OPINIÃO
06/06/2018 14:31 -03 | Atualizado 06/06/2018 14:31 -03

A tragédia no Largo do Paissandu foi anunciada pela literatura e teatro

Se Cazuza ainda estivesse entre nós, certamente diria que está vendo o futuro repetir o passado.

Katia Kuwabara
Do meio de escombros, ator do Grupo Redimunho de Teatro encena trecho da peça 'Siete Grande Hotel'.

A esse grito um pânico geral apoderou-se dos moradores do cortiço. Um incêndio lamberia aquelas cem casinhas enquanto o diabo esfrega um olho!

O trecho acima foi extraído do romance O Cortiço, publicado em 1890 e escrito pelo maranhense Aluísio Azevedo (1857-1913) e que - há 128 anos - já denunciava as precárias condições de habitação dos mais pobres, em geral, escravos abolidos e imigrantes.

Qualquer semelhança com o Brasil de 2018 não é mera coincidência.

O fogo, que começou pouco depois da 1h, antes das 3h havia consumido 24 andares do Edifício Wilton Paes de Almeida, um imponente projeto modernista da década de 1960. O colapso da torre no dia 1º de maio deste ano foi, como o romancista descreveu, tão veloz quanto uma coçada de olho.

Da paisagem do Centrão, desapareceram ao mesmo tempo duas edificações tombadas. O espigão consumido pelas chamas que não resistiu e se arruinou. E a Igreja Evangélica Luterana de São Paulo atingida pelos escombros. Somente a torre em estilo neogótico ainda sinaliza que ali se abrigavam um raro órgão de tubos e obras do vitralista Conrado Sorgenicht (1835-1901).

Antes do nascer do sol, umas 90 famílias (mais de 300 pessoas entre crianças e adultos) ficaram desabrigadas e passaram a ocupar a praça entorno da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. E ainda entrará na contabilidade oficial os mortos e desaparecidos.

Os desabrigados são gente vinda das periferias, de cidades do interior, de outros estados e países que encontraram na ocupação uma opção financeiramente viável de se estabelecerem próximo a seus locais de trabalho e da infraestrutura urbana de transporte, saúde, educação e lazer.

Vizinhança
Ano passado, o Grupo Redimunho de Teatro fez a estreia de Siete Grande Hotel: A Sociedade de Portas Fechadas. A sede da trupe está a menos de 1 km do epicentro da tragédia do Largo do Paissandu ocorrida na madrugada de 1º de maio.

A encenação que começava em um prédio histórico da rua Álvaro de Carvalho migrava para o prédio vizinho da avenida 9 de Julho, o Hotel Cambridge. Atualmente, uma entre as mais de 70 ocupações existentes na região central da capital paulista.

Os dados divergem muito por se tratarem de ocupações irregulares. Há um levantamento feito pela Secretaria Municipal da Habitação que aponta a existência de 2.334 cortiços cadastrados apenas pelas subprefeituras da Sé e Mooca.

O tema ganhou ainda mais visibilidade após o grupo ganhar o prêmio de Autor/Dramaturgia para Rudifran Pompeu, entregue pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Mas os holofotes foram insuficientes para jogar luz em toda a problemática.

Imobiliária duvidosa
O incêndio também queimou os tapumes de bloqueavam a visão para um esquema de exploração por parte de grupos que se autodenominam "movimentos de luta por moradia". Moradores da ocupação revelaram que pagavam em média de R$ 200 a R$ 500 por um aluguel a coordenadores do "movimento".

Os invasores são os articuladores de uma ocupação, que veem no déficit habitacional um negócio lucrativo, pois não pagam impostos e podem cobrar como, quanto e quando querem.

A locação por acordo informal é mais escandaloso devido ao fato de que o prédio incendiado se tratava de um patrimônio da União. E a informalidade também não assegura aos pagantes os direitos previstos pela Lei do Inquilinato, sancionada em 1991.

Desprovidos de assistência por parte do locador, os moradores têm recebido auxílios emergenciais da Prefeitura de São Paulo, como hospedagem em abrigos municipais. Em breve, poderão contar com auxílio moradia do Governo do Estado que pagará no primeiro mês R$ 1.200 e, por onze meses, R$ 400.

Felizmente, as famílias também contam com uma rede de solidariedade que tem se formado voluntariamente desde a madrugada.

Sonho da casa própria
Uma solução definitiva precisará passar pela iniciativa dos poderes públicos municipal, estadual e federal em promover a oferta de moradia em condições plenas de segurança e dignidade. E isto inclui NÃO REPETIR a grotesca política habitacional dos anos 1960 e 1970 que expulsava os pobres do centro e os instalava em grotões da periferia, acelerando a gentrificação dos bairros centrais e dificultando o acesso do pobre à infraestrutura urbana.

Essa política da exclusão realizada em várias cidades brasileiras foi mundialmente divulgada pelo filme Cidade de Deus (2002), dirigido por Fernando Meirelles.

Considerando que a história de São Paulo é marcada pela ocorrência de incêndios de grandes proporções, encontrar um caminho para tirar as famílias de iminente risco é tão urgente quanto descobrir se o incêndio foi acidental ou criminoso.

Se Cazuza ainda estivesse entre nós, certamente diria que está vendo o futuro repetir o passado. E repetir um erro, todo o mundo já sabe o que é.