OPINIÃO
08/09/2018 12:47 -03 | Atualizado 08/09/2018 12:47 -03

Torça para o atentado a Bolsonaro não gerar mais violência

Candidato à Presidência pelo PSL, Jair Bolsonaro foi esfaqueado na tarde de quinta-feira (6).

Na véspera do atentado, Bolsonaro brinca de chutar pixuleco, que representa o ex-presidente Lula.
Adriano Machado / Reuters
Na véspera do atentado, Bolsonaro brinca de chutar pixuleco, que representa o ex-presidente Lula.

Qualquer pessoa com um mínimo de bom senso e empatia está estarrecida com o atentado à vida do candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL). Os indignados também estão se perguntando: como deixamos as coisas chegarem a esse ponto?

Existem vários episódios de violência, atentados e assassinatos contra políticos na História do Brasil — recentemente tivemos a execução da vereadora Marielle Franco, do PSOL, no Rio de Janeiro —, mas um atentado como esse, envolvendo um presidenciável, um civil, durante uma campanha eleitoral, parece não ter precedentes.

Fica a torcida para que o candidato Bolsonaro se recupere o mais rápido possível.

Entretanto, nossa consternação e perplexidade não pode nos fazer deixar de lado um outro assunto grave. Ao mesmo tempo em que lamentamos e demonstramos nossa indignação e solidariedade, precisamos encarar esse fato trágico friamente e fazer uma análise, ainda que breve, do acontecido e do que o rodeia.

O perigo é que haja uma reação ainda mais violenta a esse ato violento.

Sempre que alguém afirma que a solução para o problema da segurança pública no Brasil é facilitar o acesso da população às armas de fogo, respondo com o chavão: "violência gera violência". Imaginemos que o autor da facada tivesse um revólver. Bolsonaro poderia estar numa situação muito mais grave agora, ou até mesmo morto.

Quando fazemos uso desse clichê, geralmente nos referimos a atos concretos de violência, a agressões físicas. Mas não é só esse tipo de violência que gera violência. O discurso violento/agressivo também a estimula. Basta ver quantas brigas de trânsito acontecem por causa de um xingamento ou um gesto. Algumas delas, quando uma das partes envolvidas possui arma de fogo, acabam de maneiras trágicas.

Colocar isso em discussão não significa, de maneira alguma, culpar o candidato Bolsonaro pelo atentado que sofreu.

O candidato Jair Bolsonaro é conhecido por ter um discurso agressivo. Tivemos, dias atrás, mais um exemplo dessa retórica de Bolsonaro quando, em campanha política no Acre, ele disse, no microfone, "vamos fuzilar a petralhada do Acre". Isso é incitação à violência, que, a propósito, é crime.

Colocar isso em discussão não significa, de maneira alguma, culpar o candidato Bolsonaro pelo atentado que sofreu. A culpa da agressão — de qualquer agressão — é sempre do agressor. Pelas apurações da imprensa e pelo perfil numa rede social do autor da facada, suspeita-se que ele tenha algum problema de ordem mental. Ou seja: não podemos justificar seu ato como uma consequência do discurso de ódio do Bolsonaro. É preciso separar as coisas.

Afinal, pessoas equilibradas psicologicamente podem, em tese, ouvir discursos odientos à exaustão sem ter uma reação violenta. O problema é que existem pessoas que não têm esse equilíbrio. Tanto de um lado do espectro político quanto de outro. Lembremos, pois, do atentado ao ônibus do ex-presidente Lula, meses atrás.

O ódio que Bolsonaro semeia só se voltou contra ele porque atingiu uma pessoa que, aparentemente, carece de discernimento e deveria ter algum acompanhamento psicológico. E, agora, cá estamos nós, preocupados com o que mais pode acontecer. O perigo é que haja uma reação ainda mais violenta a esse ato violento.

Esse acontecimento terrível pode nos levar a uma espiral de violência para a qual nenhum de nós está preparado. Portanto, o momento, agora, é de muito cuidado, muita calma e muito bom senso.

Baixar a cabeça para discursos odientos e preconceituosos está fora de questão, mas é preciso manter a calma e não acirrar ainda mais os ânimos. Isso vale para todos nós, e é para o bem de todos nós.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.