OPINIÃO
14/09/2018 11:07 -03 | Atualizado 21/09/2018 10:48 -03

Danilo Santos de Miranda: 'Há no Brasil um desmonte intenso na área cultural pelo descuido'

Diretor regional do Sesc SP fala sobre trajetória de 50 anos dedicados à instituição e sobre perspectivas para um País em "turbulência".

Danilo Santos de Miranda, diretor regional do Sesc São Paulo, durante o festival Mirada 2018.
Matheus José Maria
Danilo Santos de Miranda, diretor regional do Sesc São Paulo, durante o festival Mirada 2018.

Danilo Santos de Miranda, diretor regional do Sesc São Paulo e uma das maiores lideranças no campo cultural, falou com exclusividade durante o festival ibero-americano de artes cênicas Mirada sobre o evento realizado neste mês de setembro na cidade de Santos, a atuação do Sesc e perspectivas para um país em "turbulência" às vésperas de novas eleições.

Aos 75 anos - dos quais 50 dedicados à instituição, em um dos raros momentos em que conjuga verbos na primeira pessoa do singular, relembrou sua trajetória no Sesc e contou como está preparando a sua sucessão.

O festival Mirada tem uma função sociopolítica tão importante quanto sua função cultural. Qual a razão desta característica?

O Sesc tem uma trajetória longa [mais de 70 anos] de apresentar artistas consagrados e também os que estão começando nos vários festivais que realizamos ou somos parceiros. O Mirada segue esta linha e foi criado para preencher uma lacuna no Brasil de ter seu próprio festival que contemplasse a cultura ibero-americana.

O Mirada é um espaço de proximidades. E reúne países de riqueza cultural provenientes de três grandes matrizes: a branca, a negra e a indígena ou originária. Temos em comum as línguas portuguesa e espanhola e a relação com nossos colonizadores imediatos, Portugal e Espanha.

É uma maneira da gente se aprofundar e ter um conhecimento melhor do nosso passado, para pensar nosso presente e ver com perspectivas melhores o nosso futuro.

Por que a cidade de Santos é a sede do Mirada, que se ramifica pela Baixada Santista?

Santos tem características que favorecem bastante como: tamanho; infraestrutura; localização geográfica; e seus significados simbólicos, por ter o maior porto da América Latina, local de chegada dos imigrantes e importância econômica. Neste sentido, guarda uma semelhança com Cádiz, cidade portuária da Espanha. Por incrível que pareça, até Miami tem um festival ibero-americano. Nosso desafio era fazer um no Brasil.

O contexto político-econômico do País na primeira edição do Mirada em 2010 era bem diferente do contexto desta quinta edição. Como o festival enfrentou as turbulências ao longo de sua existência?

O Brasil vive de turbulência em turbulência há muitos anos. O Sesc nasceu em 1946 em um momento super turbulento do pós-guerra e mudanças políticas e culturais. O País vivia sua busca de identidade, que ainda não encontrou completamente. Nossa independência foi política, mas não econômica nem cultural. A ida dos brasileiros à Segunda Guerra foi uma tentativa de ter uma atuação globalizada.

A turbulência agora está maior por atravessar um momento de indecisões, por causa inclusive das eleições. Há um desmonte intenso na área cultural pelo descuido. O incêndio no Museu Nacional reflete isso. Faltam verbas, atenção e reconhecimento da importância da cultura. A cultura sempre reflete o contexto histórico e político. Podemos ver este reflexo pelas peças do Mirada.

Esta é a característica que faz do Mirada um "organismo vivo que se adapta"?

Sim, é só avaliar os temas que estão na pauta: identidade, gênero, alteridade, nacionalidade... Um exemplo é o trabalho da Bia Lessa, Grande Sertão: Veredas, baseado na obra de Guimarães Rosa. Temos uma intenção de mostrar a muitos programadores internacionais que estão no Mirada a produção brasileira, como Preto, dirigida pelo Marcio Abreu, e a Odisseia, adaptada pelo Leonardo Moreira.

Ainda tem a estreia do Centro de Pesquisa Teatral do Sesc (CPT), com direção do Antunes Filho, e A Invenção do Nordeste, de Quitéria Kelly com artistas do Rio Grande do Norte. E muito mais. Ver e ser visto é uma troca.

A cada edição um País é homenageado. Argentina, México, Chile, Espanha e Colômbia já foram prestigiados. A escolha até agora não se ocupou apenas em dar visibilidade aos "primos ricos"?

Não. O país homenageado precisa ter uma produção efetiva que seja capaz de preencher uma certa quantidade de espetáculos. É uma questão prática, objetiva e direta. Tem que ter o que mostrar. Já tivemos Cuba e está aqui a Nicarágua. Um dia chegará a vez, por exemplo, da Bolívia. Não fazemos homenagem política nem simbólica.

Desta vez, é a Colômbia que apresenta mais trabalhos. Não há candidaturas. Existe ainda uma cooperação mútua entre a equipe do Mirada e o país homenageado. Um país com interesse e uma boa organização institucional em seu Ministério ou Secretaria da Cultura ajuda na vinda dos artistas.

É comum encontrar quem pense que a verba do Sesc é pública. De onde vem o dinheiro para a realização do Mirada?

A verba do Sesc não é pública. Legalmente, não é. Mas é tratado como dinheiro público. São as empresas do setor de comércio e serviços que pagam a conta. O dinheiro tem o respeito necessário para que se faça o adequado.


Matheus José Maria
Danilo Santos de Miranda atua no Sesc há 50 anos

E por que o Sesc usa tanta verba em Cultura?

Gastar em cultura é uma necessidade. Quem pensa que dinheiro para cultura é desperdício, está elaborando um erro gravíssimo. E é contra a própria nação. Somente no Sesc São Paulo, operamos com uma verba de mais de R$ 2 bilhões para manter 44 unidades e 7.500 funcionários. E somente uma parte, talvez a menor, vá para a Cultura. Temos muitos assuntos a tratar e isso inclui também a Cultura.

As ações do Sesc na Cultura são tão impactantes que frequentemente se faz uma comparação com a performance do Ministério da Cultura. É uma comparação justa?

Não fazemos Cultura como o Ministério. Nossa ação está focada no bem estar social. No tempo livre do trabalhador e o que podemos atuar em ações ligadas à alimentação, saúde, esportes, recreação. O Sesc não é uma instituição voltada somente para a Cultura. Essa comparação com o Ministério é capenga. Não reflete o que somos. O Sesc vem cada vez mais cumprindo melhor sua função. Tanto do ponto de vista numérico quanto do qualitativo. O Mirada 2018 já é melhor que a edição de 2016.

Revendo sua história pessoal que está ligada a própria história do Sesc, que avaliação faz destas décadas que lhe tornaram uma grande liderança no campo cultural?

Sou um homem muito feliz porque descobri uma trajetória que me satisfaz enquanto ser humano. Sou alguém que deseja participar e fazer algo para a história da humanidade, por mais pretensioso que isso seja. Fui colocado no lugar certo e no momento certo, onde posso exercer um trabalho humanitário. Minha formação nas ciências sociais, filosofia e administração contribuíram. Estou com 75 anos e vou produzir o máximo que puder. Não posso fazer tudo, mas posso fazer muito.

Como está sendo preparada a sua sucessão?

A necessidade da sucessão é permanente. Digo que ela começou a ser preparada desde o meu primeiro dia como diretor do Sesc. Se você fizer as mesmas perguntas a diferentes colaboradores, as respostas serão muito próximas. Aqui não fazemos um movimento. Nem temos bandeira para levantar. Nós acreditamos nos objetivos institucionais para levar adiante nossa missão. Já tem muita gente preparada para pegar o bastão, se for preciso.

Que avaliação faz do Brasil?

Sou um otimista. O Brasil, apesar de todas as dificuldades, caminha muito lentamente. Porque às vezes dá passos a frente e outros passos atrás. A percepção da absoluta igualdade entre todos é um desejo. As pessoas mais iluminadas vão ajudar o País a tomar um rumo melhor. A arte, a cultura e a busca do conhecimento têm um papel vital neste processo. Eu acredito no ser humano.

Deixe uma mensagem para a juventude.
Aos jovens, diria apenas para pensar naquilo que colabora efetivamente com a humanidade. E não apenas consigo mesmo. Não é preciso entrar em um movimento ou tentar mudar sozinho. A ação de elaborar o pensamento em si já faz com que a gente se envolva. Pensar nesta contribuição com a humanidade produz políticos, executivos, dirigentes, profissionais e professores melhores. O público é sempre mais importante que o privado.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.