OPINIÃO
30/03/2016 15:49 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

O verdadeiro Plano Temer

O vice-presidente, até pouco tempo decorativo - como ele mesmo diz em sua carta-desabafo -, deseja ansiosamente ser o protagonista desta ópera bufa que estamos assistindo. Enquanto a presidente e seus aliados tentam, a todo custo, escapar do impeachment, Temer faz reuniões com possíveis aliados e já planeja seu próprio ministério.

Ueslei Marcelino / Reuters
Brazil's Vice President Michel Temer smiles during a lecture in a private university in Brasilia, August 6, 2015. REUTERS/Ueslei Marcelino

Na reunião do PMDB que sacramentou a saída do partido da base aliada do governo, da qual fez parte nos últimos 13 anos, houve uma única surpresa: ela ter durado não mais que três minutos.

A saída em si não foi novidade. Existe um grupo de pmdbistas que vem sabotando o governo Dilma há anos, no mínimo desde os últimos meses de Henrique Eduardo Alves como presidente da câmara dos deputados - seu mandato terminou em fevereiro de 2015, quando foi sucedido por Eduardo Cunha.

As inúmeras derrotas impostas ao governo em votações na câmara, a grande quantidade de projetos questionáveis apresentados e a clara má vontade em aprovar medidas importantes para o governo são a prova de que a intenção de uma ala do PMDB era, tal como cupins, corroer o governo de dentro para fora.

Nessa ópera bufa, em que um grupo de políticos corruptos faz de refém uma presidente da república, o que mais surpreende é a completa inépcia da protagonista e de seus aliados. Assessorada por uma equipe que em alguns momentos pareceu "jogar para o outro time", a presidente Dilma acreditou que conseguiria reconquistar o apoio do PMDB se mais cargos de destaque fossem cedidos ao partido.

Ministérios foram rifados, presidências de estatais foram entregues, nomeações em cargos comissionados foram feitas. Mas a presidente e seus assessores - conselheiros? - foram incapazes de enxergar a realidade. Era óbvio que, quanto mais cedessem, mais seriam exigidos. E assim foi. Deveriam ter utilizado o lema norte-americano: "não negociamos com terroristas" - substituindo-se a palavra "terroristas" por "bandoleiros".

A completa falta de sensibilidade do atual governo nos trouxe até onde estamos. Foram tomadas seguidas decisões erradas na economia, houve má vontade da presidente em relacionar-se bem com o congresso - e até mesmo com seu vice, no que conste a carta-desabafo de Michel Temer - e, além disso, adotou-se, sabe-se lá baseada em que, a postura arrogante de jamais reconhecer os próprios erros e pedir desculpas à nação.

O que mais impressiona é que, mesmo depois de tudo o que aconteceu, a presidente e seus "conselheiros" seguiam com esperanças de que seria possível evitar a saída do PMDB da base aliada. Não poderiam estar mais enganados.

Além da debandada, na reunião relâmpago ficou acertado que todos os pmdbistas devem entregar os cargos que ocupam no governo. Caso assim não procedam, serão punidos - como, ninguém disse.

O primeiro a entregar o cargo foi Henrique Eduardo Alves, que, pasmem, era ministro do turismo. Outros três devem fazer o mesmo nos próximos dias. E há três dissidentes - Kátia Abreu (Agricultura), Marcelo Castro (Saúde) e Celso Pansera (Ciência, Tecnologia e Inovação) - pensando no que fazer, se deixam o partido ou se deixam o governo.

Mais peculiar que a situação dos três dissidentes é a do vice-presidente Michel Temer. Companheiro de chapa da presidente desde o primeiro mandato e presidente do PMDB, Temer está livre para renunciar ao seu cargo a qualquer momento. Mas isso não vai acontecer.

O vice-presidente, até pouco tempo decorativo - como ele mesmo diz em sua carta-desabafo -, deseja ansiosamente ser o protagonista desta ópera bufa que estamos assistindo. Enquanto a presidente e seus aliados tentam, a todo custo, escapar do impeachment, Temer faz reuniões com possíveis aliados e já planeja seu próprio ministério.

Citado por delatores da operação Lava Jato, assim como vários de seus companheiros de partido, Michel Temer e seus asseclas parecem vislumbrar no horizonte a possibilidade de escaparem da justiça caso cheguem ao poder.

Diante de tantas variáveis, não é nenhum devaneio imaginar que, fortalecidos pela saída da presidente Dilma e com o apoio de parlamentares da oposição e de parte da população, os pmdbistas e seus aliados consigam aproveitar a euforia pós-impeachment para enfraquecer as investigações contra eles atualmente em curso. Esse seria o verdadeiro "Plano Temer".

Dizer que a situação da presidente Dilma é delicadíssima não é nada mais que uma platitude. Cercada por todos os lados - crise econômica, crise política, processo de impeachment, casos de corrupção, delações premiadas envolvendo a cúpula de seu partido -, a presidente parece perdida, sem saber o que fazer.

Michel Temer e o PMDB, ao contrário, sabem muito bem.

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