OPINIÃO
25/10/2017 20:16 -02 | Atualizado 25/10/2017 20:30 -02

Suor e solidariedade marcam competição por vaga no Bolshoi

Mães arrecadaram R$ 1.126 para que uma competidora pudesse pagar o ônibus de Santa Catarina para a Bahia.

Manuela Schneider
A concorrência entre as meninas é maior, como foi para a baiana Lara Sophia.

Tão concorrida quanto um vestibular para o curso de Medicina na USP, a seleção para ingressar no curso profissionalizante da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, em Joinville (SC), chegou a atingir neste ano a marca de 60 inscritos por vaga. A diferença é que os candidatos geralmente têm entre nove e 11 anos.

Histórias emocionantes e de sacrifício não param de surgir entre os pequenos olhos brilhantes que lotam os corredores da única escola da prestigiada companhia russa de balé. Há 18 anos, o rigor e uma atmosfera de mistério cercam a complexa, demorada e exaustiva bateria de testes que chega a durar três dias.

Do lado de fora, familiares e professores não se contêm de ansiedade.

Manuela Schneider
João Pedro Santos Viana permaneceu confiante durante todas as etapas

O voo do beija-flor

Aos nove anos, João Pedro Santos Viana esbanjava confiança. "O importante é tentar", resumiu o candidato vindo da Escola de Artes Beija-Flor, de Timon, cidade do Maranhão que faz divisa com a capital piauiense Teresina. Ele, que dança desde os sete anos, disse ter se preparado fazendo muito alongamento.

"Sempre se destacou", afirmou sua professora Jihnny Azevedo, visivelmente mais tensa que ele. "Se passar, vai ser meu primeiro aluno a entrar no Bolshoi. Vai realizar o sonho dele e o meu." Apesar de os dois só terem conseguido viajar porque a prefeitura doou as passagens aéreas, ela conta que João recebe muito estímulo da família. "O pai, Gilvan, é daqueles que, se precisar, amarra até a sapatilha."

O professor de dança Rodolfo Iocca também estava confiante na aprovação de Giuliana Nicoletta Iocca. "Ela está preparada. Moscou é longe. O Bolshoi de Joinville é o que há de melhor na região", calculou o pai que, enquanto elogiava o método russo, demonstrava expectativa em ver continuar na família o amor pela dança.

Os Iocca saíram da pequena Santa Teresita, distante quase 300 km de Buenos Aires, na Argentina, para apostar as fichas e as economias. Giuliana com 11 anos estava no limite de idade para ingressar no curso.

A decisão pela tentativa na seleção foi tomada após conhecerem a escola no ano passado, quando participaram do Festival de Dança de Joinville. "Nossa hospedagem tem o apoio de amigos que nos receberam na casa deles", contou o pai e ex-bailarino do Teatro Colón.

A jornada da baiana Lara Sophia Silva Passos - também de nove anos - foi longa. Pré-selecionada na etapa de Araraquara (SP) no início de outubro, ela e sua mãe Suzane Silva dos Santos já haviam enfrentado muitos desafios.

"Meu pai, Jairo, que é caminhoneiro, nos deu carona, de Barreiras (BA) até Brasília. De lá, ônibus até São Paulo", relatou a professora Suzane. "Quando ela foi pré-selecionada, eu só chorava porque pensava em como faríamos para chegar até Joinville."

Uma campanha na cidade do oeste baiano arrecadou o dinheiro suficiente para que Lara e Suzane conseguissem pagar hospedagem e as passagens somente de ida até Santa Catarina. Após quase três dias de viagem e carregando comida trazida na mochila, o cansaço quase não era sentido pela menina. Nem mesmo o fato de não ter dinheiro nem a passagem de volta a abalou.

"Quero entrar no Bolshoi para ser uma grande bailarina e abrir uma escola municipal e gratuita de balé na minha cidade", projetou Lara. Bolsista na única escola de dança da sua cidade, disse que assim conseguiria dar oportunidade para que outras crianças realizassem seus sonhos de dançar.

Apenas há cinco meses fazendo aulas, Lara chegou como uma grande promessa. Ela decidiu ser bailarina após ter visto um vídeo de Ana Botafogo dançando. Temia que algumas fases da seleção fossem como no filme que ela viu em que os avaliadores "puxavam e torciam" as pernas das candidatas.

Após quase três horas de testes no primeiro dia que engloba avaliação médica e fisioterápica, ela ainda enfrentaria, nos dois dias seguintes, teste escrito de conhecimentos gerais, aptidão musical e artística.

Passaporte para o futuro

Neste ano, a Escola do Bolshoi realizou 17 pré-seleções em cidades brasileiras avaliando mais de 2,4 mil interessados. Recebeu na seleção anual quase 600 candidatos vindos de 20 estados brasileiros, da Argentina e da Rússia. Cerca de 40 pessoas entre médicos, fisioterapeutas, educadores físicos, professores e alunos da Escola se dedicaram a uma verdadeira maratona.

"Chego a trabalhar 16 horas", revela a coordenadora da seleção, Sylvana Albuquerque. "O que fazemos é um cruzamento de dados profissionais do candidato à carreira de bailarino. Precisa ser rigoroso porque priorizamos a saúde."

Sylvana também tranquilizou as crianças, dizendo que, apesar da fama do Bolshoi, é uma entre várias escolas de formação e incentiva que a busca por um curso de excelência deva continuar. "É preciso fazer do 'não' uma escada para o 'sim'. Não ser aprovado desta vez significa somente que neste momento o perfil teve uma classificação insatisfatória diante da grande concorrência."

E ressalta como são bem-vindas as diferenças na escola. "Temos bailarinos altos e baixos. Negros, pardos, brancos. Há quem use óculos e aparelhos. Os próprios papéis das personagens nos balés pedem perfis diferentes. Precisamos refletir a diversidade."

"Nosso cuidado é selecionar quem tem menos probabilidade de desenvolver lesões durante uma rotina muito intensa de exercícios. São crianças com o corpo em formação. Em paralelo, vem o potencial artístico", completa.

E por que há tanto interesse dos jovens na bolsa de estudos?

O curso de Dança Clássica tem duração de até oito anos. E os alunos recebem alimentação, transporte, uniformes, figurinos, assistência social, orientação pedagógica, assistência odontológica preventiva, atendimento fisioterápico, nutricional e assistência médica de emergência/urgência pré-hospitalar.

Ao todo, o investimento no aluno do Bolshoi pode chegar a R$ 2,5 milhões. O financiamento é possível graças a parcerias com empresas e apoiadores conhecidos como Amigos do Bolshoi. Como resultado, a escola ostenta um índice de 76% de empregabilidade na área da dança, com ex-alunos atuando em companhias no mundo todo e com salários iniciais que podem chegar a R$ 50 mil.

Outros seis candidatos ocuparão vagas em séries mais avançadas, já que a idade limite para ingresso é 18 anos. As aulas para as 40 crianças das turmas de 2018 vão começar em fevereiro, quando Giuliana e João poderão se matricular, pois foram aprovados.

Lara não conquistou desta vez a tão sonhada vaga. Mas ela e sua mãe levam de Joinville uma inesquecível experiência. Sensibilizadas por não terem como voltar para casa, as mães das outras candidatas fizeram uma rifa de alguns produtos adquiridos na loja do Bolshoi. Em duas horas, haviam arrecadado R$ 1.126, o suficiente para pagar mais uma diária no hostel e as passagens de volta delas até a Bahia.

A destemida e incansável Lara prometeu que fará novas tentativas. Sua história deixa evidente que realizar um sonho - seja ele qual for - é sempre uma viagem que fazemos para a qual só pegamos o bilhete da ida.

RELAÇÃO DOS APROVADOS PARA 2018

Dança Clássica Feminina 1ª Série

Adria Louise Martins Viena

Amanda Lyrio Andrade Badaró

Ana Clara Porto Figueredo

Anna Liz Moretto Dal Piaz

Anny Vitória Nunes Bonfim

Antonielly Estigarribia Paes

Clara Galhardo Pereira

Emanoelle Yasmin Rodrigues Gouvea

Emillyn Brabo Louzeiro

Gabriela Mariano Gonzaga

Gabriela Modesto Sena

Giuliana Nicoletta Iocca

Isabela Cristine Schmitt

Kailany Marcondes Aguiar

Lana Aguida Dantas Oliveira

Manuela Piovesan De Almeida Bezerra

Manuella Mertig

Nicoli Eduarda Vieira Cruz

Rebeca Nunes Batista Cintra

Victoria Kethlin Vidal Lopes

Dança Clássica Masculina 1ª Série

André Luis da Costa

Arthur Rafael Meurer

Caua Henrique da Silva Alexandre

Gabriel Alberto de Barros Briceno

Jadson Felipe Souza de Jesus Fonseca

João Pedro Alves Bachini

João Pedro Camilo Cavanha

João Pedro Santos Viana

João Vitor Debona Biancatte

José Felisbino Sobrinho Neto

Júlio César Stein

Kauan Ramão de Lima

Lucas Eduardo dos Santos

Luciano Marinho Dos Santos

Marcos Vinícius Gazola Dos Santos

Miguel Ericksson Azevedo Alves

Mikael Carlos dos Santos

Paulo Henrique Ferreira Speandio

Paulo Ricardo Macaroff Miranda

Vithor Ricardo Laguardia de Moares

Dança Clássica 2ª a 8ª Série

Juan Ignacio Fleitas Negreira

Luis Felipe Correia Teodoro Cavalcante

Rinaldo Cardoso Paz Junior

Romulo Castilho

Vinicios De Oliveira Cunha

Sofia Martina Rodriguez Lara

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