OPINIÃO
20/09/2018 18:26 -03 | Atualizado 21/09/2018 10:50 -03

Quasar Cia de Dança celebra 30 anos com retorno aos palcos em ritmo de bossa nova

Após dois anos paralisada por falta de patrocínio, uma das companhias de dança mais renomadas do País estreia espetáculo 'O Que Ainda Guardo'.

Coreografia também comemora os 60 anos da bossa nova.
Marcus Camargo
Coreografia também comemora os 60 anos da bossa nova.

O anúncio da paralisação das atividades da Quasar Cia. de Dança em 2016 foi recebido com perplexidade por fãs e pela classe artística. Hoje, em retrospectiva e diante de acontecimentos lamentáveis que desmontam a área cultural - como o incêndio do Museu Nacional, já sabemos que era o ressoar das trombetas do Apocalipse.

"Este intervalo fez a gente pensar em toda a nossa trajetória e trouxe uma reflexão sobre o que está por vir", resume o coreógrafo Henrique Rodovalho, que fundou a companhia em 1988 ao lado da produtora Vera Bicalho. "Já tivemos momentos difíceis, mas nenhum tão ruim quanto este", avaliam os fundadores que sentem a efeméride com menos nostalgia e mais esperança.

Há dois anos, o fim do contrato de patrocínio com a Petrobras, que segundo Vera custeava 50% de todas as despesas, foi um nocaute. "Sempre buscamos a complementação em outras fontes. Mantínhamos uma reserva. Com o país em crise, nada foi suficiente. Não tivemos outra opção", argumenta a produtora. "Encerrar as atividades definitivamente nunca passou pela cabeça. Sabíamos que seria preciso buscar um novo formato e nos reinventar", confessa Rodovalho.

A lamentável interrupção foi aplacada pela proposta do Governo do Estado de Goiás em tornar a Quasar um corpo artístico estatal. Considerada um patrimônio cultural goiano, houve um certo consenso entre sociedade e classe artística de que seria o melhor a ser feito. Porém, a promessa ficou só na promessa mesmo. "Embora seja ano eleitoral, espero que até 31 de dezembro saia o edital das OSs", projeta Vera, que vê o modelo de parceria público-privada como prático, sério e viável. "Por meio de uma OS, conseguimos gerir um equipamento do Estado com mais autonomia e, mesmo com prestação de contas minuciosa, não perdemos trabalhos para a burocracia".

Marcus Camargo
Novo elenco da Quasar reflete diversidade étnica brasileira

Quando questionada sobre qual falha na administração da Quasar também teria contribuído para a paralisação, Vera não demora a responder. "Ainda nos falta uma habilidade na negociação com o poder público e as empresas. Não somos nem temos lobistas", destaca. "Recebemos muitas ofertas de ajuda. Mas quase nada se concretiza".

Para quem ainda não compreende a importância do subsídio (via patrocínio) para as artes performáticas - ópera, orquestra, dança e teatro -, inúmeros estudos foram realizados pelo mundo. A explicação mais difundida é o Efeito Baumol. Se todas as despesas fossem pagas pela arrecadação na bilheteria, os ingressos custariam, como se diz por aí, os olhos da cara, um rim e um pedaço do fígado.

O caso da Quasar prova que ninguém está absolutamente protegido dos abalos políticos e econômicos. A marca forte e um currículo que registra prêmios, participações em importantes festivais, turnês pela Ásia, África, Europa, Américas e todo o Brasil e até mesmo a benção recebida da coreógrafa Pina Bausch (1940-2009) não foram capazes de blindá-la. Outra prova de que o desmonte é sistêmico, foi a dificuldade enfrentada pelo Grupo Corpo também em 2016. Os mineiros tiveram que diversificar as fontes patrocinadoras às pressas, pois a Petrobras, que por anos foi a mantenedora principal, reduziu drasticamente o aporte.

Marcus Camargo
Vocabulário coreográfico é a identidade da Quasar

Bonança
O recurso que viabiliza a "volta" da Quasar aos palcos vem de uma joalheria. "Faz um tempo que a Dueto Produções propõe parcerias e conseguimos desta vez alinhar as expectativas de todas as partes no projeto Preciosidades Vivara", conta Rodovalho ao explicar que a obra é uma encomenda. "Meu briefing é produzir uma homenagem aos 60 anos da bossa nova. É inacreditável a confiança e a liberdade criativa que temos".

Dez bailarinos foram reunidos para o projeto iniciado em junho. Dentre eles está Valeska Gonçalves, 43 anos, que há 16 anos se mudou do Rio para Goiânia para integrar o elenco da companhia principal. Da extinta Quasar Jovem, dançam os bailarinos Marcella Landeiro e Gustavo Silvestre; Júlia Novaes retorna como figurinista e Marcus Camargo como cenógrafo e fotógrafo.

A sede da companhia, o Espaço Quasar, não existe mais. Os ensaios são realizados em parceria com a academia World Dance Center, que também adaptou um alojamento para seis bailarinos vindos de outros Estados. Para a produção, Giselle Carvalho foi "resgatada" por Vera. E, nestes dias mais atarefados que antecedem a estreia, as duas produtoras dividem uma pequena sala emprestada no escritório da Arte Brasil Projetos Socioculturais.

"Ainda tenho fôlego", vibra a cofundadora da companhia. "30 anos são uma vida. Estou feliz em poder comemorar. É uma retomada", se orgulha Vera visivelmente emocionada enquanto detalha como será a première em São Paulo no charmoso Auditório Ibirapuera e, na sequência, a turnê para o Rio, Sul, Norte e Centro-Oeste. "Estamos recebendo muitos convites". E, de fato, a programação faz jus ao histórico da companhia que ainda caminhará guiada pela luz do fim do túnel.


Nova bossa
Leveza e sutileza estruturam a peça O Que Ainda Guardo. A coreografia é como um prenúncio da chegada de uma nova bossa, um novo jeito, uma nova onda. Para os tempos mais rudes, o coreógrafo propõe a suavidade como atitude. Um contraponto ao peso, à revolta, angústias e desalento.

A experiência com o gênero musical é de longa data dentro e fora de sua companhia. Como exemplos, encontramos no repertório Só Tinha de Ser Com Você (2005), cuja trilha é o álbum Elis e Tom (1974); e Bossa (2004), obra concebida por Rodovalho para o Balé da Cidade de São Paulo.

O vocabulário de movimentos está lá: intacto. E com citações a obras anteriores. A novidade está na composição. Conhecido por ser um coreógrafo profundamente musical, propõe aos bailarinos que dancem como notas soltas e independentes em uma partitura. Aos poucos, pontua interações em duetos e cenas cômicas (uma das marcas registradas da Quasar).

Para desenhar um panorama da bossa nova, o cenário traz a silhueta da cidade do Rio e a trilha sonora navega da Era do Rádio ao fenômeno global que se tornou o ritmo carioca. Inclui ainda uma provocação para o preço da fama: "Garota de Ipanema" vira música de elevador. Há uma gama de canções mais e menos conhecidas em versões instrumentais ou interpretadas por vozes como as de Cauby Peixoto e Caetano Veloso. Uma dança para cantarmos juntos.

Rodovalho está seguro de que o intervalo serviu para fazer mais do que um balanço geral ou projetar o futuro. Permitiu se situar diante de incertezas. "Quando se faz 30 anos de carreira, descobre-se que não se pode parar". Nada mais shakespeariano. Afinal, os covardes morrem muitas vezes antes de suas mortes. E o bravo só experimenta a morte uma única vez.

Não por acaso, o retorno da Quasar será no dia 22 de setembro. Data que marca a entrada da primavera. É tempo de florescer novamente.

SERVIÇO:

O que ainda guardo
Quasar Cia. de Dança

São Paulo (estreia)
22 e 23 de setembro
Auditório Ibirapuera

Rio de Janeiro
26 de setembro
Cidade das Artes

Santo André
6 de outubro
Teatro do Sesc

Palmas
13 de outubro
Teatro do Sesc

São Luís
15 de outubro
Semana Maranhense de Dança

Goiânia
20 de outubro
Festival Goiânia em Cena

26 a 28 de outubro
Teatro Goiânia

Brasília
14 a 16 de dezembro
CAIXA Cultural

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