OPINIÃO
28/07/2018 16:44 -03 | Atualizado 28/07/2018 20:04 -03

As vozes da ciência: por quem elas falam?

"É difícil ganharmos espaço se não enxergamos que podemos fazer parte dele, e este é um primeiro passo para alterar a disparidade de gênero na ciência."

Justin Lewis

Um problema alarmante dentro da ciência brasileira é a falta de incentivo a ela, juntamente com a invisibilidade e inacessibilidade de muitos às informações referentes a pesquisas e pesquisadores, seja por conta de uma educação falha ou por falta de uma cultura científica em nosso cenário. Algo crucial e de extrema relevância para nosso engajamento em determinado assunto é a representatividade.

Garantir acesso a nomes de pesquisadores de forma frequente e bem informada é uma forma de representatividade ao mundo científico. Neste texto, vamos apresentar algumas vozes da ciência, com o objetivo inicial de trazer à tona alguns nomes que não são tão recorrentes em nosso cotidiano. Assim, apresentamos três grandes nomes de cientistas incríveis e seus projetos extraordinários que contribuíram muito com o avanço científico:

Turchi

Vamos começar falando de representantes do Brasil? Turchi esteve entre os nomes dos 10 cientistas mais importantes do mundo de 2016, pela Nature. Coordenou a pesquisa responsável pela descoberta da associação do vírus da zika com a microcefalia.

Barbosa

Olha aí o Brasil sendo bem representado novamente! Barbosa desenvolveu catalisadores (substâncias que aceleram e melhoram o rendimento das reações) a partir da mistura dos metais paladium e platina. O trabalho desenvolvido por tal cientista mestre em engenharia química se encontra dentro da área de nanotecnologia!

Curie

Ganhou dois prêmios Nobel com pesquisas pioneiras no ramo da radioatividade, como a teoria da radioatividade e a descoberta de dois elementos: o polônio e o rádio. Durante a Primeira Guerra Mundial fundou os primeiros centros militares no campo da radioatividade.

O conhecimento acerca de nomes de cientistas não é trivial. Afinal, não são todas as pessoas que tiveram acesso a essas informações. No entanto, eu gostaria de chamar atenção para uma coisa: percebeu que não usei pronomes que revelassem o gênero dos cientistas descritos? Durante as descrições, você projetou em seus pensamentos um homem ou uma mulher acompanhando os sobrenomes citados?

E se contarmos que os sobrenomes pertencem todos a mulheres, você ficaria surpreendido por ter imaginado o contrário? Os sobrenomes científicos realmente acompanham nomes femininos: Celina Turchi, Viviane dos Santos Barbosa e Marie Curie.

Caso você tenha imaginado cientistas homens, não se reprima! Apesar de ser alarmante e triste que isso aconteça, é natural pensar desta forma diante do acentuado cenário da diferença de gênero no âmbito científico, colocando de forma inconsciente em nossa mente que este é um espaço masculino. Estamos aqui para falar justamente sobre isso! Vamos abordar um pouco sobre alguns dos muitos tópicos que ressaltam e agravam essa diferença que levam a excluir as vozes das mulheres nesse espaço, além de mostrarmos o quão forte é a luta delas para conquistá-lo apesar da exclusão.

Tópico 1

Vamos voltar um pouco ao passado: o ano é 1927. Foi um ano simbólico para a ciência e marcado por um retrato. Neste retrato encontramos os participantes da quinta edição da Conferência de Solvay, em Bruxelas, na Bélgica. Todos sentados, representando grandes marcos da física e da química: eles eram a linha de frente de uma revolução científica que estava a todo vapor no século XX. No total, tínhamos 29 participantes, e apenas uma era mulher: Marie Curie. Esta única mulher também havia sido a única pessoa do sexo feminino a receber um prêmio Nobel até aquele momento. Um fato muito notável, mas que ninguém conta, é que após 90 anos que se seguiram desde 1927, tivemos mais 320 premiações, e somente 16 destes 320 foram concedidos a mulheres.

Reprodução
Retrato da Conferência de Solvay. Marie Curie é a única mulher entre os participantes.Da esquerda para a direita: é a terceira, sentada na primeira fileira.

A importância destes fatos apresentados está na palavra representatividade, já citada no começo desse texto. Uma das primeiras barreiras encontradas por mulheres para se sentirem parte da área científica é não se verem representadas nela. Apesar de ocuparmos cada vez mais os espaços dentro da ciência, é difícil que nos coloquem notoriedade.

As medidas educacionais, sejam dentro ou fora do ambiente escolar, precisam despertar na criança, independente de seu gênero, a curiosidade e o poder de questionamento, fazendo-a perceber que o conhecimento adquirido sobre seu próprio universo é uma atividade enriquecedora para o ser humano.

Um caso simples sobre a falta de representatividade é sobre Rosalind Franklin. As suas pesquisas foram fundamentais para o entendimento da estrutura do DNA. Apesar de suas imagens pioneiras para que a estrutura fosse descoberta, quem leva o título pela genialidade são os cientistas Watson e Crick. Muitos livros didáticos não chegam nem a citar Rosalind.

Outro reflexo da difícil procura por representatividade está na mais importante sociedade científica do nosso país, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que ao longo de seus 69 anos teve apenas 3 mulheres na presidência do total de 17.

Outros dados importantes são trazidos pelo estudo "Gender Representation on Journal Editorial Boards in the Mathematical Sciences", publicado em 2016. Os pesquisadores estudaram a representação de gênero nos editoriais de 435 periódicos em ciências matemáticas. As informações que coletaram contemplam, infelizmente, o cenário discrepante entre os gêneros: as mulheres compreendem aproximadamente 15% dos cargos no corpo docente em cursos de doutorado em departamentos de ciências matemáticas nos Estados Unidos.

E não vamos parar por aqui! Já ouviu falar da renomada e importantíssima revista Science? Um estudo avaliou as publicações desta revista, e a avaliação revelou que, para os artigos publicados, 17% dos 862 autores "mais experientes" e 25% dos 471 autores "iniciantes" eram mulheres. Os homens são maioria e a diferença, novamente, é gritante.

A importância de analisar esses dados sobre grandes discrepâncias em relação de gêneros em uma determinada área é compreender que há alguns problemas por trás disso e, com isto, conseguimos procurar soluções para sanar esta falta de equivalência. É difícil ganharmos espaço se não enxergamos que podemos fazer parte dele, e este é um primeiro passo para conseguirmos alterar o cenário da disparidade de gênero na ciência.

Segundo dados do governo dos Estados Unidos para 2011 (publicado em 2013), as mulheres são muito pouco representadas nos campos de STEM (sigla em inglês para ciência, tecnologia, engenharia e matemática). Segundo estes dados, 61% dos graduandos em ciência e engenharia eram homens, sobrando apenas 39% mulheres. Já sobre os dados da força total de trabalho em STEM nos deparamos com 76% de representantes homens.

Se nossa pretensão é alterar o cenário atual e aumentar a participação feminina na ciência, precisamos dar visibilidade e posição destacada às mulheres, assim conseguimos fomentar de forma igualitária o interesse pela área científica. Atrair jovens para carreiras de ciência é um passo essencial, e a imagem e representatividade do cientista é uma das principais vias para alcançar isso.

Tópico 2

A própria comunidade científica reforça a diferença de gênero em seu ambiente. Alguns casos são históricos por isso. Quem não se lembra do infeliz comentário do presidente da Universidade de Harvard, Larry Summers, ao sugerir que as mulheres têm menos capacidade em ciência e em matemática do que os homens, e que isso era reforçado por estudos - que aqui acrescento que eram enviesados para a opinião masculina, já que eles detinham o maior poder sobre essa área -.

Esta declaração de Summers não passa de uma grande mentira: é o que mostra a pesquisa No intrinsic gender differences in children's earliest numerical abilities, publicada na Nature neste ano de 2018. A sub-representação das mulheres nas áreas matemáticas NÃO está atrelada a diferenças intrínsecas de aptidão. Em todos os estágios de avaliação neste estudo, as análises revelaram, de forma consistente, que meninos e meninas não diferem na capacidade quantitativa e matemática durante a infância. Essas descobertas indicam que meninos e meninas estão igualmente equipados para raciocinar sobre matemática, e que as diferenças socioculturais e o desencorajamento de meninas às carreiras de ciência e tecnologia é quem podem, possivelmente, explicar as disparidades de engajamento nestas áreas em idades mais avançadas.

É complicado ser mulher e sobreviver a determinados ataques referentes a sua capacidade diferidos constantemente por homens, sejam eles docentes, orientadores, colegas, amigos ou grandes pesquisadores que você, como cientista, admirava. Uma geneticista, da University of Sussex, passou por um caso desestimulante e completamente desrespeitoso: o revisor de uma pesquisa que ela escreveu "orientou" que chamassem homens para assinarem seu trabalho, visto que isso traria maior confiança para o que foi pesquisado. O revisor ainda sugeriu que as publicações masculinas conseguem mais espaço porque eles são naturalmente mais "eficientes".

É difícil encontrar uma mulher que não tenha passado por preconceito de gênero estudando ou pesquisando nas áreas científicas. A questão é: o que podemos fazer para fortalecer as mulheres presentes nesse meio? O mais fácil sempre será olhar a problemática e dizer: "precisamos de mais mulheres na ciência", ou simplesmente dizer o quanto a ciência perde por afastarem mulheres do seu espaço. Entretanto, o mais fácil nem sempre é o mais eficiente. Por que nossos colegas homens, dentro da ciência, não olham os líderes científicos nos olhos e dizem: "Seus laboratórios, contratações, critérios para seleção de alunos orientados, processos de alocação de subsídios e publicações são sexistas, e isso resulta em ciência e tecnologias que só são boas para uma parcela da população: a masculina! Por que você permite que isso continue? O que você pode fazer para mudar isso? Como você quer que nosso país cresça no âmbito da tecnologia se os jovens incentivados são apenas de um único sexo? Por que você não potencializa esse crescimento investindo em incentivo para ambos os gêneros, visto que eles não diferem quanto suas capacidades?".

Mulheres são desproporcionalmente desfavorecidas em carreiras científicas desde crianças, e quando rompem a primeira barreira, sofrem para permanecer na ciência quando se deparam com uma academia misógina e uma pós graduação ainda mais sexista.

Algumas iniciativas para superar a desigualdade entre homens e mulheres na ciência vêm sendo propostas. Revistas como a Nature adotaram medidas que permitiram aumentar a proporção de mulheres revisoras de 14% para 22%, no período de 2011 a 2015. No Brasil, o último Congresso Brasileiro de Epidemiologia inovou ao promover a equidade de gênero em mesas e painéis, critério que também tem orientado a atuação da Comissão Científica do próximo Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, a ser realizado em julho de 2018.8

Mas, apesar de ser um primeiro passo, precisamos notar que essas são medidas paliativas. Precisamos alcançar o cerne da questão e definitivamente resolvê-la! Estes questionamentos precisam ser levantados durante o cotidiano, e precisamos colocar contra a parede quem tem poder para alterar todo o cenário descrito ao longo desse texto. As vozes da ciência são diversas, mas somente poucas são escutadas. As mulheres lutam bravamente para permanecer na ciência, com toda a dedicação, força, capacidade, resiliência, vontade e esperança por uma carreira menos sexista. Estamos juntas nessa!

Minhas dicas complementares sobre o tema:

Texto sobre as dificuldades de ser mãe e cientista

Mulheres na ciência: pesquisas e números (Dispersciência)

Podcast "Mulheres na ciência" (Alô, ciência?)

Curso de extensão "Meninas com ciência", do Museu Nacional (Rio de Janeiro)

Conhecer - Eleições Presidenciais 2018

Dia 29 de julho, pesquisadores e divulgadores científicos vão entrevistar os presidenciáveis para debater o futuro da ciência no desenvolvimento do País.

Transmissão: Science Vlogs Brasil (Youtube), Dispersciência (Facebook) e HuffPost Brasil

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.