutam por direitos ao nosso lado. Quanto tempo ainda será necessário para que as mulheres recebam o respeito que merecem? Afinal, como escreveu com audácia Soror Juana Inês de la Cruz em um trecho de Respuesta: "Nem a tolice é exclusividade das mulheres nem a inteligência é privilégio dos homens".

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