OPINIÃO
23/04/2018 21:50 -03 | Atualizado 21/05/2018 21:38 -03

Balé da Cidade de São Paulo: 50 anos de arte e resistência

Ele reinventa-se para buscar novas existências.

Bailarinos em 'Das Tripas... Coração', de autoria do atual diretor artístico Ismael Ivo.
Clarissa Lambert
Bailarinos em 'Das Tripas... Coração', de autoria do atual diretor artístico Ismael Ivo.

O dia 7 de fevereiro de 2018 foi uma data histórica. Exatamente quando o Balé da Cidade de São Paulo (BCSP) pode, enfim, celebrar seus 50 anos de existência. Quem conhece a trajetória da mais longeva companhia de dança contemporânea do Brasil sabe que nem todos os seus dias foram de glória.

Mas, o que todos nós podemos aprender com a inabalável resiliência do BCSP?

Autonomia e Inovação
O BCSP foi criado em 1968 como corpo de baile para acompanhar as óperas do Theatro Municipal de São Paulo (TMSP), mantido pela Prefeitura de São Paulo. Em 1974, sob a direção de Antonio Carlos Cardoso, a companhia rompeu com o tradicional pensamento da época e também passou a investir em obras próprias e "dançar" os primeiros passos na dança que ficou conhecida como Contemporânea. Até então, Clássico e Moderno eram os principais estilos da dança cênica.

A constante atualização das possibilidades de atuação virou uma marca e foi preservada por outros diretores de coragem, como Luis Arrieta, Ivonice Satie, Mônica Mion, dentre outros, que não admitiram que o BCSP ficasse "parado" no tempo.

Respeito à Diversidade
Além de alternar homens e mulheres em seu mais alto posto, o de direção artística, o BCSP teve de travar inúmeras lutas para defender seus ideais. Em 1987, na gestão de Jânio Quadros, por exemplo, homossexuais foram proibidos de trabalhar em instituições municipais. Klauss Vianna, que dirigia o BCSP, não esmoreceu diante da arbitrariedade discriminatória.

A carreira de bailarino/dançarino em hipótese é de vida curta. Porém, nos idos dos anos 2000, foi criada a Cia. 2 para que profissionais mais velhos pudessem continuar atuantes. O projeto foi descontinuado, mas deixou um legado de mais de 30 obras e a certeza de que há espaço para que a experiência acumulada tenha aproveitamento.

A escolha de Ismael Ivo como diretor artístico em 2017 também reflete este espírito. Integrante do BCSP na década de 1980, ele se tornou um dos brasileiros de maior destaque internacional no cenário da dança e provou com seu retorno que a arte pode contribuir para não engrossar as estatísticas da violência urbana, que ainda mata mais jovens pretos e pobres, sobretudo das periferias das grandes cidades.

De pato a cisne

Em 1976, o BCSP passou a ocupar um prédio no bairro da Bela Vista, distante cerca de 2km da Praça Ramos. A transferência - que deveria ser provisória devido às obras de expansão do TMSP - por mais de 40 anos impôs circunstâncias peculiares para atividades e ensaios.

Ao invés de ficar no mimimi do "complexo de patinho feio", ao longo deste período a equipe artística, administrativa e técnica do BCSP construiu para a companhia uma sólida e renomada reputação no país e no exterior. Resultado da dedicação de pessoas como o coordenador Raymundo Costa, que há 37 anos trabalha lá e testemunha a primeira turnê internacional em 1996 à prestigiada Bienal de Dança de Lyon, na França.

Nos episódios mais recentes, o maestro John Neschling, ao assumir a direção artística do TMSP em 2013 e antes dos abalos causados pelas acusações de corrupção, determinou que a ópera teria maior espaço na programação do teatro. Isto causou um encurtamento no calendário de apresentações do BCSP no palco de sua casa principal.

Iracity Cardoso, diretora do BCSP naquele período, acionou uma rede de parceiros e conseguiu fazer estreias importantes previstas para 2015 com o apoio do Sesc SP e do Teatro Alfa. E manteve a agenda na capital paulista, em cidades brasileiras e em outros países.

Ela ainda finalizou sua gestão com ingressos esgotados na venda antecipada para a uma versão contemporânea de O Quebra Nozes, intitulada pelo coreógrafo Alex Soares de Quebrakovsky - The Nuts Talent Show. A temporada teve cinco noites, sendo que a capacidade do TMSP é de mais de 1.500 pessoas. Faça as contas!

B de Brasil
O BCSP nunca foi poupado de críticas pelos coreógrafos internacionais que foram convidados para montagens e remontagens. O fato é que não manter um coreógrafo residente faz parte de uma complexa estratégia.

Não tendo um criador único a assinar suas obras, o BCSP pode instalar pontes entre a produção nacional e internacional, elevando o seu nome e seu potencial no mercado exterior. Pois, nem sempre o Brasil foi visto como uma potência na dança.

Por exemplo, ir para a Europa e apresentar uma obra de algum coreógrafo europeu torna mais acessível e viável a comunicação com o público. É como chegar na França já falando francês. O diálogo flui. Evidentemente, hoje a internet aproxima com mais facilidade um público e uma obra. Ainda, como consequência, também conseguiu destacar o nome de muitos artistas brasileiros lá fora, fossem eles criadores ou intérpretes.

Renomados coreógrafos brasileiros, como Marilena Ansaldi, Denise Namura e Henrique Rodovalho, também coreografaram para o BCSP. Que também sempre teve como missão lançar nomes menos conhecidos, incluindo até mesmo ex-bailarinos que haviam iniciado trajetória como criadores.

O BCSP começou as comemorações de suas cinco décadas em março, quando realizou uma temporada de Um Jeito de Corpo - Balé da Cidade Dança Caetano. Inspirada na poética de Caetano Veloso, a peça tem assinatura da coreógrafa Morena Nascimento - que registra em seu currículo participação no elenco do mítico Tanztheater Wuppertal Pina Bausch.

Não restam dúvidas que o BCSP é um símbolo de resistência. Reinventa-se para buscar novas existências. E sente-se neste resumo que, como o próprio Caê cantou, "cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é".

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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