OPINIÃO
24/04/2015 17:02 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:01 -02

Somos todos vigiados. E agora?

A missão da CryptoRave é mostrar que não é preciso ser um expert em informática para usar ferramentas de proteção contra a vigilância.

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A CryptoRave de São Paulo, que acontece neste final de semana, talvez seja hoje o maior evento de defesa da privacidade e popularização da criptografia do mundo.

Popularizar criptografia - um "método de codificar mensagens de modo a garantir que só a pessoa que tenha em mãos o código correto possa lê-la" - não é tarefa fácil.

Ela exige o domínio de um conhecimento básico sobre o funcionamento dos computadores e de que como nossos dados são produzidos e comunicados na rede.

Esse é um primeiro bloqueio que temos no cenário pós-Edward Snowden: não queremos ser vigiados por empresas e agências governamentais, mas não sabemos quais ferramentas podemos utilizar.

Se o Google filtra os conteúdos de nossas mensagens para gerar publicidade personalizada, existe outra alternativa para enviar e-mails gratuitos sem ser monitorado? Se programas da Microsoft como o Skype geram dados para a Agência Nacional de Segurança dos EUA, existe outra opção para comunicação segura online?

Sim, essas opções existem.

A missão da CryptoRave é mostrar que não é preciso ser um expert em informática como Snowden ou um jornalista ativista como Glenn Greenwald para usar essas ferramentas.

Muitos programadores já se dedicaram à elaboração de programas e técnicas para garantia da privacidade e comunicação segura. O desafio é popularizar essas inovações e convencer os usuários que a lógica do "quem não deve não teme" somente legitima lesões a direitos civis fundamentais.

Recentemente, o comediante britânico John Oliver gravou uma entrevista hilária com Snowden em Moscou e usou uma tática simples para mostrar a importância da privacidade para os estadunidenses: "se você envia uma foto do seu órgão sexual para alguém na internet, o governo pode ver?". Os entrevistados diziam não, mas desconheciam os programas de coleta de dados da NSA.

Felizmente, os brasileiros estão mais cientes desse cenário. A preocupação com a vigilância em massa é compartilhada por ativistas, acadêmicos, empresas nacionais, membros do governo e da diplomacia. A CryptoRave é uma reação a essas constantes violações de direitos, denunciada em 2013.

A CryptoRave é também a prova que a sociedade civil é capaz de se organizar e realizar um evento com recursos próprios, atento às questões de gênero e com pautas centrais para a democracia no século XXI.

Se você se preocupa com essas questões, faça sua inscrição e participe do evento. Não é preciso se identificar com o nome do seu RG. Nessa festa o que importa, diria Gilles Deleuze, é a resistência aos mecanismos de controle.