OPINIÃO
03/09/2018 09:55 -03 | Atualizado 03/09/2018 10:58 -03

Incêndio no Museu Nacional decreta falência moral do Brasil

"O Museu Nacional foi vítima da ausência, da irresponsabilidade e da ignorância que empurra o Brasil para a mais densa nuvem de fumaça do retrocesso."

bombeiro resgata itens durante incêndio no Museu Nacional.
Ricardo Moraes / Reuters
bombeiro resgata itens durante incêndio no Museu Nacional.

Os tempos recentes têm sido de sucessivas falhas graves da governança pública. Como prova de que nada está tão ruim que não possa ser piorado, o Brasil que voltou 20 anos em 2 supera sua própria marca: voltou 200 anos em 2 horas.

O incêndio que carbonizou o Museu Nacional, localizado na Quinta da Boa Vista, na cidade do Rio de Janeiro, faz da noite de 2 de setembro um episódio emblemático sobre a falência moral do projeto de Nação Brasileira.

Pouco se fala por aí que Estado e Nação são instituições bem diferentes. E que juntas são os componentes essenciais para se formar um país. Estado é o conjunto de leis, regras e sua administração. Nação é o conjunto de bens materiais e imateriais que faz de um grupo de pessoas se reconhecer como pertencentes a mesma origem.

Por assim ser, a destruição do mais relevante acervo da memória nacional compromete definitivamente as gerações atuais e futuras. Além de ser um absoluto desrespeito com gerações anteriores que investiram vidas e recursos para entregar a nós tal herança.

Não é golpe. É crime!
Circunstâncias obscuras rondam o entendimento sobre o que teria deflagrado a combustão.

Por que em um horário após o fechamento do museu? Por que um museu tão importante? Por que um museu sob tutela de órgãos ligados ao Governo Federal? Por que um museu no já combalido Estado do Rio de Janeiro? Por que em período eleitoral? Quais sistemas antichamas haviam ali aptos para combate? Quantos funcionários "tomavam conta" da grande edificação? Por que os bombeiros tiveram tanta dificuldade para encontrar água? Perguntas e mais perguntas.

Outro fato estranho é a uniformidade das labaredas que em aproximadamente duas horas deram fim a 13 mil m² de prédios de três pavimentos que abrigavam 122 salas. É difícil acreditar que um único foco tenha se alastrado com tanta rapidez e violência.

Em um incêndio, a propagação do calor - que é um dos elementos do fogo e causador dos danos - se dá por três maneiras: radiação, convecção e condução. Teria o museu reunido em si mesmo todas as condições para se tornar uma bomba? E ninguém sabia disto? Nem mesmo o Corpo de Bombeiros que concede alvarás de funcionamento? Passamos 200 anos sob risco eminente?

Haveria uma reencarnação do lendário piromaníaco Nero à solta?

Mesmo que alguém tenha ateado deliberadamente fogo ao museu, outro crime fica evidente na violação da Constituição Federal que em seu Artigo 23 é bem clara ao instituir que "é competência comum da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios proteger os documentos, as obras e outros bens de valor histórico, artístico e cultural, os monumentos, as paisagens naturais notáveis e os sítios arqueológicos".

Ou seja, a salvaguarda do material queimado é responsabilidade do Estado. O patrimônio da Nação deveria ter sido protegido pela administração pública. Gritemos aos ventos: negligência! Especialmente, nesta semana em que o Congresso recebe o Orçamento de 2019 enviado pela Presidência com um corte de 12% nos investimentos.

Se o socorro do BNDES não chegou a tempo para "salvar" o Museu Nacional que minguava, quais outros patrimônios brasileiros estão em perigo?

Empurra-empurra
As manifestações iniciais das "autoridades" sugerem um "descaso de governos anteriores". Uma óbvia estratégia de "tirar o corpo fora".

Não é preciso ir muito longe na linha do tempo para o levantamento de instituições culturais brasileiras que sofreram incêndios. Dentre a longa lista: em 2016, a Cinemateca Brasileira. Em 2015, o Museu da Língua Portuguesa. Seria muito ingênuo da parte de qualquer gestor pensar que nada parecido poderia atingir o Museu Nacional ou qualquer outro museu, biblioteca e etc.

Fatalidade é quando uma catástrofe acontece. No entanto, o Museu Nacional não foi atingido por um meteoro. Tampouco por um bombardeio. Foi vítima da ausência, da irresponsabilidade e da ignorância que empurra o Brasil para a mais densa nuvem de fumaça do retrocesso.

Um País que perdeu boa parte de sua memória não deveria reconstruir este museu. Deveria manter as paredes que presenciaram a barbárie como símbolo ou como um monumento para que as futuras gerações pudessem saber que erros irreparáveis são cometidos por uma sociedade chafurdada na lama do desespero.

Reconstruir o Museu Nacional pode apagar da memória coletiva o processo que levou à derrocada nosso projeto de Nação.

Quanto à memória nacional, esta sim precisa, como uma fênix, renascer das cinzas. Por meio da refundação, fusão ou criação de um novo centro de pesquisa e preservação.

Seguramente, na História Ocidental, foi a pior maneira de um dos maiores museus da América Latina comemorar o seu bicentenário.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.