OPINIÃO
02/05/2014 08:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

O índice pão na chapa

Quando foi que, para comer um pão francês com manteiga chapeado acompanhado de uma xícara de café, eu comecei a desembolsar mais que uma nota de R$ 5?

Flickr/markhillary

Para medir a valorização das moedas internacionais, a revista The Economist criou, em 1986, um índice em que compara os preços do Big Mac - talvez a refeição mais globalizada do mundo - praticados em diversos países. No último resultado, divulgado em janeiro deste ano, o Brasil se saiu na quinta posição, ficando atrás apenas de Venezuela, Noruega, Suécia e Suíça. Estamos em cima do pódio.

A metodologia do índice usa o preço do lanche nos EUA (US$ 4,37) como base para a comparação de valores em 45 diferentes nações, além da "região do euro". Nosso Big Mac é o quinto mais caro do mundo, algo que ajuda a indicar como o preço de comer fora no Brasil (seja numa rede fast food, seja num restaurante badalado) está cada vez mais difícil para os nossos (meus, pelo menos!) bolsos proletários - sem qualquer proselitismo trabalhista, juro.

Comecei a pensar nisso ao sair de casa todo dia em busca da dupla "pão na chapa com café" nas padarias. Sentar no balcão, abrir o jornal, comer o pão quente bebericando o café enquanto se escuta a conversa das pessoas, se repercute as notícias do dia, ficar sabendo que o filho da atendente está mesmo com dengue. Um pão na chapa com café na padaria não é uma refeição. É um ritual. Que tem me custado cada vez mais, sem eu ter sequer me dado conta, atento ao papo da mulher ao lado que largou o marido depois de 25 anos de casados. "É um alívio não ter que fazer mais o café para ele..."

Quando foi que, para comer um pão francês com manteiga chapeado acompanhado de uma xícara de café, eu comecei a desembolsar mais que uma nota de R$ 5? Não tenho a resposta, mas tenho a impressão de que foi no século passado. Tem sido frequente, ao pagar a conta, que nem duas "garças brancas" sejam suficientes para manter esse meu vício diário. O índice "pão na chapa" está passando os dois dígitos com a mesma facilidade com que se verte uma xícara de café curto.

E não estou questionando os tipos de farinhas, blends de torrefação, fermentações, ou qualquer coisa nesse sentido ("o café fermentado na barriga da cegonha manca marroquina", como brincou um xará). Bons ingredientes custam, sabemos disso. Estou falando do café simples, do pão francês padrão cotidiano, não do padrão FIFA - que deve ainda dobrar de preço em tempos de jogos por aqui. Vixe!

Mas há esperança! Hoje, no caminho de um exame, parei numa padaria de bairro, frequentada por moradores, em busca da minha dose diária de cafeína e glúten. Na hora de pagar, antes que a caixa me dissesse o preço, abri a carteira e vi só duas notas de dois reais. Ensaiei uma retirada do cartão de débito do meio dos outros, ao que fui surpreendido: "Deu R$ 3,40, senhor". Quase não acreditei. Saí mais feliz que criança deixando a banca com 10 pacotes de figurinhas na mão.

O site SP Honesta, por exemplo, se prontifica a divulgar lugares com preços mais acessíveis, funcionando não como um boicote (como pregaram outros), mas como um serviço para quem, como eu, acha que um pão com manteiga e café não deve custar o preço de um almoço. Há alternativas, senhores. Longe das boulangeries gourmets, dos cafés requintados, das galerias dos pães, ainda é possível tomar café da manhã com uma nota de 5 reais. E, de quebra, ficar ligado no único noticiário que importa nos dias de hoje: o balcão da padaria.