OPINIÃO
09/10/2018 11:26 -03 | Atualizado 10/11/2018 16:12 -02

Evento em SP reúne lideranças indígenas, artistas e pesquisadores para discutir teatro e política

Com entrada gratuita, o TePI (Teatro e os Povos Indígenas, Encontros de Resistência) será realizada no Sesc Pompeia, na zona oeste da capital paulista.

Atualmente, cerca de 300 etnias ainda resistem no Brasil. Em 1500, estima-se que havia mais de mil.
Kotok Kamayura (Acervo Pessoal)
Atualmente, cerca de 300 etnias ainda resistem no Brasil. Em 1500, estima-se que havia mais de mil.

"Estamos vivendo tempos muito difíceis. O conservadorismo, o fascismo e o racismo avançam sobre nossas vidas e a nossa história", alerta Sonia Guajajara logo após encerrar sua disputa à presidência como candidata a vice pela chapa do PSOL.

Ela é uma das lideranças indígenas convidadas do projeto TePI - Teatro e os Povos Indígenas, Encontros de Resistência, que será realizado nesta semana no Sesc Pompeia. "É, sem dúvida, um espaço de troca e de ampliação da visibilidade sobre a luta e a realidade dos povos indígenas que seguem na invisibilidade em vários espaços no Brasil".

Ao todo, o TePI promove quatro encontros temáticos e com entrada gratuita de 9 a 12 de outubro que vão estimular um amplo debate sobre arte e política dos povos indígenas. A apresentação da peça teatral Gavião de Duas Cabeças, nos dias 9 e 16, também integra a programação estruturada pela curadoria da atriz e ativista Andreia Duarte e do líder político Ailton Krenak.

"As realidades artísticas no País, tais como as indígenas, são diversas e específicas. O que as une é a re-invenção nas formas de fazer. Modos que nem sempre coincidem com o tempo de um mercado", explica Andreia ao destacar que a proposta do evento pretende descolonizar o olhar e evitar clichês sobre as artes indígenas.

Facebook (Reprodução)
Sonia Guajajara é uma das lideranças indígenas mais influentes da atualidade

"TePI não acredita em pureza, mas sim em uma humanidade que troca, que dialoga, que se reinventa no aprendizado, na vivência, de tempos em tempos. E é pelo encontro que tratamos a diversidade", resume a curadora que morou por cinco anos no Xingu. "Eu me posiciono como aliada. Os povos indígenas, como os artistas, precisam de representatividade seja onde for".

O termo "aliado" é usado para identificar os não-indígenas que conhecem e apoiam as causas dos indígenas. Entre os aliados estão, por exemplo, os antropólogos Betty Mindlin e Ernesto de Carvalho e a coreógrafa Lia Rodrigues.

O alinhamento entre a trajetória de luta dos convidados e a opinião sobre o papel transformador da arte é um norte para a programação de TePI. "A arte é a única ferramenta ou arma que nos restou diante deste contexto político-sócio-econômico atual para alcançar visibilidade e ressignificar nossa existência", afirma Jaider Esbell, artista da etnia Makuxi, localizada em Roraima.

Esbell reforça como as políticas públicas ainda alienam os povos indígenas. "Nossas reivindicações são sempre as mesmas: direito à terra sagrada e respeito à dignidade plena". Apesar disto, Sonia Guajajara avalia 2018 como um ano histórico.

"Conseguimos reunir 130 candidaturas indígenas e compor uma chapa presidencial. Elegemos uma indígena para a Câmara Federal e outra para a Assembleia Legislativa de São Paulo. Nossa ausência no Congresso Nacional há 31 anos, desde Mário Juruna, acabou", celebra Sonia ao mesmo tempo que retoma a militância. "Nossas pautas são amplas. Continuamos na luta para vencer a invisibilidade, o preconceito e o racismo que insistentemente atingem nossos corpos há 518 anos."

SERVIÇO:

TePI – Teatro e os Povos Indígenas, Encontros de Resistência
9 a 16 de outubro
Sesc Pompeia


Encontros no Espaço de Convivência
Sempre às 18h, ingresso grátis
9 de outubro (terça)

O corpo não-colonizado indígena
com Ailton Krenak, Cristine Takuá, Betty Mindlin e Cacique Kotok Kamayura

10 de outubro (quarta)
Seria o teatro um lugar de representatividade dos povos indígenas?
com Joilson Paulino Karapãna, Antonio Salvador, Daiara Tukano e Carla Ávila

11 de outubro (quinta)
Por uma proposta de vida anti-desenvolvimentista e exibição do documentário Martírio
com Ernesto de Carvalho, Carmen Junqueira, Davi Popygua e Sonia Guajajara

12 de outubro (sexta)
Atos ancestrais e artísticos como formas de resistência
com Luiz Davi, Lia Rodrigues, Jaider Esbell, Mapulu Kamayura e Rita Carelli

9 e 16 de outubro
Gavião de Duas Cabeças
Terças, 21h30
Espaço Cênico

Ingressos: R$ 6 a R$ 20

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.