OPINIÃO
16/01/2018 21:03 -02 | Atualizado 16/01/2018 21:06 -02

O risco Bolsonaro

A esquerda, o centro e quem mais tiver juízo deveriam levar a sério possibilidade de vitória de deputado na campanha presidencial.

Legião de eleitores de Bolsonaro só cresce.
Ueslei Marcelino / Reuters
Legião de eleitores de Bolsonaro só cresce.

Em janeiro de 2016, enquanto ainda disputava as prévias do Partido Republicano para a eleição presidencial de 2016 nos Estados Unidos, o agora presidente Donald Trump declarou que poderia atirar em alguém na Quinta Avenida, uma das mais importantes e movimentadas avenidas de Nova York, e mesmo assim não perderia nenhum apoiador.

Sim, é verdade. Donald Trump falou exatamente isso. Depois de afirmar que seus apoiadores são "very smart" ("muito inteligentes"), ele disse "I could stand in the middle of Fifth Avenue and shoot somebody and I wouldn't lose any voters".

Tanto as prévias quanto a campanha presidencial foram marcadas por uma série de comentários desastrosos, preconceituosos e chocantes do hoje presidente da mais importante nação do mundo. No caso que mais gerou espanto - e pasmem: não por ser o mais grave, mas porque se tratava de um áudio do então candidato, e não de um "ouvi dizer" -, Donald Trump disse que costumava agarrar mulheres, sem o consentimento delas, por suas genitálias (o famoso "grab them by the pussy").

Trump foi criticado duramente pela mídia que ainda tem juízo e por várias personalidades de peso - Barbra Streisand, Tom Hanks, Robert De Niro, Meryl Streep e J.K. Rowling são alguns nomes -, mas nada disso conseguiu evitar que o bilionário chegasse ao cargo de presidente.

Em 2018, a eleição presidencial mais importante para nós, brasileiros, acontece aqui mesmo. Entre os possíveis candidatos, temos o deputado federal Jair Bolsonaro, que está em segundo lugar nas intenções de voto, atrás apenas do ex-presidente Lula, que lidera as pesquisas em todos os cenários.

Assim como Trump, Bolsonaro fala muita bobagem. E, assim como Trump, tais bobagens não o fazem perder eleitores, pelo contrário: seu séquito parece crescer cada vez mais.

Mesmo declarando que "mulher deve ganhar salário menor porque engravida", Bolsonaro tem o apoio de muitas mulheres. Mesmo declarando que "seria incapaz de amar um filho homossexual. Prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí", Bolsonaro tem o apoio de homossexuais.

Mesmo declarando que "o erro da ditadura foi torturar e não matar", Bolsonaro tem o apoio de "pessoas de bem". Nenhuma dessas (e outras) declarações fez o deputado perder apoio.

Nas últimas semanas, foram veiculadas matérias sobre o rápido crescimento do patrimônio de Jair Bolsonaro e de seus filhos políticos (Carlos, Flávio e Eduardo), e sobre ele e Eduardo, deputados federais, receberem auxílio-moradia mesmo tendo apartamento próprio em Brasília.

Se alguém pensa que notícias desse tipo vão causar algum impacto nos eleitores dele, é melhor tirar o cavalinho da chuva. Nos comentários a essas notícias, o que mais se vê são manifestações de apoio à família Bolsonaro - e críticas a Lula e ao PT, que nada têm a ver com as histórias. Por isso, faz sentido pensar que é mais provável Bolsonaro se fortalecer mesmo sob bombardeio, assim como aconteceu com Donald Trump.

A eleição de Trump é um exemplo de como muitas pessoas não estão nem um pouco interessadas nos fatos, ou de como não estão nem um pouco preocupadas com coisas importantes chamadas decência, respeito e direitos humanos. Talvez a nossa sorte seja que, diferentemente dos Estados Unidos, onde ganha quem vence num maior número de colégios eleitorais, o voto popular é que decide. Vale a pena lembrar: pelo voto popular, Hillary Clinton seria a presidente dos EUA, não Trump.

O problema é que, nas pesquisas de intenção de voto feitas sem o nome do ex-presidente Lula, Bolsonaro assume o primeiro lugar.

Como Lula deve ser condenado em segunda instância na ação em que é acusado de ter recebido um apartamento tríplex como propina e impedido de concorrer, e como a esquerda não tem outro nome de peso nem está trabalhando para criar um agora, o risco de acontecer uma tragédia - a eleição de Bolsonaro seria uma tragédia - não é tão pequeno como alguns pensam.

Em vez de menosprezar o risco de Bolsonaro ser eleito (nos EUA foram raros os que levaram a sério a possibilidade de Trump vencer), a esquerda (e o centro e quem mais tiver juízo) deveria levar a sério essa possibilidade e trabalhar para construir um caminho em que, mesmo sem Lula, Bolsonaro não tenha chances de chegar à Presidência da República.

Se Bolsonaro for eleito presidente, todos perderemos. Principalmente as mulheres, os homossexuais e as "pessoas de bem" que hoje o apoiam.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.